Planalto já trabalha com três cenários para a decisão de Trump sobre o tarifaço — e nenhum deles é “sem tarifa”

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A poucas horas do prazo final para o anúncio da decisão americana sobre a nova etapa do tarifaço contra o Brasil, o Palácio do Planalto avança na formulação de uma estratégia de resposta escalonada, com linhas de ação diferentes conforme o cenário que se confirmar. Segundo a coluna Painel, da Folha de S.Paulo, o governo já trata como cenário mais provável a confirmação da sobretaxa de 25% sobre parte das exportações brasileiras — a mesma decisão que, como já registrado em cobertura anterior, o próprio governo já classificava como praticamente certa dias atrás.

Três roteiros, uma mesma incerteza

A equipe econômica e diplomática trabalha simultaneamente com três hipóteses: a confirmação pura e simples da tarifa de 25% acompanhada da acusação de práticas comerciais desleais; uma versão da mesma tarifa com lista ampliada de produtos isentos; ou, na hipótese considerada menos provável, um adiamento da aplicação sob justificativa de continuidade das negociações. Cada cenário exige uma resposta política distinta, e é essa modelagem simultânea que ocupa boa parte da rotina da equipe nos últimos dias antes do anúncio.

Pix e meio ambiente: os dois pontos que Washington usa, e Brasília rejeita

Entre os temas citados pelos Estados Unidos na investigação baseada na Seção 301 da legislação comercial americana estão o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos — tratado por Washington como possível obstáculo à atuação de operadoras estrangeiras de cartão — e a política ambiental do país. Caso esses dois pontos apareçam de fato na justificativa final, a orientação do governo é rebater com veemência: o Pix seria apresentado como infraestrutura pública voltada a ampliar concorrência e reduzir custos, não como barreira protecionista; e o argumento ambiental, contestado com dados oficiais sobre desmatamento e as próprias políticas de fiscalização já em vigor, sob a avaliação interna de que o tema estaria sendo usado como verniz político para uma medida essencialmente comercial.

A batalha silenciosa pelas exceções

Enquanto a decisão política se desenha, o front mais concreto da negociação segue sendo a lista de produtos isentos da sobretaxa. Quando a investigação foi aberta, o governo americano já havia retirado da lista itens como carnes, frutas, café, cereais e sementes — e é justamente essa lista que setores produtivos brasileiros tentam ampliar antes do anúncio final. A Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), por exemplo, pediu formalmente a exclusão do setor químico nacional da tarifa proposta, unindo-se a outros segmentos que já vinham fazendo pressão direta junto ao USTR nas semanas anteriores — o mesmo canal que, poucos dias antes, havia recebido tanto a articulação oficial do governo brasileiro quanto a atuação paralela e polêmica do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que defendeu publicamente na mesma audiência um adiamento da decisão por razões que o próprio Planalto já classificou como eleitoreiras.

Soberania como discurso de defesa

A linha política que o governo pretende adotar, independentemente do desfecho técnico, é a de apresentar o episódio como tentativa de ingerência estrangeira no debate eleitoral brasileiro — reforçando a narrativa que Lula já vinha construindo nas semanas anteriores. Auxiliares do presidente relatam frustração com o fato de que nem os argumentos técnicos apresentados por Brasília, nem os alertas do setor privado levantados durante a própria audiência pública do USTR, pareceram alterar significativamente a posição americana até aqui — um sinal de que a decisão de Trump pode estar menos ligada aos méritos técnicos da disputa comercial do que a um cálculo político mais amplo, que também abrange o cenário eleitoral brasileiro de outubro.

O que fica claro às vésperas da decisão

Independentemente de qual dos três cenários se confirme nesta quarta-feira, a mensagem que o Planalto já deixa evidente é que não haverá recuo brasileiro em pontos como o Pix e a política ambiental — e que a resposta, caso a tarifa seja de fato aplicada, vai combinar negociação técnica continuada com uma ofensiva discursiva sobre soberania nacional, testando até que ponto esse discurso consegue tanto conter os danos econômicos concretos quanto capitalizar politicamente um momento que, cada vez mais, se confunde com a disputa presidencial que já começou no Brasil.

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