Presidente da transição que expulsou as tropas francesas agora rompe o último canal diplomático e tenta transformar soberania em segurança, empregos e desenvolvimento.
O capitão Ibrahim Traoré, presidente da transição de Burkina Faso, rompeu em 26 de junho as relações diplomáticas com a França. A decisão completou a ruptura que ele abriu três anos antes, quando seu governo expulsou as tropas francesas de seu país.
Aos 38 anos, Traoré agora desafia o legado africano de Emmanuel Macron em terreno mais difícil. Conseguirá transformar independência diplomática em segurança, empregos e desenvolvimento sem trocar Paris por Moscou?
Traoré expulsa as tropas e corta o último vínculo
Ibrahim Traoré é geólogo de formação e serviu como militar em regiões atingidas por grupos armados. Ele chegou ao poder em setembro de 2022, no segundo golpe de Estado ocorrido naquele ano em Burkina Faso. Não é um presidente eleito. Lidera uma transição militar que foi prorrogada por cinco anos a partir de julho de 2024.
Traoré construiu sua força política com a promessa de recuperar o território, enfrentar o terrorismo e romper a tutela colonial. Em 2023, expulsou o destacamento francês. Cerca de 400 militares foram obrigados a deixar o país depois que seu governo rompeu o acordo que sustentava a presença militar de Paris.
O comunicado que formalizou a ruptura diplomática afirma que já não havia confiança, respeito à soberania ou garantia de não ingerência. O governo acusou a França de alimentar redes subversivas e apoiar grupos terroristas no Sahel, mas não apresentou provas dessas acusações no documento.
Paris reagiu pelo Ministério das Relações Exteriores. Classificou a decisão como hostil e sem fundamento e negou qualquer apoio ao terrorismo. O rompimento atinge os governos, mas o próprio comunicado burquinense preserva os laços históricos, humanos e culturais entre os dois povos.
Macron prometeu enterrar a tutela e perdeu Burkina Faso
Macron herdou o sistema de influência conhecido como Françafrique e prometeu enterrá-lo. No Sahel, os fatos desmentiram a promessa.
No início de seu primeiro mandato, Macron escolheu a Universidade de Ouagadougou, na capital burquinense, para anunciar que não existia mais uma política africana da França. Reconheceu os crimes da colonização europeia e prometeu abandonar a tutela.
Seis anos depois, após perder presença militar em Mali, Níger e Burkina Faso, defendeu a intervenção de Paris e chamou os líderes dos golpes de amigos da desordem. Em maio de 2026, Macron voltou ao tema. Durante uma visita ao Quênia, negou que a França ainda tratasse a África francófona como seu quintal e afirmou que aquela época havia terminado.
Seis semanas depois, Traoré rompeu relações diplomáticas com Paris. A decisão enterrou em Burkina Faso a promessa francesa de uma relação sem tutela. Macron perdeu tropas, embaixada e influência política no mesmo país onde lançara sua estratégia para a África.
Um país de 24 milhões de habitantes
Burkina Faso ocupa cerca de 274 mil quilômetros quadrados no oeste da África e não tem saída para o mar. Sua população chegou a aproximadamente 24,1 milhões de habitantes em 2025. O país faz fronteira com Mali, Níger, Benin, Togo, Gana e Costa do Marfim.
O Produto Interno Bruto ficou em US$ 23,1 bilhões em 2024, segundo o Banco Mundial. Isso equivaleu a US$ 982 por habitante. Na comparação regional do mesmo ano, a economia burquinense ficou acima da do Níger, estimada em US$ 19,9 bilhões, e abaixo das economias de Mali, com US$ 26,8 bilhões, e Senegal, com US$ 32,8 bilhões.
O país tem mais habitantes que o Senegal, mas produz menos riqueza. Os números expõem o tamanho do desafio de Traoré. Soberania política precisa chegar a uma população jovem que vive numa economia de renda baixa e enfrenta violência armada, deslocamentos e serviços públicos frágeis.
A agricultura sustenta direta ou indiretamente mais de 80% da população, segundo o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola. Cereais como sorgo, milheto, milho e arroz dividem espaço com algodão, pecuária e castanha de caju. Em 2024, agricultura, silvicultura e pesca responderam por 18,6% do PIB. Indústria e construção representaram 26,5%, enquanto os serviços chegaram a 44%.
O ouro revela a riqueza e a dependência
O ouro é a grande fonte de divisas e também o retrato mais duro da economia burquinense. Em 2024, o setor extrativo respondeu por 15,1% do PIB e por 69,6% das exportações, de acordo com o relatório nacional da Iniciativa para a Transparência das Indústrias Extrativas. Apesar desse peso, gerou apenas 0,7% dos empregos diretos.
O país produziu 60,77 toneladas de ouro naquele ano. Nos dados comerciais detalhados de 2023, o metal rendeu US$ 3,5 bilhões em exportações e apareceu muito à frente do algodão bruto, da castanha de caju e do cimento.
Burkina Faso também possui manganês em Tambao, fosfato em Kodjari, zinco, calcário, prata e granito. Parte desses recursos ainda aparece como depósito mapeado ou reserva estimada, não como produção efetiva. O manganês de Tambao, por exemplo, tem reserva estimada em 107 milhões de toneladas. O zinco de Perkoa está com a produção paralisada desde 2022.
Traoré colocou o controle das minas no centro de seu governo. O Estado assumiu o controle de ativos antes dominados por grupos estrangeiros e os transferiu para a empresa pública SOPAMIB. Também inaugurou uma unidade de tratamento de resíduos minerais e defendeu maior processamento dentro do país.
Em discurso na cúpula Rússia África de 2023, ele perguntou por que um continente tão rico em recursos continuava sendo a região mais pobre do mundo. Os números do ouro dão peso à pergunta. O problema não é apenas quem possui a mina. É quanto da riqueza permanece no país, quantos empregos são criados e quem domina a tecnologia de extração e processamento.
A expulsão das tropas francesas abre outra disputa
Traoré aproximou Burkina Faso de Mali e Níger na Confederação dos Estados do Sahel. Os três governos defendem coordenação militar, soberania regional e menor dependência das antigas potências coloniais.
O governo burquinense também aprofundou a cooperação militar, educacional e tecnológica com a Rússia. Moscou prometeu equipamentos e instrutores, enquanto Traoré pediu transferência de conhecimento, formação científica e apoio à industrialização.
A ruptura reduziu o poder de pressão de Paris. Mas trocar Paris por Moscou não é independência. O resultado dependerá da capacidade de Burkina Faso de negociar tecnologia, produzir dentro do país e conservar poder de decisão sobre suas riquezas e sua segurança.
A cobrança começa dentro do país
Traoré conquistou admiradores com o discurso anti-imperialista. Agora terá de provar sua força dentro do país. Um retrato publicado em 2025 pela Associated Press, com dados do projeto ACLED, registrou pelo menos 7.200 mortos no ano anterior, 2,1 milhões de deslocados e mais de 60% do território fora do controle estatal segundo analistas.
Também existem denúncias graves contra forças de segurança, milícias aliadas ao governo e grupos jihadistas. A Human Rights Watch documentou mais de 1.800 civis mortos em episódios ocorridos entre 2023 e 2025 e afirmou haver crimes de guerra e crimes contra a humanidade. O governo rejeitou o relatório e o classificou como falso e baseado em conjecturas.
Traoré conquistou uma vitória política sobre a antiga potência colonial. Ela não resolve a guerra, não substitui eleições e não distribui sozinha a riqueza do ouro.
Agora começa o teste decisivo. Se o controle dos recursos financiar escolas, segurança, indústria e empregos, a soberania ganhará forma concreta. Se a riqueza continuar saindo enquanto a população permanece pobre e o território inseguro, a independência ficará restrita à bandeira.