Europa desafia mito da superioridade dos Estados Unidos

Diferenças na medição da produtividade e do setor de tecnologia ajudam a explicar o aparente desempenho superior da economia norte-americana / Reprodução

Já se perguntou onde se vive melhor? Na Europa ou nos EUA? Essa análise mostra o que indicadores de bem-estar e renda revelam

Existe um discurso repetido à exaustão em Washington, em Bruxelas e também em boa parte da imprensa econômica: a Europa estaria estagnada, presa a um passado glorioso, enquanto Estados Unidos e China correm para o futuro. Contudo, quando os dados são analisados com mais calma, essa narrativa simples começa a mostrar rachaduras importantes.

O economista Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel, resumiu bem esse clima de opinião em um artigo recente, que também retoma um estudo anterior de Seth Ackerman. Segundo ele, “existe… uma percepção generalizada de que a Europa está vivendo de suas glórias passadas, que está ficando para trás em relação aos Estados Unidos e à China de maneiras que minarão sua capacidade de manter sua posição econômica no mundo”. Aliás, esse mesmo receio motivou relatórios influentes produzidos na própria Europa, como a análise de Mario Draghi divulgada em 2024.

Comparar economias é mais complicado do que parece

Antes de qualquer conclusão apressada, vale reconhecer certos fatos difíceis de contestar. Os Estados Unidos, por exemplo, seguem à frente em tecnologias digitais avançadas e, sobretudo, em inteligência artificial. Além disso, por ser um único Estado nacional, o país tem uma vantagem estrutural na hora de criar e usar instrumentos de poder global, algo que a União Europeia, formada por países distintos, não consegue replicar com a mesma agilidade.

Ainda assim, convém lembrar das palavras fortes sobre “vida, liberdade e a busca da felicidade” presentes na Declaração de Independência americana. Afinal, quando olhamos para indicadores de bem-estar humano, o retrato muda bastante.

O que os números de saúde e segurança revelam

Em 2024, a expectativa de vida masculina nos Estados Unidos era de 76,5 anos, enquanto a média entre países de alta renda comparáveis chegava a 80,5 anos. Entre as mulheres, o país registrava 81,4 anos, contra 84,8 anos nessas mesmas nações. Curiosamente, isso acontece mesmo o país gastando uma fatia bem maior do seu PIB com saúde.

A diferença também aparece, e de forma ainda mais dura, nos indicadores de violência e encarceramento. Em 2023, a taxa de homicídios nos EUA chegou a 5,9 por 100 mil habitantes, enquanto a França registrava 1,3 e a Alemanha, apenas 0,9. Já a população carcerária americana somava 542 pessoas presas por 100 mil habitantes, um número muito acima dos 130 da França e dos 69 da Alemanha.

Diante desses dados, fica evidente que, se ampliarmos o critério para além da produção econômica pura, os Estados Unidos estão longe de ocupar o topo. Aliás, comparando o país aos próprios ideais defendidos por seus fundadores, dá até para argumentar o contrário do senso comum. Mas, então, e quando o assunto é estritamente a capacidade de produzir bens e serviços, medida pelo PIB?

É justamente aqui que Krugman identifica um paradoxo curioso, que contradiz boa parte do discurso sobre o suposto fracasso europeu. Segundo ele, existem duas formas distintas de comparar desempenho econômico: observar o crescimento do PIB real per capita ao longo do tempo, ou comparar o nível relativo do PIB per capita em um ano específico.

Quando se olha para o crescimento desde o ano 2000, os Estados Unidos realmente superam a Zona do Euro com folga. Porém, ao comparar o PIB per capita relativo entre as duas regiões, essa vantagem simplesmente desaparece: o PIB per capita da Zona do Euro, na verdade, cresceu em relação ao americano.

Isso levanta uma pergunta interessante: como uma economia pode crescer mais rápido e, ainda assim, não terminar relativamente mais rica do que estava antes? Para responder, é preciso investigar como esses números são medidos, e não apenas o que eles mostram na superfície.

O setor de tecnologia explica boa parte da diferença

Um dos achados mais reveladores está justamente no setor tecnológico. Embora ele represente apenas 9,2% do PIB americano, contra 5,4% do PIB da União Europeia, essa diferença de tamanho relativo explica quase metade do descompasso na produtividade entre as duas economias.

Além disso, mesmo o setor de tecnologia europeu, proporcionalmente menor, apresenta crescimento de produtividade medido como inferior ao americano. Somando os dois efeitos, o setor tecnológico sozinho responde por bem mais da metade de toda a diferença no crescimento do PIB per capita entre EUA e Europa.

Há, porém, um detalhe técnico importante nessa conta. O crescimento acelerado de produtividade relatado no setor tecnológico americano depende de ajustes chamados “hedônicos” nos preços, que tentam calcular o valor gerado pelo aumento da capacidade de processamento oferecida aos consumidores. Só que essas medidas carregam um grau elevado de incerteza.

Por isso, o crescimento mais forte da produtividade tecnológica americana — e, consequentemente, do PIB per capita do país — não está necessariamente errado, mas depende fortemente de escolhas metodológicas. Vale destacar que, fora do setor de tecnologia, o crescimento de produtividade nas duas economias é bastante parecido, e esses outros setores representam a maior parte de ambos os PIBs.

Como comparar padrões de vida de forma mais justa

Comparar o PIB per capita em paridade de poder de compra entre países, em um momento específico, também exige cuidado, mas de um jeito mais direto. Em vez de comparar um carro de hoje com um de vinte anos atrás, o exercício aqui é comparar um carro americano e um europeu no mesmo ano, atribuindo a eles valores equivalentes.

Esse é justamente o método usado pelo Programa de Comparação Internacional do Banco Mundial há mais de cinco décadas. Trata-se, até hoje, da forma mais confiável de comparar padrões de vida entre países, já que o PIB per capita convertido em moeda corrente costuma ser volátil e distorce bastante as comparações envolvendo bens que não são comercializados internacionalmente. Entre economias relativamente parecidas, como Estados Unidos e Europa, essas medidas tendem a ser bem mais robustas.

Existe ainda uma complexidade adicional: o consumo real por hora trabalhada cresceu mais devagar na Europa do que nos Estados Unidos. Contudo, mais uma vez, parte dessa diferença pode ser explicada pelos mesmos ajustes hedônicos mencionados antes. De qualquer forma, Krugman observa que as comparações diretas de consumo per capita seguem o mesmo padrão histórico do PIB per capita, o que reforça a consistência da análise.

Diante de tudo isso, qual seria a explicação mais profunda para esse paradoxo? Segundo um modelo simples proposto por Krugman, o setor tecnológico americano funciona, na prática, como fornecedor de um bem público global: a tecnologia mais avançada disponível no mundo.

Esse benefício, então, acaba se espalhando para além das fronteiras americanas, sustentando padrões de vida relativos tanto dentro quanto fora dos Estados Unidos. Obviamente, os donos dessas grandes empresas de tecnologia lucram bastante com esse modelo — e, vale lembrar, eles podem escolher morar em praticamente qualquer lugar do planeta enquanto colhem esses ganhos.

A conclusão principal, portanto, é que a Europa não enfrenta nenhuma desvantagem clara em termos de bem-estar relativo quando comparada aos Estados Unidos. Ainda assim, existe um ponto crucial de fragilidade real: sua capacidade de aproveitar os avanços tecnológicos depende diretamente do acesso a insumos produzidos pelos americanos. Nesse sentido, os maiores desafios que a Europa enfrenta hoje não são exatamente econômicos, mas sim ligados à segurança e à defesa — e é justamente aí que o continente precisa concentrar sua atenção.

Com informações de Financial Times* Tradução e revisão de Rhyan de Meira *

Rhyan de Meira: Rhyan de Meira é jornalista pela Universidade Federal Fluminense, escreve sobre política, economia e carnaval. É repórter, redator e editor dos site O Cafezinho e Rio Carta. / Contato: Redes: @rhyandemeira / Email: rhyandemeira@hotmail.com
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