O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, publicou na noite desta quarta-feira uma mensagem que é um verdadeiro insulto à inteligência do povo brasileiro. Parece uma postagem escrita pelo próprio Flávio Bolsonaro.
Na mensagem, Rubio anuncia que Trump instruiu o USTR a impor uma tarifa de 25% sobre importações brasileiras e culpa o presidente Lula pelo desfecho. Trata-se de um ataque direto e agressivo contra o chefe de Estado do Brasil, uma postura absolutamente bizarra por parte de quem deveria ser o chefe da diplomacia dos Estados Unidos.
Eis a tradução na íntegra da postagem: “Hoje, o presidente Trump instruiu o USTR a impor uma tarifa de 25% sobre a maioria das importações brasileiras. Que não haja confusão sobre o motivo: o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa-fé. Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. No último ano, Lula colocou seu próprio ego acima de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço disso.”
Em poucas palavras, a carta é cheia de mentiras. É um texto carregado de ideologia barata, que repete a cartilha do bolsonarismo em pleno ano eleitoral brasileiro.
Rubio diz que Lula não quis negociar. O Brasil sempre esteve disposto a negociar e nunca deixou a mesa: na terça-feira, véspera do anúncio, representantes do MDIC, do Itamaraty e da Presidência realizavam a quinta reunião de alto nível com o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer.
Os números desmontam a retórica de Rubio. Segundo estatísticas do próprio governo norte-americano, os Estados Unidos acumularam nos últimos 15 anos um superávit de 424,5 bilhões de dólares no comércio de bens e serviços com o Brasil, cerca de 2,1 trilhões de reais.
Ou seja, quem lucra com essa relação comercial são os Estados Unidos, não o Brasil. Deveria ser do interesse americano tratar bem um país que compra tanto dos Estados Unidos e que exporta produtos estratégicos para a indústria e o consumidor americanos.
Ao insultar o Brasil, o que Washington faz é simplesmente empurrar os exportadores brasileiros para outros mercados. E isso já está acontecendo: a fatia dos EUA nas exportações brasileiras caiu para 9,4% no primeiro semestre de 2026, o menor patamar desde o início da série histórica, em 1997.
Enquanto as vendas aos EUA recuaram 13% no semestre, as compras da China cresceram 21,9% e as da União Europeia, 12,8%. As exportações totais do Brasil aumentaram 11,5% no período, ou seja, o país vende mais do que nunca, só que cada vez menos para os americanos.
As exigências dos Estados Unidos ao Brasil eram completamente absurdas. A principal delas, acabar com o Pix, um sistema público e gratuito que é patrimônio do povo brasileiro e referência internacional de infraestrutura digital.
Outras exigências eram simplesmente patéticas ou ridículas, como a de reduzir o desmatamento. O governo brasileiro reduziu dramaticamente o desmatamento, e a exigência é ainda mais cínica porque Donald Trump não liga para a questão ambiental e Jair Bolsonaro, ídolo do atual governo americano, foi o presidente que fez o desmatamento explodir no Brasil.
Rubio afirma que a tarifa atingirá “a maioria” dos produtos brasileiros. É um exagero de tigre sem dentes: os próprios Estados Unidos já foram obrigados a abrir exceções para café, carne bovina, laranja e suco de laranja, peças e componentes aeronáuticos e produtos de energia, justamente os itens de que a economia americana não consegue abrir mão.
Estimativas indicam que a sobretaxa deve atingir cerca de 21% das exportações brasileiras aos EUA, com a lista de exceções tendendo a crescer sob pressão do próprio setor privado americano. Nas audiências públicas do USTR na semana passada, 63 das 78 intervenções de representantes do setor privado brasileiro e norte-americano foram contrárias ao tarifaço.
Entre os produtos que devem ser taxados a partir de 22 de julho estão milhares de itens, do açúcar ao ferro fundido, passando por calçados, madeira, máquinas e alimentos industrializados. Alguns produtos podem chegar a 37,5% de taxação, já que Washington ainda ameaça uma sobretaxa adicional de 12,5% com base em uma investigação sobre trabalho forçado.
Há ainda a dimensão política, a mais grosseira de todas. Escrever um post tão agressivo contra o presidente Lula, em pleno ano eleitoral, evidentemente gera apenas animosidade e antipatia do eleitorado brasileiro, e deixa ainda mais claro que se trata de uma medida política, não comercial.
E é aí que a postagem de Rubio, que parece redigida pelo próprio Flávio Bolsonaro, torna ainda mais patética a subserviência do senador ao governo Trump. Flávio viajou aos Estados Unidos para implorar que Trump adiasse as tarifas para depois das eleições, em vez de exigir a sua anulação, como mostrou o Cafezinho na cobertura da audiência do USTR.
O pedido dele, protocolado em um documento de 86 páginas, era de 180 dias de adiamento, tempo exato para que a punição ao Brasil só caísse depois das urnas. O povo brasileiro sabe reconhecer quem defende o país e quem defende a própria candidatura.