BYD pode superar a Toyota mesmo sem vender nos EUA

A disputa pelo topo da indústria automotiva global ganhou um novo capítulo, e desta vez o protagonismo vem da China. Segundo uma das principais executivas da BYD, a montadora pode ultrapassar a Toyota como maior fabricante de carros do mundo em vendas, mesmo sem qualquer acesso ao mercado americano.

Essa afirmação, na prática, sinaliza algo importante: a empresa chinesa pretende intensificar ainda mais sua já agressiva expansão pela Europa, justamente para compensar a barreira que os Estados Unidos impõem aos seus veículos.

Tudo começou no mês passado, quando Wang Chuanfu, fundador e diretor executivo da BYD, anunciou um plano ousado: tomar a liderança da montadora japonesa dentro de cinco anos. Para isso, a empresa aposta em avanços rápidos na tecnologia de carregamento e em um crescimento explosivo fora da China.

Vale lembrar que, no ano passado, a BYD vendeu 4,5 milhões de carros, um número bem inferior aos 10,5 milhões alcançados pela Toyota. Contudo, é importante destacar que boa parte do desempenho japonês depende diretamente do acesso privilegiado ao lucrativo mercado americano, além da continuidade das vendas de modelos com motor a combustão, uma tecnologia que perde espaço a cada ano.

Stella Li, responsável pelas operações internacionais da BYD, comentou o plano em entrevista ao Financial Times. Segundo ela, “acho que ele estabeleceu essa meta ambiciosa [para ser alcançada] com nosso próprio crescimento orgânico”. Em seguida, ela foi ainda mais direta: “não precisamos do mercado americano para atingir esse objetivo”.

Além disso, Li fez questão de reforçar que a BYD pretende chegar à liderança global sem depender de nenhuma aquisição de outra montadora. Ainda assim, dentro da própria indústria automotiva, o anúncio de Wang foi recebido com bastante ceticismo, justamente pela ausência da BYD no segundo maior mercado automotivo do planeta.

Barreiras políticas travam a entrada nos EUA

Não é segredo que essa ausência tem explicação política, e não apenas comercial. As altas tarifas sobre veículos elétricos, somadas às restrições ao uso de software chinês impostas durante o governo Biden, impediram a BYD de vender carros de passeio nos Estados Unidos.

Apesar disso, a empresa consegue manter uma pequena operação por lá: monta caminhões pesados em uma fábrica na Califórnia e já vendeu mais de 100 unidades desse modelo em solo americano. Ainda assim, esse número é praticamente irrelevante perto do potencial da marca.

A entrada da BYD no mercado europeu levou as montadoras tradicionais a reduzir custos e a firmar parcerias com outras fabricantes chinesas na tentativa de se manterem competitivas. / BYD

Enquanto isso, dentro da própria China, o cenário também não é dos mais fáceis. A concorrência interna se tornou mais acirrada, e Pequim decidiu limitar os subsídios destinados a veículos elétricos, o que prejudicou as vendas da BYD em seu antigo mercado de origem, antes tão próspero.

Como resultado direto dessas pressões, as vendas globais da BYD caíram 16% no primeiro semestre. Ou seja, a forte desaceleração registrada no mercado doméstico chinês acabou ofuscando, ao menos nos números totais, a rápida expansão que a empresa vive em outras regiões, como Europa, sudeste asiático e América Latina.

Europa se torna peça-chave da estratégia chinesa

Diante desse cenário, a Europa passou a ocupar um papel central nos planos da BYD. Isso porque, no continente europeu, a montadora consegue obter margens de lucro maiores com seus veículos elétricos e híbridos plug-in do que na própria China.

Os números comprovam esse avanço: a participação da BYD no mercado europeu mais que dobrou, atingindo 2,8% em maio, na comparação com o ano anterior. Com isso, a montadora chinesa já ultrapassa marcas tradicionais como Ford, Tesla e Nissan, segundo dados da Acea, associação que representa a indústria automotiva europeia.

Fundada em 1995 por Wang, um ex-professor de metalurgia, a BYD conseguiu abrir caminho para outras montadoras chinesas no exterior. A aposta central da empresa sempre foi simples: oferecer preços mais competitivos do que os praticados pelas fabricantes europeias já consolidadas no setor.

Não por acaso, essa entrada agressiva no mercado europeu já provoca reações concretas. Diversas montadoras tradicionais passaram a cortar custos e a firmar parcerias com outras fabricantes chinesas, numa tentativa de não perder ainda mais espaço para essa nova concorrência.

Esse movimento, aliás, não se limita à BYD. Dados oficiais divulgados na terça-feira mostraram que as exportações mensais de automóveis da China bateram recorde em junho, alcançando 1 milhão de unidades pela primeira vez na história. Esse número reforça como as montadoras chinesas, de forma coordenada, buscam crescer cada vez mais fora de seu mercado interno.

BYD esfria interesse em comprar montadoras europeias

Um ponto chama atenção nas declarações de Li: ao afirmar que a BYD pode assumir a liderança global sem precisar de aquisições, ela também sinaliza que a empresa perdeu o interesse em comprar ou investir em montadoras europeias que enfrentam dificuldades financeiras.

Esse recuo estratégico fica ainda mais evidente quando se olha para o histórico recente. No ano passado, a francesa Renault chegou a rejeitar propostas da BYD para adquirir uma participação acionária na empresa, segundo pessoas com conhecimento direto do assunto. Tanto a BYD quanto a Renault preferiram não comentar o episódio publicamente.

Uma fonte próxima à BYD explicou que investir em uma montadora europeia fazia mais sentido cerca de um ano atrás, quando esse tipo de movimento funcionava como um “atalho” para garantir acesso rápido a fábricas e a uma cadeia de suprimentos já estabelecida no continente.

Contudo, segundo essa mesma fonte, a BYD investiu pesado, ao longo do último ano, em sua nova marca premium, a Denza. Por causa disso, fechar um acordo com um concorrente europeu se tornaria, nas palavras da fonte, “uma disrupção muito grande” dentro dos planos já em andamento.

Denza mira o mercado premium dominado pelas marcas alemãs

A aposta da BYD na Denza tem um objetivo claro: conquistar espaço em um segmento historicamente dominado por marcas alemãs consolidadas. Na semana passada, a marca apresentou seu novo supercarro elétrico Z, que deve competir diretamente com o Porsche 911 e chegará ao mercado britânico com preço inicial de £ 142.900.

Stella Li se mostrou confiante quanto ao futuro desse projeto. Segundo ela, “aguardem apenas mais um ano e vocês dirão que podemos fazer isso com sucesso”. Para justificar esse otimismo, a executiva destacou que a tecnologia de carregamento “flash” da BYD deve ajudar a empresa a se firmar nesse mercado tão exigente.

Para viabilizar essa estratégia, o grupo está investindo quase € 2 bilhões na instalação de 3.000 carregadores rápidos por toda a Europa até 2027. Segundo a própria empresa, essa infraestrutura permitirá que os modelos Denza recarreguem 70% da bateria em apenas cinco minutos, um diferencial e tanto para quem hoje ainda hesita em migrar para o elétrico por medo da autonomia.

Por fim, quando questionada sobre uma eventual mudança de estratégia, Li deixou uma porta aberta. Ela afirmou que estaria “aberta a novas ideias” caso surgisse a oportunidade certa de adquirir uma marca premium europeia, mas fez questão de esclarecer que não tinha nenhum nome específico em mente e que, até agora, nenhum possível alvo havia entrado em contato com a empresa.

Com informações de Financial Times*

Rhyan de Meira: Rhyan de Meira é jornalista pela Universidade Federal Fluminense, escreve sobre política, economia e carnaval. É repórter, redator e editor dos site O Cafezinho e Rio Carta. / Contato: Redes: @rhyandemeira / Email: rhyandemeira@hotmail.com
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