O governo do presidente Lula (PT) reagiu com dureza à confirmação da tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, classificando a decisão de Donald Trump como um “marco lastimável” nas relações bilaterais. Em nota oficial divulgada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Brasília anunciou que vai recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC) e acionar a Lei de Reciprocidade Econômica, aprovada por unanimidade pelo Congresso, para responder à medida americana.
A tese central do governo: os próprios números dos EUA desmentem a Casa Branca
A resposta brasileira aposta tudo em uma estratégia de desconstrução técnica: usar dados oficiais americanos para provar que a justificativa comercial de Trump não se sustenta. Segundo a nota, estatísticas do próprio governo dos Estados Unidos mostram superávit de US$ 424,5 bilhões no comércio de bens e serviços com o Brasil ao longo dos últimos 15 anos. Além disso, 76% das importações americanas entraram no país sem qualquer imposto em 2025, e a tarifa média efetivamente aplicada a produtos dos EUA foi de apenas 3,1% — números que, na leitura do Planalto, tornam insustentável a alegação de que o Brasil pratica barreiras comerciais discriminatórias contra empresas americanas.
Nem o setor privado dos EUA apoiou a medida
Um dado que reforça esse argumento, e que o governo faz questão de destacar: das 78 manifestações apresentadas por representantes do setor privado brasileiro e americano durante as audiências públicas do USTR, 63 foram contrárias à imposição das tarifas. Ou seja, mesmo entre empresários ouvidos diretamente pelo governo americano — incluindo companhias dos próprios Estados Unidos —, a rejeição à medida foi amplamente majoritária, o que a nota brasileira usa como evidência de que o tarifaço tem motivação política, não econômica.
Pix, meio ambiente e “tecno-oligarcas”: a linha que o governo não cede
O documento reafirma que o Brasil não vai flexibilizar nenhum dos pontos citados pelos americanos como justificativa: o Pix é tratado como “patrimônio do nosso povo e referência internacional de infraestrutura pública digital”, e o governo vai além, criticando diretamente a pressão de big techs americanas sobre a regulação brasileira: “não vamos abdicar de proteger nossas famílias e nossas crianças contra a ganância de um punhado de tecno-oligarcas”. Sobre desmatamento, a nota contesta as acusações citando redução expressiva em todos os biomas desde 2023, e defende as decisões do STF sobre plataformas digitais como mero cumprimento da legislação nacional.
O alvo interno: “falsos patriotas movidos por objetivos eleitoreiros”
A parte mais dura da nota, porém, mira para dentro do próprio Brasil. O governo atribui a escalada do conflito comercial à atuação da família Bolsonaro ao longo de toda a investigação americana, afirmando que o desfecho das apurações da Seção 301 integra um “enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro” — descrita como formada por “falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros”. É a mesma crítica que o Planalto já vinha reforçando desde que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) defendeu publicamente, em Washington, o adiamento da decisão para depois das eleições de outubro.
Um recado final acima da disputa partidária
A nota fecha em tom de convocação nacional, buscando transformar o episódio em pauta de unidade em vez de rachadura política: “não se pode amar o Brasil apenas quando vencemos eleições. Proteger a nossa soberania é uma obrigação que está acima de todos os partidos e todas as tendências. O governo brasileiro não vacilará em seu dever de preservá-la”. É um posicionamento que busca colocar Brasília na posição de defensora da soberania nacional diante de uma pressão externa — ao mesmo tempo em que aprofunda o confronto direto com o núcleo político que, segundo o próprio governo, ajudou a criar as condições para o tarifaço acontecer.