Trump aplica novo tarifaço e cita Pix, desmatamento e decisões do STF como justificativa

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Depois de meses de negociação, o governo de Donald Trump confirmou a aplicação da tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, com o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) detalhando os argumentos usados para justificar a medida: políticas relacionadas ao Pix, combate ao desmatamento, decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre plataformas digitais e o ambiente de combate à corrupção no Brasil.

O Pix no centro da mira americana

O ponto mais sensível do relatório é o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos. Segundo o documento do USTR, o Banco Central teria atuado como regulador para prejudicar provedores americanos de pagamento eletrônico e favorecer o Pix como “campeão nacional” — uma leitura que trata a gratuidade e a ampla adoção do sistema como forma de concorrência desleal contra operadoras como Visa e Mastercard.

O Planalto rebateu de forma direta, classificando o Pix como “patrimônio do nosso povo e referência internacional de infraestrutura pública digital” e descartando qualquer tentativa de enfraquecê-lo. O governo também rejeitou as críticas às decisões do STF sobre remoção de conteúdo, argumentando que a liberdade de expressão não é permissão para atividade criminosa.

Desmatamento e corrupção também entram na lista

Além do Pix, o USTR argumenta que o desmatamento ilegal prejudicaria a competitividade da indústria madeireira americana, e cita o Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional para sustentar que o Brasil teria se afastado de padrões internacionais de integridade. O governo brasileiro contesta ambos os pontos, afirmando ter reduzido o desmatamento em todos os biomas desde 2023 e que as decisões do STF visam apenas assegurar o cumprimento da legislação nacional.

Os números que o Brasil usa para desmontar o argumento comercial

A resposta oficial de Brasília aposta em dados dos próprios Estados Unidos para questionar a lógica econômica por trás da tarifa: segundo a nota do governo, estatísticas americanas mostram superávit de US$ 424,5 bilhões dos EUA no comércio de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos. Além disso, 76% das importações americanas entraram no Brasil sem imposto em 2025, com tarifa média efetiva de apenas 3,1% sobre produtos dos EUA — números que, segundo o governo, contradizem diretamente a narrativa de que o Brasil pratica barreiras comerciais abusivas contra os americanos.

A resposta brasileira: OMC, reciprocidade e Plano Brasil Soberano

O governo Lula classificou a decisão como um “marco lastimável” nas relações bilaterais e anunciou que vai recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC), além de acionar a Lei da Reciprocidade Econômica — mecanismo que permite ao Brasil adotar medidas proporcionais contra países que impõem barreiras comerciais consideradas injustificadas. Paralelamente, o Plano Brasil Soberano deve ser usado para apoiar setores produtivos e empregos diretamente afetados pela tarifa.

O dedo apontado para a família Bolsonaro

A parte final da nota oficial do Planalto reserva a crítica mais dura para dentro do próprio país: o governo atribui a escalada das tensões à atuação da família Bolsonaro ao longo de toda a investigação americana, afirmando que o desfecho das apurações da Seção 301 integra um “enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro” — movida, segundo o texto, por “objetivos eleitoreiros”. É a mesma linha que o governo já vinha reforçando desde a audiência do USTR em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) defendeu publicamente o adiamento da decisão para depois das eleições de outubro.

Um tarifaço que chega em más condições políticas para quem ajudou a criá-lo

A confirmação da tarifa é especialmente desconfortável para Flávio, cuja articulação em Washington — incluindo o pedido de postergação da decisão e a defesa pública de restrições ao Pix perante autoridades americanas — já vinha sendo tratada por pesquisas recentes como fator de desgaste eleitoral. Segundo a própria Quaest, a maioria dos brasileiros já atribui ao senador parcela de responsabilidade pelo tarifaço — e a confirmação oficial da medida, justamente na semana em que colunistas como Merval Pereira já questionavam publicamente a viabilidade de sua candidatura, tende a aprofundar ainda mais esse quadro de desgaste, num momento em que a corrida presidencial de outubro já se mostra fortemente influenciada pelos desdobramentos da disputa comercial entre Brasília e Washington.

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