O governo Lula decidiu manter em R$ 1,12 por litro a subvenção concedida às vendas de diesel, revertendo o plano inicial da equipe econômica de reduzir gradualmente os incentivos aos combustíveis. A decisão, apurada pela Folha de S.Paulo junto a uma fonte do governo, é resposta direta à escalada da guerra entre Estados Unidos e Irã, que voltou a pressionar para cima os preços internacionais do petróleo.
Um plano interrompido pela guerra
Até o fim de junho, o Ministério da Fazenda vinha na direção oposta: já havia retirado um benefício de R$ 0,35 por litro do diesel, sob a justificativa de que a queda das cotações internacionais tornava o subsídio menos necessário, e estudava reduzir também o incentivo à gasolina — hoje em R$ 0,44 por litro — além de revisar a alíquota de 12% do Imposto sobre Exportação de petróleo, usada para financiar parte do programa.
Esse plano de retirada gradual foi interrompido quando Trump declarou o fim da trégua com o Irã e retomou os ataques contra o país, provocando forte reação no mercado internacional de petróleo. Desde então, o barril subiu mais de US$ 10 — cerca de R$ 50 —, com o Brent voltando a ser negociado acima de US$ 86 nesta quarta-feira (17), alta de aproximadamente 21% em relação ao início de julho e patamar não visto desde o começo de junho.
Como funciona o mecanismo e até quando ele pode durar
Criada no fim de maio para substituir outro modelo de compensação aos combustíveis, a subvenção ao diesel tem validade até dezembro deste ano, com revisões possíveis a cada dois meses — desde que os beneficiários sejam avisados com 15 dias de antecedência. O prazo para a primeira revisão se encerra nesta sexta-feira (17), e o governo decidiu manter o valor atual pelos próximos dois meses, embora integrantes da equipe econômica já sinalizem que uma eventual queda futura nos preços internacionais pode abrir espaço para ajustes antes desse prazo.
Mesmo com o subsídio, ainda não fecha a conta
O detalhe mais revelador do episódio é que, apesar da manutenção do benefício, ele já não é suficiente para equilibrar as contas do setor. Segundo levantamento da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), o diesel vendido no Brasil está R$ 1,77 por litro abaixo da paridade de importação — e mesmo com a subvenção de R$ 1,12, ainda resta uma diferença de R$ 0,65 por litro não coberta. Nas refinarias da Petrobras, a defasagem é ainda maior: R$ 2,07 por litro, o que significa, segundo cálculos do setor, que a estatal segue absorvendo uma perda próxima de R$ 1 por litro de diesel importado, mesmo recebendo recursos do programa federal.
O problema foi agravado por um fator externo adicional: a suspensão das exportações de diesel pela Rússia, que reduziu a oferta do combustível mais barato disponível no mercado internacional — mais uma consequência indireta de conflitos geopolíticos em curso que acaba repercutindo diretamente nos preços domésticos brasileiros.
Em nota, a Petrobras afirmou que monitora diariamente os fundamentos do mercado internacional e diz seguir com a prática de preços competitivos com as principais alternativas de suprimento, sem repassar a volatilidade externa aos preços internos — formulação que, na prática, resume a estratégia de a companhia absorver parte do prejuízo para não elevar os preços na bomba.
Os números do programa até aqui
Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), até o fim de junho haviam sido autorizados R$ 2,2 bilhões em pagamentos às empresas beneficiadas pela subvenção — valor que ainda não reflete o custo total, já que parte dos repasses seguia pendente. A Petrobras, principal beneficiária da política, recebeu R$ 2,7 bilhões só na primeira semana de julho, somando R$ 4,7 bilhões em ressarcimentos referentes a vendas realizadas até a primeira quinzena de maio.
O outro lado da mesma guerra
O episódio ilustra a outra face de uma dinâmica já discutida em análises anteriores sobre os efeitos da guerra entre Estados Unidos e Irã na economia brasileira: se a alta do petróleo tende a beneficiar o país como exportador da commodity — melhorando termos de troca e engordando a arrecadação com royalties —, o mesmo movimento encarece diretamente o diesel importado, pressionando o custo fiscal dos subsídios que o próprio governo mantém para conter o repasse dessa alta ao consumidor final. É um lembrete de que a “vantagem” que conflitos geopolíticos trazem para economias exportadoras de commodities nunca é uniforme: ela beneficia elos da cadeia como a balança comercial e a arrecadação, mas pressiona simultaneamente outros pontos, como o custo dos programas de subsídio a combustíveis — um equilíbrio que o governo Lula, pelo visto, prefere sustentar às próprias custas a repassar integralmente aos motoristas e transportadoras do país.