A jornalista Eliane Cantanhêde, em coluna publicada no Estadão, resumiu o que boa parte da análise política já vinha sinalizando nos últimos dias: o tarifaço americano contra o Brasil produziu um efeito político oposto ao que o próprio campo bolsonarista esperava — fortaleceu Lula (PT) e aprofundou o desgaste do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), hoje apelidado nas redes sociais de “Tariflávio”.
O documento que virou prova contra o próprio autor
O centro da crítica de Cantanhêde é a carta que Flávio enviou ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) — não pedindo o fim das tarifas, mas seu adiamento para depois das eleições brasileiras de outubro. Para a colunista, o pedido em si já expõe a lógica por trás da manobra: “o que vale é se é bom ou mau para ele e o bolsonarismo”, escreveu, ao classificar a iniciativa como um desastre para o próprio senador — já que o documento equivale a uma confissão pública de que a prioridade era o calendário eleitoral, não o impacto da tarifa sobre a economia brasileira.
Como Lula transformou limão em limonada
Na leitura de Cantanhêde, o tarifaço deu ao presidente exatamente o tipo de munição política que discursos abstratos sobre soberania nacional raramente conseguem sozinhos: um adversário externo concreto para confrontar. Desde a confirmação da medida, o governo passou a centrar sua resposta na defesa da soberania brasileira, rejeitando publicamente as justificativas americanas sobre Pix, comércio digital, meio ambiente e propriedade intelectual. O chanceler Mauro Vieira reforçou essa narrativa ao revelar que o Brasil realizou cerca de 30 reuniões diplomáticas na tentativa de evitar a escalada — número que, segundo a leitura oficial, comprova que a decisão americana já estava tomada de antemão, por motivos políticos, independentemente do esforço de negociação brasileiro.
Até dentro da própria campanha de Flávio isso já é moeda corrente
O dado mais revelador citado por Cantanhêde não vem de opositores, mas de dentro do próprio entorno de Flávio: segundo apuração da Folha de S.Paulo, aliados do senador já reconhecem internamente que o tarifaço beneficia Lula no curto prazo, justamente por permitir ao presidente associar o episódio ao discurso de defesa nacional. A resposta da campanha, segundo a mesma reportagem, tem sido tentar minimizar esse efeito e mudar o foco do debate o mais rápido possível — reconhecimento tácito de que a estratégia de Washington saiu pela culatra.
Um apelido que já não sai das redes
Enquanto a disputa de narrativas segue nos bastidores, nas redes sociais o desfecho já parece decidido: “Tariflávio” se tornou um dos termos mais compartilhados em plataformas como X, Instagram e TikTok, usado tanto por adversários políticos quanto por usuários comuns para grudar o desgaste do tarifaço diretamente ao nome do senador — um apelido que setores governistas já incorporaram deliberadamente ao próprio discurso de campanha, transformando o episódio em arma eleitoral recorrente.
Um padrão que já não é mais coincidência
A leitura de Cantanhêde se soma a um conjunto cada vez mais consistente de análises e pesquisas recentes — da Quaest, que já mostra a maioria dos brasileiros atribuindo a Flávio parcela da culpa pelo tarifaço, às avaliações de colunistas como Merval Pereira, que já questionam publicamente a viabilidade da candidatura. O quadro que emerge é o de um episódio que deveria ter sido, na origem, uma vitória diplomática para o bolsonarismo — a promessa de usar contatos diretos com a Casa Branca para proteger o agronegócio e a economia brasileira — mas que se transformou, na prática, num dos principais ativos políticos do próprio adversário que Flávio tentava enfraquecer.