O governo de Donald Trump concedeu green card — o visto de residência permanente nos Estados Unidos — ao ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), pouco mais de um mês depois de o Supremo Tribunal Federal condená-lo a quatro anos e dois meses de prisão por articular, junto a autoridades americanas, uma pressão internacional para travar o julgamento de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. A informação, revelada pela coluna de Mônica Bergamo na Folha de S.Paulo, escancara o nível de proteção institucional que Washington vem oferecendo a um condenado da Justiça brasileira.
O documento permite que Eduardo viva, trabalhe e estude nos Estados Unidos por tempo indeterminado, sem necessidade de vistos temporários ou renovações — praticamente os mesmos direitos civis de um cidadão americano, com exceção do voto. Segundo o influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo, aliado próximo de Eduardo, o pedido de residência permanente havia sido protocolado há mais de um ano e foi concedido neste mês de julho.
Uma condenação com base em fatos, não em interpretação
A concessão do green card não ocorre no vácuo. Em 16 de junho, a Primeira Turma do STF condenou Eduardo Bolsonaro, por unanimidade, pelo crime de coação no curso do processo — cometido, segundo a acusação, em ao menos nove ocasiões distintas. Os ministros Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin, Cármen Lúcia e Flávio Dino entenderam que o ex-deputado atuou coordenadamente, inclusive com o próprio presidente Trump, para pressionar publicamente integrantes da Corte e tentar interferir no julgamento que resultou na condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet Branco, documentou que as ameaças de Eduardo ocorreram por meio de publicações públicas em redes sociais, nas quais o próprio acusado detalhava seu itinerário nos EUA e as tratativas com autoridades americanas — incluindo gestões que resultaram em sanções contra ministros do STF e em tarifas comerciais contra produtos brasileiros. Com a condenação, Eduardo ficou inelegível por oito anos após o cumprimento da pena e perdeu o cargo de escrivão da Polícia Federal, ao qual havia retornado após a cassação do mandato.
Da condenação ao ativo político
Em vez de recuar, Eduardo transformou a sentença em capital político dentro do universo bolsonarista americano. Dias após a condenação, ele já articulava em Washington a reativação da Lei Magnitsky contra autoridades brasileiras — instrumento americano usado para punir estrangeiros acusados de violações de direitos humanos —, na tentativa de recontar ministros do STF como perseguidores políticos e o Judiciário brasileiro como aparato de censura.
A estratégia já havia surtido efeito concreto antes mesmo do green card: em agosto de 2025, a pressão coordenada de Eduardo junto a parlamentares republicanos ajudou a viabilizar uma tarifa de 50% sobre café, carne e têxteis brasileiros — medida posteriormente suspensa pela Suprema Corte americana, mas que já havia gerado meses de instabilidade para exportadores brasileiros e levou o PSOL a protocolar notícia-crime contra o então deputado.
Blindagem jurídica e extradição cada vez mais remota
Para aliados de Eduardo, o green card tem um significado que vai além do direito de residir nos EUA. Paulo Figueiredo classificou a medida como uma ampliação da “proteção jurídica” do ex-deputado em solo americano, sob a lógica de que qualquer ação judicial brasileira contra ele poderia agora ser enquadrada como parte do mesmo suposto padrão de perseguição que já motivou sanções dos EUA contra autoridades do STF.
Na prática, ministros da Corte já consideravam remota a possibilidade de extradição de Eduardo para cumprimento da pena no Brasil, dado o apoio explícito do governo americano ao ex-deputado. Com a concessão da residência permanente, essa hipótese se torna ainda mais distante — consolidando, na prática, um cenário em que um condenado por atentar contra instituições brasileiras passa a contar com a proteção formal do país que o abriga.
Um pano de fundo de tensão bilateral
A concessão do documento ocorre em meio a um momento particularmente tenso na relação entre Brasília e Washington. Na semana passada, Trump anunciou uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, alegando publicamente que o Brasil estaria se tornando “duro e perigoso politicamente” — declaração feita, segundo registros da imprensa brasileira, em meio a comentários confusos do presidente americano, que chegou a confundir Eduardo com o senador Flávio Bolsonaro ao comentar o caso. Episódios como esse reforçam o padrão identificado por analistas brasileiros: uma política externa americana pautada por informações equivocadas, mas que ainda assim produz efeitos concretos e duradouros sobre a soberania judicial do Brasil.