ONG da produtora de “Dark Horse” entra em novo escândalo com contrato suspeito de R$ 114 milhões com a prefeitura de SP

REPRODUÇÃO

A Prefeitura de São Paulo confirmou ter pago R$ 114 milhões ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização responsável pelo programa Wi-Fi Livre SP e presidida por Karina Ferreira da Gama — dona da produtora GoUp Entertainment, a mesma por trás do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro cujo financiamento já é investigado por ligação com o esquema de fraude do Banco Master. Os valores constam de ofício enviado pela gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) em resposta a questionamentos da vereadora Janaína Paschoal (PP). As informações são do Metrópoles.

Como o dinheiro foi distribuído

Segundo o documento, o município pagou R$ 68 milhões entre julho de 2024 e junho de 2025 para instalação e manutenção dos pontos de internet gratuita, e outros R$ 45 milhões entre julho de 2025 e maio de 2026 apenas para manutenção do serviço. Durante a execução, o ICB devolveu cerca de R$ 2 milhões, atribuídos pela prefeitura a irregularidades identificadas, fiscalizações e tarifas bancárias. A meta original — 5 mil pontos de Wi-Fi — foi revista para 3,2 mil, com a prefeitura sustentando que não houve pagamento pelos equipamentos que deixaram de ser instalados.

R$ 13 milhões em notas fiscais sob suspeita

Uma auditoria da própria administração municipal identificou R$ 13 milhões em notas fiscais consideradas suspeitas na prestação de contas do ICB referente ao primeiro semestre de 2025. Em 1º de julho, a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia notificou a entidade sobre inconsistências: descrições genéricas de despesas, ausência de detalhamento dos serviços prestados e notas canceladas após a emissão.

Do total questionado, cerca de R$ 11 milhões foram pagos a quatro empresas — Make One, Ultra IP, Complexsys e Favela Conectada — sem que a documentação detalhasse área de atuação, pontos de acesso instalados ou escopo das atividades. Um pagamento de R$ 500 mil à Favela Conectada teve a nota fiscal cancelada pela própria empresa dias depois de a prefeitura apontar a irregularidade.

Outros R$ 406.752,50 foram pagos, em três parcelas, à JR Feijão Ltda — empresa do setor alimentício —, sob a descrição genérica de “aquisição de material”; as notas também foram canceladas pouco depois, levando a prefeitura a considerar as despesas ilegítimas e exigir devolução. Dois pagamentos à Talk Comunicações, somando R$ 348.484, referentes a um contrato de “comunicação massificada”, também foram questionados por falta de comprovação das campanhas realizadas.

O ICB tem 30 dias para justificar as despesas; caso não convença a prefeitura, pode ser obrigado a devolver os valores apontados como irregulares.

Um crescimento financeiro de 170 vezes em três anos

O dado que mais chama atenção sobre o próprio instituto é sua trajetória financeira: o faturamento saltou de R$ 306 mil no fim de 2022 para R$ 54 milhões ao fim de 2025 — um crescimento de aproximadamente 170 vezes em três anos. Desse total, R$ 51,9 milhões vieram de parcerias e subvenções governamentais, segundo dados da própria entidade.

Por que esse contrato reacende o caso Dark Horse

A conexão entre o Instituto Conhecer Brasil e o filme sobre Bolsonaro não é acessória: Karina Gama, presidente do ICB, é a mesma proprietária da GoUp Entertainment, produtora que recebeu recursos do Banco Master — negociados diretamente entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, hoje preso — para bancar a cinebiografia estrelada por Jim Caviezel.

É esse mesmo fluxo de financiamento que já levou a Polícia Federal a investigar uma possível conexão entre empresas ligadas ao filme e uma rede de lavagem de dinheiro associada ao PCC, e que agora ganha mais uma camada: a de que a mesma produtora à frente do polêmico projeto cinematográfico administra, através de uma ONG, um contrato público de R$ 114 milhões com a maior prefeitura do país, hoje sob suspeita de irregularidades na prestação de contas.

A defesa do instituto

Em nota, o Instituto Conhecer Brasil afirmou não ter recebido notificação sobre os R$ 13 milhões em notas questionadas, e que toda a sua prestação de contas segue dentro da regularidade prevista em contrato, permanecendo à disposição para esclarecimentos às autoridades e à imprensa.

Um padrão que se repete

O episódio se soma a uma sequência de revelações que já colocam a estrutura financeira por trás do filme “Dark Horse” sob escrutínio de múltiplas frentes — investigação da Polícia Federal, suspeita de vínculo com lavagem de dinheiro do crime organizado e agora um contrato público municipal questionado por irregularidades.

Cresce, segundo apurações recentes, o temor dentro do entorno de Flávio Bolsonaro de que o caso evolua para medidas mais duras, como busca e apreensão — um risco que se soma a outros desgastes já acumulados pelo senador, hoje pré-candidato à Presidência, numa reta final de pré-campanha marcada por sucessivas revelações sobre o dinheiro que circulou em torno da produção do filme sobre seu pai.

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