A guerra dos Estados Unidos contra o Irã já custou US$ 37,5 bilhões — cerca de R$ 190 bilhões — aos cofres americanos. O número foi apresentado nesta terça-feira (21/7) pelo próprio secretário de Defesa, Pete Hegseth, em audiência na Comissão de Dotações do Senado, segundo reportagens da CBS News e da Associated Press.
A cifra representa um salto de quase US$ 8 bilhões em relação à estimativa anterior do Pentágono, de meados de maio, e inclui custos projetados até 30 de setembro, fim do ano fiscal. E a conta ainda vai crescer: na mesma audiência, Hegseth defendeu um pacote suplementar de US$ 67 bilhões só para sustentar a guerra e repor estoques militares, dentro de um orçamento de defesa proposto por Trump de US$ 1,5 trilhão — o maior da história.
Ou seja: os quase R$ 200 bilhões já torrados são apenas a entrada. Somando o que a Casa Branca pede ao Congresso, a guerra contra o Irã deve passar de US$ 100 bilhões — mais de meio trilhão de reais.
A guerra que “acabaria logo” já matou 17 soldados americanos
O depoimento de Hegseth, ao lado do chefe do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine, foi o primeiro desde que os EUA retomaram as operações militares contra o Irã, no início de julho, após o colapso do cessar-fogo de abril. Washington e Teerã trocam ataques diários há mais de uma semana, e o Irã voltou a atingir navios comerciais no Estreito de Ormuz.
O balanço humano também cresce: 17 militares americanos mortos e quase 450 feridos desde o início do conflito, em fevereiro. A audiência foi interrompida várias vezes por manifestantes contrários à guerra.
Até parlamentares democratas perderam a paciência. A senadora Patty Murray alertou para “mais uma guerra sem fim” e lembrou que Trump já afirmou mais de 40 vezes que um acordo estava próximo e que a guerra acabaria logo — enquanto pede mais US$ 70 bilhões ao Congresso.
Dívida recorde, promessas esquecidas
O contraste com o discurso de Trump é gritante. Em 2016, ele prometeu zerar a dívida pública americana, então de US$ 19 trilhões, “em oito anos”. Em março de 2025, prometeu equilibrar o orçamento federal. A realidade: a dívida dos EUA já ultrapassa US$ 39 trilhões — o dobro do que Trump prometeu eliminar — e o déficit de 2026 deve ficar perto de US$ 2 trilhões, segundo projeções do próprio Tesouro americano e do Congressional Budget Office (CBO), que classificou a trajetória fiscal do país como “insustentável”.
Trump não reduziu a dívida. Não reduziu o déficit. Não acabou com as guerras — pelo contrário, iniciou uma nova. Não apresentou nenhum grande projeto de saúde pública para os americanos, nem de educação. Mas, para a guerra contra o Irã, dinheiro não falta: quase R$ 200 bilhões queimados em cinco meses, num conflito sem sentido, que só produz prejuízo para a humanidade.
Inflação para o mundo, fome para o ano que vem
Os efeitos da guerra não ficam restritos aos EUA. Com o Estreito de Ormuz praticamente fechado desde o fim de fevereiro, a Agência Internacional de Energia classificou a situação como a maior ruptura de oferta da história do mercado global de petróleo. Nos próprios Estados Unidos, o preço médio da gasolina passou de US$ 4 por galão nesta semana — péssima notícia para Trump às vésperas das eleições legislativas de novembro.
Pior ainda é o efeito sobre os fertilizantes. Cerca de um terço do comércio marítimo mundial de fertilizantes passa pelo Estreito de Ormuz. Com o bloqueio, o preço da ureia praticamente dobrou, saltando de cerca de US$ 450 para mais de US$ 700 a tonelada, segundo o instituto de pesquisa IFPRI. Grandes exportadores, como China e Rússia, restringiram vendas para proteger seus mercados internos, e fábricas na Ásia começaram a parar por falta de gás.
A FAO, agência da ONU para alimentação, fala em “choque sistêmico” nos sistemas alimentares globais. O Programa Mundial de Alimentos estima que a alta prolongada dos preços de energia pode empurrar mais 45 milhões de pessoas para a fome aguda. Com menos fertilizante sendo aplicado nas lavouras neste ano — nos EUA, o plantio de milho e trigo já deve cair 3% —, a conta chega em 2027, na forma de safras menores, comida mais cara e uma grande onda de fome nos países mais pobres.
É esse o preço da guerra de Trump: inflação para o mundo inteiro, fome para os mais vulneráveis e quase R$ 200 bilhões — por enquanto — saídos do bolso do contribuinte americano. Tudo isso para um conflito que, dez dias de bombardeios depois, não tem solução diplomática à vista: nesta terça, Trump voltou a descartar negociações com Teerã.
Foto: Official White House Photo (Flickr da Casa Branca, domínio público)