O escritório de advocacia do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) emitiu três notas fiscais, somando R$ 1,5 milhão, em nome de empresas conectadas à estrutura financeira do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master — instituição liquidada pelo Banco Central em novembro de 2025 em meio a um dos maiores escândalos financeiros recentes do país. A informação foi revelada pelo jornalista Tácio Lorran, em coluna publicada no Metrópoles nesta quarta-feira (22).
Segundo a reportagem, duas notas de R$ 500 mil cada foram emitidas em 7 de abril de 2025 em nome da Copenhagen Consultoria e Assessoria S.A., referentes a serviços de consultoria jurídica — e ambas foram canceladas na mesma data de emissão. Dois dias depois, em 9 de abril, uma terceira nota, também de R$ 500 mil, foi emitida para a Contábil Correa, desta vez sem qualquer registro de cancelamento.
O elo entre as empresas e o dinheiro do Master
As duas companhias citadas nas notas fiscais compartilham o mesmo contador, Rogério Lourenço Novo, que figura como diretor responsável da Copenhagen na Receita Federal e como único sócio da Contábil Correa — além de integrar o conselho fiscal da Ambipar, outra empresa associada à rede societária atribuída a Vorcaro. Rogério já havia sido investigado pela Polícia Federal entre 2013 e 2015 por suposta emissão de notas fiscais falsas num esquema de evasão fiscal estimado, à época, em mais de R$ 100 milhões.
A Copenhagen, criada em novembro de 2024 com capital social de apenas R$ 40, tornou-se uma das dez empresas que mais receberam recursos do Banco Master: Daniel Vorcaro depositou R$ 58 milhões na companhia, sendo os primeiros aportes — de R$ 11,2 milhões — realizados logo após sua constituição. No papel, a empresa pertence ao Fundo Estônia, administrado pela Trustee DTVM, gestora hoje sob investigação da Polícia Federal por suspeita de movimentar e ocultar patrimônio ligado ao grupo de Vorcaro.
A defesa de Flávio
Procurado pelo Metrópoles, Flávio Bolsonaro afirmou ter contrato de prestação de serviços jurídicos com a BR Global — nome fantasia da Contábil Correa —, empresa que, segundo ele, atende mais de 200 clientes. Sobre a Copenhagen, o senador disse que a empresa “foi apresentada como possível cliente”, mas que a contratação “não avançou” e que seu escritório não recebeu qualquer valor dela, motivo pelo qual as notas foram canceladas. Ele negou qualquer conhecimento de vínculo entre as empresas e o Banco Master, classificando tentativas de associá-lo à instituição como “capciosas” e prometendo medidas judiciais contra quem divulgar a informação. O contador Rogério Lourenço Novo, por sua vez, confirmou ao Metrópoles ter contratado o escritório de Flávio para atender clientes de sua contabilidade, mas disse não se lembrar de detalhes sobre quais serviços foram efetivamente prestados.
Um escândalo que já envolve outras autoridades
O episódio se soma a um quadro mais amplo de investigações que atingem a classe política desde a intervenção do Banco Central no Master. Segundo a Polícia Federal, o senador petista Jaques Wagner, então líder do governo Lula no Senado, teria recebido vantagens indevidas — incluindo um apartamento em Salvador e R$ 3,5 milhões — em troca de atuação favorável a Vorcaro no Congresso. O presidente do PP, Ciro Nogueira, também foi alvo da Operação Compliance Zero, que já resultou na prisão de Vorcaro por duas vezes e no bloqueio de mais de R$ 5,7 bilhões em bens.
O rombo deixado pela liquidação do Master já custou aproximadamente R$ 49,5 bilhões ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), usado para ressarcir clientes da instituição e de empresas coligadas. Mais recentemente, a Polícia Federal também passou a investigar se Vorcaro financiou influenciadores digitais — com valores que podem chegar a R$ 2 milhões — para atacar publicamente a credibilidade do Banco Central, dentro de uma suposta campanha coordenada batizada de “Projeto DV”.
Um padrão que se repete no caso Dark Horse
As notas fiscais reveladas nesta quarta-feira se somam a uma sequência de episódios que já conectavam Flávio Bolsonaro a Vorcaro — a mais notória sendo o financiamento do filme “Dark Horse”, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro, negociado em cerca de R$ 89,7 milhões e hoje sob investigação por indícios de desvio de recursos públicos. Documentos e áudios já haviam mostrado o próprio Flávio pressionando pessoalmente o banqueiro por repasses milionários — um padrão de proximidade financeira que, segundo analistas políticos, tende a ganhar ainda mais peso no debate eleitoral às vésperas da convenção nacional do PL, marcada para o dia 25 de julho.
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