Levantamento do Financial Times aponta que governo dos EUA arrecadou mais de US$ 13 bilhões com petróleo venezuelano, mas destino dos recursos continua envolto em mistério
Os números impressionam. Mais de 13 bilhões de dólares. Esse é o montante que o governo dos Estados Unidos arrecadou este ano com a venda de petróleo da Venezuela. Contudo, ninguém sabe exatamente para onde foi esse dinheiro.
A revelação partiu do Financial Times. Os jornalistas Geoff Dyer, Chris Cook e Ana Rodríguez Brazón analisaram dados de embarques e preços. A conclusão é inequívoca. Washington assumiu o controle das exportações de petróleo venezuelano após a captura do presidente Nicolás Maduro em janeiro. Desde então, as receitas acumuladas alcançam cifras bilionárias.
Forças americanas capturaram Maduro. Em seu lugar, assumiu a vice-presidente Delcy Rodríguez. Os Estados Unidos suspenderam parcialmente as sanções. O objetivo declarado era ajudar a economia venezuelana. O país já enfrentava uma crise profunda. Os terremotos devastadores do mês passado apenas agravaram a situação.
As receitas do petróleo representam cerca de um quarto do PIB da Venezuela. Por isso, todos esperavam uma recuperação vigorosa. No entanto, seis meses depois, os sinais de melhora ainda são tímidos. Economistas levantam uma suspeita incômoda: talvez os EUA não tenham repassado todos os recursos para Caracas.
Versões divergentes e promessas não cumpridas
A confusão começa na própria Casa Branca. O governo Trump emitiu declarações contraditórias. A ordem executiva original descrevia o papel dos EUA como “de custódia”. Os fundos seriam propriedade do governo venezuelano e permaneceriam em contas americanas sob guarda.
Porém, o Departamento de Energia dos EUA afirmou algo diferente. Segundo a pasta, os recursos “serão distribuídos em benefício do povo americano e do povo venezuelano”. A declaração abriu margem para interpretações dúbias.
Refinaria El Palito da estatal petrolífera venezuelana PDVSA. As receitas do petróleo representam cerca de um quarto do PIB da Venezuela / Jesus Vargas/picture-alliance/dpa/AP Images
Em junho, o presidente Trump foi ainda mais longe. Ele disse que os EUA “ganharam muito dinheiro” com o petróleo venezuelano. Também afirmou que o país recuperou o custo da operação militar “28 vezes”. A fala gerou indignação entre parlamentares americanos.
A confusão aumentou a desconfiança no Congresso. Democratas e republicanos passaram a pressionar o governo por explicações claras sobre o destino dos bilhões arrecadados. Joaquin Castro, um proeminente democrata, não poupou críticas.
“A invasão da Venezuela por Trump teve como objetivo o petróleo, o poder e a corrupção desde o início”, disse ele ao Financial Times.
Castro acrescentou que o Congresso está “sendo mantido no escuro”. Bilhões de dólares em receitas petrolíferas estão sob controle do governo Trump, mas não há transparência nem salvaguardas. A falta de informações alimenta teorias conspiratórias e mina a confiança na atuação americana.
A conta que não fecha e o site vazio
Os números ajudam a dimensionar o problema. O Financial Times fez os cálculos com cuidado. A equipe utilizou dados da Kpler, uma plataforma de análise do transporte marítimo de petróleo. Foram analisados todos os embarques de petróleo bruto desde janeiro. Em seguida, aplicaram estimativas de preços da Argus Media.
O preço do petróleo Merey serviu como referência. Também foram considerados o Boscan e o Hamaca, outros tipos produzidos na Venezuela. O valor dos barris com preços diretamente disponíveis chegou a US$ 11,5 bilhões. Com base em padrões históricos para os demais embarques, a estimativa final ultrapassa US$ 13 bilhões.
O governo venezuelano criou um site para rastrear essas receitas. A ferramenta prometia transparência total. No entanto, o portal contém apenas um único registro: uma transferência de US$ 300 milhões, realizada em março. O restante do dinheiro simplesmente desapareceu dos registros públicos.
A situação tornou-se ainda mais urgente após os terremotos de 24 de junho. Os abalos causaram destruição em larga escala. A ONU estima que apenas os danos a edifícios e infraestrutura custarão US$ 37 bilhões. A Venezuela precisa de cada centavo para a reconstrução.
Benjamin Gedan, ex-funcionário da Casa Branca para a América Latina no governo Obama, fez um alerta. Segundo ele, os democratas poderão investigar os fundos petrolíferos caso conquistem o controle do Congresso em novembro. Nesse cenário, intimações e pedidos de depoimento deverão ocorrer.
“Dá para imaginar várias intimações e pedidos de depoimento”, afirmou.
A pressão aumenta e as dúvidas persistem
Maria Elvira Salazar, deputada republicana do sul da Flórida, também cobrou respostas. Em uma audiência realizada na terça-feira, ela pediu a divulgação de relatórios públicos sobre os fundos. Segundo a parlamentar, a transparência é fundamental para garantir o destino correto do dinheiro.
As autoridades americanas afirmam que o controle dos recursos funciona como uma ferramenta de pressão política. Segundo elas, o dinheiro é utilizado para influenciar Delcy Rodríguez. A líder venezuelana, que fazia parte do regime chavista, agora seguiria, em parte, orientações de Washington.
Em junho, o presidente Trump afirmou que os EUA recuperaram o custo da operação militar na Venezuela “28 vezes” por meio do petróleo e acrescentou que os EUA também estão “ganhando muito dinheiro”. Roberto Schmidt/Getty Images
Em abril, Michael Kozak, do Departamento de Estado, prometeu relatórios trimestrais. Ele afirmou que a KPMG auditava as contas bancárias. No entanto, os democratas da Comissão de Relações Exteriores não receberam nada desde então. Kozak declarou em audiência recente: “É o dinheiro deles, mas eles precisam da nossa permissão.”
O Departamento de Estado afirma que “bilhões de dólares foram desembolsados para a economia venezuelana”. A pasta garante que o monitoramento financeiro está em andamento. O objetivo, dizem, é garantir que os fundos beneficiem o povo venezuelano.
Um funcionário do Tesouro americano reiterou a posição. “O governo dos EUA, como custodiante, tem trabalhado com o governo Rodríguez desde janeiro”, disse ele. O objetivo é liberar rapidamente os fundos para despesas oficiais, incluindo a folha de pagamento.
A economia que não reagiu e as suspeitas que crescem
Muitos economistas previam uma forte recuperação este ano. Até janeiro, a Venezuela vendia petróleo com grandes descontos. As sanções americanas forçavam essa condição. Com o alívio, a expectativa era positiva.
O governo venezuelano criou uma nova lei de recursos naturais. A medida incentiva investimentos em petróleo e gás. A produção até apresentou um ligeiro aumento. No entanto, o crescimento econômico decepcionou.
Francisco Rodríguez, economista do Centro de Pesquisa Econômica e Política em Washington, analisou os dados. A taxa oficial de crescimento do primeiro trimestre foi de apenas 2,5%. Esse número representa a mais baixa em quase cinco anos.
“A Venezuela provavelmente não cresceu mais rapidamente apesar do aumento das receitas”, afirmou ele. “Isso acontece porque os EUA não transferiram ao governo venezuelano a totalidade do aumento dessas receitas.” A declaração ecoa a suspeita de muitos analistas.
José Guerra, economista e ex-parlamentar da oposição, também questionou o governo americano. Ele afirmou que as receitas deveriam ser muito maiores. “Onde está o dinheiro?”, perguntou ele. “Não há transparência e o governo dos EUA não nos informa.”
Alejandro Grisanti, da consultoria Ecoanalítica, trouxe um contraponto. Ele afirmou que houve indícios de grande entrada de dólares nos últimos dois meses. Ele esperava uma aceleração no quarto trimestre. Porém, o terremoto provavelmente adiará esse crescimento.
A ajuda humanitária e o futuro incerto
Desde o terremoto, Delcy Rodríguez tem feito lobby por outros recursos. Ela busca acesso a fundos mantidos fora do país. Isso inclui quantias no FMI e ouro venezuelano no Banco da Inglaterra.
Os Estados Unidos disponibilizaram US$ 386 milhões em ajuda para o socorro. Centenas de soldados americanos foram enviados à Venezuela. John Barrett, encarregado de negócios dos EUA em Caracas, afirmou que verbas do petróleo também financiam a reconstrução. Porém, ele não especificou o valor.
A estimativa do Financial Times não inclui receitas de mineração. Autoridades americanas disseram que parte desses recursos também está sendo arrecadada. Ou seja, o valor total sob controle dos EUA pode ser ainda maior.
O futuro permanece incerto. A falta de transparência alimenta desconfiança. A Venezuela enfrenta uma tragédia humanitária. As crianças tomam banho perto de navios-tanque em Puerto Cabello. O país precisa de respostas. Os bilhões do petróleo não podem continuar desaparecidos.
Reportagem baseada em informações publicadas pelo Financial Times. A íntegra do artigo original está disponível no site do jornal.