O jornalista Felipe Moura Brasil — nome histórico do comentário político conservador, ex-Veja, ex-Jovem Pan, ex-CNN e hoje diretor de jornalismo de O Antagonista — publicou nesta semana um post que está repercutindo justamente por vir de quem vem. Não é um oposicionista do bolsonarismo cruzando dados: é um dos comunicadores mais conhecidos da direita liberal brasileira fazendo a pergunta que a imprensa vem fazendo há meses: por que o dinheiro do esquema de Daniel Vorcaro corria, ao mesmo tempo, para o escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro no Brasil e para um fundo ligado a Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos?
Vamos, então, ao que há de fato documentado em cada trecho — porque cada afirmação do post tem lastro em reportagem assinada e documento público.
1. A nota fiscal de R$ 500 mil (Metrópoles, 22/07/2026)
Na terça-feira, o Metrópoles revelou que o escritório de advocacia do senador Flávio Bolsonaro emitiu três notas fiscais de R$ 500 mil cada — R$ 1,5 milhão no total — para empresas usadas no esquema financeiro de Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master.
O detalhe que importa: as duas notas de 7 de abril de 2025, emitidas para a Copenhagen Consultoria e Assessoria S.A., foram canceladas no mesmo dia. A terceira, de 9 de abril de 2025, emitida para a Contábil Correa (que opera sob o nome fantasia BR Global), não tem registro de cancelamento. É exatamente a nota citada no post de Felipe Moura Brasil.
O elo entre as empresas é o contador Rogério Lourenço Novo, sócio da Contábil Correa e diretor da Copenhagen — empresa que teria recebido R$ 58 milhões ligados ao grupo Vorcaro e que era formalmente controlada pelo fundo Estônia, investigado por ocultação de patrimônio do banqueiro. Rogério Novo já foi investigado no passado justamente por notas frias e empresas de fachada.
Flávio confirmou o contrato com a BR Global, disse que prestou “assessoria jurídica”, afirmou que a demanda da Copenhagen “não avançou” e que “nada foi pago” naquelas faturas canceladas. Negou saber do vínculo das empresas com o Master e classificou a reportagem como “matéria criminosa”. O fato objetivo permanece: uma nota de meio milhão de reais, não cancelada, do escritório de um senador da República, para uma empresa do circuito financeiro de Vorcaro.
2. A planilha, o fundo Havengate e Eduardo Bolsonaro (Intercept, 09/06/2026)
Em junho, o The Intercept Brasil publicou a reportagem “Planilha e comprovante bancário mostram como Vorcaro enviou dinheiro aos EUA para financiar ‘Dark Horse'”. O documento central é uma planilha chamada “Funding Schedule”, encaminhada pelo publicitário Thiago Miranda — sócio do portal Léo Dias e apontado como o elo entre Vorcaro e Flávio — ao próprio banqueiro, em agosto de 2025, cobrando parcelas em atraso.
O cronograma previa 14 desembolsos entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026: as duas primeiras parcelas de US$ 2 milhões cada, e as demais de US$ 1,66 milhão — exatamente o valor citado no post. Ao todo, quase US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões à época). Documentos mostram que pelo menos US$ 10,6 milhões (≈ R$ 61 milhões) foram efetivamente pagos.
O Intercept obteve ainda o comprovante SWIFT de 13 de fevereiro de 2025: remessa de US$ 2 milhões ao Havengate Development Fund LP, fundo sediado no Texas e controlado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro. O remetente era a Entre Investimentos e Participações Ltda. — o “Grupo Entre” do post —, empresa do esquema de Vorcaro, com pagamento processado pelo Banco BS2. No dia seguinte, Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro, enviou o comprovante ao banqueiro com uma única palavra: “Filme!”.
Em maio, o próprio Intercept já havia revelado que Eduardo Bolsonaro tinha poder de decisão sobre o dinheiro do filme, conforme contrato, e que seu advogado controlava o fundo que recebia as remessas.
3. Os US$ 24 milhões e o filme “Dark Horse” (Intercept, 13/05/2026)
A origem de tudo foi o áudio publicado pelo Intercept em maio: Flávio Bolsonaro negociou diretamente com Daniel Vorcaro o aporte de R$ 134 milhões para bancar “Dark Horse”, a cinebiografia de Jair Bolsonaro — produzida pela Go Up Entertainment, com Jim Caviezel cotado para viver o ex-presidente.
Em nota, Flávio confirmou que captou recursos com Vorcaro, classificando a operação como “investimento com expectativa de retorno financeiro”, e negou doação, empréstimo ou vantagem política. A produtora Go Up, por sua vez, negou ter recebido “um único centavo” do banqueiro — versão difícil de conciliar com o comprovante SWIFT e com o “Filme!” de Zettel.
Em 19 de maio, pressionado, Flávio prometeu apresentar relatório detalhado sobre o uso dos recursos. Dois meses depois, nada. O Estadão registrou em 17 de julho: “Flávio Bolsonaro segue sem explicar financiamento de ‘Dark Horse’ dois meses após promessa”. É a este descumprimento que o post se refere ao chamar o senador de “captador que prometeu prestar contas, mas não prestou”.
4. O contexto que ninguém pode esquecer: quem é Daniel Vorcaro
Todo esse dinheiro corria enquanto o Banco Master implodia. O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master em 17 de novembro de 2025, com rombo estimado em R$ 56 bilhões e desembolso recorde de R$ 41 bilhões do Fundo Garantidor de Créditos para cerca de 1,6 milhão de clientes. Vorcaro foi preso pela PF no Aeroporto de Guarulhos ao tentar embarcar para Malta.
Em março de 2026, nova prisão, na Operação Compliance Zero. Em 9 de julho, a 10ª fase da operação mirou justamente Thiago Miranda, o publicitário da planilha, com mandados autorizados pelo ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF — que hoje conduz três procedimentos sobre o financiamento do filme. Enquanto isso, a CPI do Master segue travada no Congresso, com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, recusando-se a ler os requerimentos.
A “coincidência”
É aqui que o post de Felipe Moura Brasil fecha o raciocínio: no mesmo mês de abril de 2025 em que uma empresa do circuito Vorcaro pagava R$ 500 mil ao escritório de Flávio, outra empresa do mesmo circuito remetia dólares ao fundo do advogado de Eduardo no Texas. Os dois fluxos documentados — o nacional, revelado pelo Metrópoles, e o internacional, revelado pelo Intercept — passam pelo mesmo banqueiro, pelo mesmo esquema e pelos mesmos operadores.
Coincidência ou engenharia financeira, o fato é que as perguntas seguem sem resposta: Que serviço jurídico vale R$ 500 mil para uma empresa de fachada investigada? Onde está a prestação de contas prometida? Por que uma cinebiografia de campanha era bancada por um banco em pirâmide, às vésperas da maior liquidação da história do sistema financeiro brasileiro?
Quando até vozes históricas da direita começam a fazer essas perguntas em público, é sinal de que o cerco documental está se fechando — e de que a tese do “não sabia de nada” vai ficando cada dia mais difícil de sustentar.
Fontes: Metrópoles (22/07/2026); The Intercept Brasil (13/05, 15/05 e 09/06/2026); Folha de S.Paulo; Estadão (17/07/2026); O Globo; BBC Brasil; G1; CartaCapital; Congresso em Foco.


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