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Capitalismo ameaça futuro da mobilidade sustentável

Setor enfrenta ventos contrários com recuo nos EUA, arrefecimento na China e flexibilização de regras na Europa Depois de uma década marcada por crescimento vertiginoso, o mercado global de veículos elétricos entrará em 2026 com o ritmo mais lento desde 2020. Segundo projeções da consultoria especializada Benchmark Mineral Intelligence, as vendas mundiais devem subir apenas […]

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China mantém liderança ao apostar em modelos acessíveis, enquanto Ocidente recua e revive motores a combustão.
Decisões políticas travam avanço da mobilidade verde / Reprodução

Setor enfrenta ventos contrários com recuo nos EUA, arrefecimento na China e flexibilização de regras na Europa


Depois de uma década marcada por crescimento vertiginoso, o mercado global de veículos elétricos entrará em 2026 com o ritmo mais lento desde 2020. Segundo projeções da consultoria especializada Benchmark Mineral Intelligence, as vendas mundiais devem subir apenas 13% este ano, atingindo 24 milhões de unidades. Esse número representa uma desaceleração significativa em relação ao avanço de 22% registrado em 2025.

Essa mudança de velocidade não acontece por acaso. Pela primeira vez, três dos principais pilares do setor — Estados Unidos, Europa e China — mostram sinais de esgotamento no impulso inicial da transição energética no transporte. Enquanto Pequim reduz gradualmente seus subsídios, Washington dá marcha ré em políticas de incentivo e Bruxelas afrouxa seu cronograma de descarbonização. O resultado? Um cenário de incerteza que obriga montadoras a repensar estratégias.


EUA freiam, Europa hesita e China desacelera

Nos Estados Unidos, a reversão é a mais drástica. As vendas de elétricos devem cair 29% em 2026, chegando a apenas 1,1 milhão de unidades — bem abaixo do recorde de 1,5 milhão alcançado em 2025. A causa principal está ligada à política: com a administração Trump eliminando incentivos fiscais para carros elétricos, o entusiasmo do consumidor americano esfriou rapidamente.

Leia também: Lucro, política e petróleo travam a transição energética

Na Europa, o quadro é diferente, mas igualmente desafiador. Apesar de as vendas ainda crescerem — 14%, para 4,9 milhões de unidades —, o ritmo é menos da metade do observado em 2025, quando o mercado avançou 33%. A decisão da União Europeia de flexibilizar a proibição de carros a gasolina a partir de 2035 removeu a pressão regulatória que acelerava a mudança de comportamento de montadoras e consumidores.

Já na China, o maior mercado do mundo para elétricos, o crescimento continua, mas perde fôlego. A Benchmark projeta 15,5 milhões de unidades vendidas em 2026, ante 13,3 milhões em 2025. Porém, isso está longe dos saltos exponenciais dos últimos anos, quando as vendas saíram de 1,1 milhão, em 2020, para mais de 13 milhões em apenas cinco anos.


A ascensão da BYD e a queda da Tesla

Um marco simbólico dessa nova fase veio nesta semana: dados confirmam que a chinesa BYD superou a Tesla como maior fabricante de veículos elétricos do mundo em 2025. A conquista se deve, em grande parte, à estratégia agressiva de preços e à expansão internacional da empresa, que levou modelos acessíveis à Europa e a outros mercados emergentes.

Essa ofensiva chinesa pressionou montadoras tradicionais, forçando-as a repensar não só seus preços, mas também seus próprios cronogramas de eletrificação. Enquanto isso, a infraestrutura de recarga deficiente em várias regiões do mundo seguiu afastando consumidores dos veículos 100% elétricos — e abrindo espaço para uma alternativa intermediária: os híbridos.


Híbridos ganham espaço como “ponte” para a transição

Diante das dificuldades, montadoras começam a priorizar soluções de transição. “Ambos os mercados (nos EUA e na Europa) estão percebendo que a eletrificação parcial é tão interessante quanto a eletrificação total”, afirmou Jim Farley, CEO da Ford.

A própria Ford ilustra essa mudança de rumo. No mês passado, a empresa anunciou uma baixa contábil de US$ 19,5 bilhões após cancelar diversos projetos elétricos, incluindo a picape F-150 Lightning, seu carro-chefe nesse segmento. Agora, a montadora redireciona investimentos para híbridos e veículos a combustão, considerados mais lucrativos no curto prazo.

Farley estima que a participação dos elétricos no mercado americano de carros novos pode cair de 10% em 2025 para apenas 5% nos próximos meses — um recuo que reflete tanto a falta de incentivos quanto a cautela do consumidor.


China aposta em estímulos para manter o ímpeto

Ao contrário dos EUA, a China ainda trabalha para manter viva a chama da mobilidade elétrica. Embora tenha reduzido gradualmente subsídios nos últimos anos, Pequim renovou recentemente por mais um ano a política de incentivos para troca de veículos — agora com foco em descontos diretos na compra de elétricos.

Além disso, governos locais seguem investindo em infraestrutura de recarga, um dos principais gargalos que desestimulam a adoção de carros totalmente elétricos. A UBS projeta um crescimento de 8% nas vendas chinesas em 2026, considerando tanto elétricos puros quanto híbridos plug-in.

Essa abordagem pragmática — apoiar a transição sem impor rupturas abruptas — pode servir de modelo para outras regiões que tentam equilibrar metas ambientais, viabilidade econômica e aceitação do consumidor.


O futuro ainda é elétrico — mas o caminho será mais longo

Apesar dos desafios, os executivos do setor mantêm a convicção de que a eletrificação é inevitável. “Estamos convencidos de que o futuro é elétrico. Precisamos descarbonizar a mobilidade”, disse Markus Haupt, diretor executivo da Seat-Cupra, marca do grupo Volkswagen voltada ao mercado de massa.

Contudo, o recado é claro: a transição não será linear. Montadoras precisam agora adaptar suas linhas de produto com mais flexibilidade, investir em tecnologias híbridas e esperar que políticas públicas, infraestrutura e confiança do consumidor amadureçam juntas.

Enquanto isso, o setor deixa para trás a ilusão de uma virada instantânea e entra em uma nova fase — mais realista, mais complexa e, acima de tudo, mais humana.

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