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Decisão de Trump isola María Corina Machado

Por que Trump recusou apoio a María Corina Machado na Venezuela? O New York Times explica o medos de caos e as relações deterioradas O New York Times publicou ontem (05 de janeiro de 2026) um artigo revelador que lança luz sobre as decisões internas da administração Trump em relação à crise política na Venezuela. […]

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Antes da queda de Maduro, Trump já havia decidido não apoiar María Corina Machado, citando riscos de instabilidade e limites reais da oposição.
Trump descarta Machado e redesenha poder na Venezuela / Reprodução
Por que Trump recusou apoio a María Corina Machado na Venezuela? O New York Times explica o medos de caos e as relações deterioradas

O New York Times publicou ontem (05 de janeiro de 2026) um artigo revelador que lança luz sobre as decisões internas da administração Trump em relação à crise política na Venezuela. Intitulado “Why Trump Refused to Back Venezuela’s Machado: Fears of Chaos, and Fraying Ties” (Por Que Trump Recusou Apoio à Machado da Venezuela: Medos de Caos e Relações Deterioradas), o texto, assinado pelos jornalistas Tyler Pager, Anatoly Kurmanaev e Julian E. Barnes, explora os motivos pelos quais o presidente Donald Trump optou por não endossar María Corina Machado como sucessora de Nicolás Maduro após a captura deste último em uma operação militar rápida dos EUA. Essa escolha surpreendeu muitos, especialmente considerando o papel proeminente de Machado na oposição venezuelana e sua vitória eleitoral em 2024.

De acordo com o artigo, a decisão de Trump foi influenciada por uma combinação de relatórios de inteligência americana e um relacionamento cada vez mais tenso entre Machado e altos funcionários da administração. Fontes com conhecimento do processo revelaram que agências como a CIA alertaram para os riscos de instabilidade se a oposição assumisse o poder de forma abrupta.

Leia também: OTAN reage à retórica de Trump sobre a Groenlândia

Trump foi persuadido por assessores chave, incluindo o secretário de Estado Marco Rubio, de que apoiar Machado poderia desencadear um caos ainda maior no país, exigindo uma presença militar americana mais robusta e prolongada. Em vez disso, Trump optou por respaldar o vice-presidente de Maduro como figura de transição, uma escolha pragmática que priorizou a estabilidade imediata sobre a legitimidade popular da oposição.

A líder da oposição, María Corina Machado, e seu candidato presidencial substituto, Edmundo González, em um comício em Caracas, capital da Venezuela / Reprodução

O próprio Trump comentou publicamente sobre o assunto no fim de semana seguinte à operação: “Acho que seria muito difícil para ela ser a líder. Ela não tem o apoio interno nem o respeito dentro do país. É uma mulher muito simpática, mas não tem o respeito”. Essas palavras representaram um golpe duro para Machado, que passou mais de um ano cultivando laços com Trump – inclusive dedicando a ele o Prêmio Nobel da Paz que recebeu, um gesto que o presidente americano sempre cobiçou.

Os detalhes do texto

O artigo do Times detalha como as relações azedaram ao longo do tempo. Richard Grenell, enviado especial de Trump, se reuniu com representantes de Machado, mas um encontro pessoal em Caracas nunca se materializou, apesar de garantias de proteção. Frustrações surgiram quando a equipe de Machado ignorou pedidos por uma lista de prisioneiros políticos, e Grenell pressionou por um plano concreto para instalar Edmundo González (candidato substituto de Machado) no poder, mas recebeu apenas respostas vagas. Além disso, a postura intransigente de Machado contra qualquer diálogo com o regime de Maduro limitou sua capacidade de formar coalizões amplas, alienando setores da sociedade civil e a elite empresarial venezuelana, que via as sanções defendidas por ela como excessivamente punitivas.

Ataques nas redes sociais promovidos por aliados de Machado também contribuíram para o distanciamento, custando o apoio de democratas e empresários influentes no círculo de Trump. Um professor de ciência política citado no artigo observou que, sem assistência externa significativa, Machado e seus aliados carecem dos meios necessários para retomar o poder de forma efetiva.

Mas o que o artigo do New York Times destaca, e que merece uma análise mais profunda, é o contraste entre a propaganda opositora e a realidade no terreno, conforme revelado pelos relatórios de inteligência dos EUA. Por anos, a narrativa propagada por setores da oposição e mídia internacional pintava Maduro como um líder fraco, isolado e sem apoio, com a Venezuela à beira do colapso total.

No entanto, diante dos fatos reais compilados pela CIA e outras agências, a administração Trump teve que recuar dessa visão simplista. A realidade é bem diferente: Maduro conta com um apoio popular sólido em amplas camadas da sociedade, especialmente entre as classes mais pobres que se beneficiam de programas sociais. Há também um forte respaldo institucional, com as Forças Armadas e o judiciário alinhados ao regime, e um apoio “profissional” de burocratas e funcionários públicos que veem continuidade no chavismo.

Além disso, Maduro desfruta do endosso de uma elite financeira que prospera mesmo sob sanções, explorando nichos econômicos como o petróleo e o comércio informal. Contrariando a propaganda de uma “Venezuela acabada”, a economia do país não está morta – pelo contrário, está em fase de recuperação. Dados recentes indicam crescimento no PIB, impulsionado por reformas parciais, investimentos estrangeiros (especialmente da China e Rússia) e uma resiliência surpreendente no setor privado.

A inflação, embora alta, tem sido controlada em comparação com picos anteriores, e a produção de petróleo vem se recuperando, atraindo até mesmo investidores ocidentais cautelosos. Essa recuperação econômica reforça o apoio a Maduro, mostrando que o país não é o “buraco negro” descrito pela oposição.

Essa discrepância entre propaganda e realidade explica, em parte, a cautela de Trump. Apoiar Machado poderia significar mergulhar em um conflito prolongado, sem garantias de sucesso, em um país onde o madurismo ainda tem raízes profundas. Para a oposição venezuelana, o artigo serve como um alerta: sem uma estratégia mais inclusiva e realista, o caminho para o poder permanece bloqueado.

Em resumo, a recusa de Trump em endossar Machado reflete não apenas preocupações geopolíticas, mas uma avaliação fria da dinâmica interna da Venezuela. Enquanto a oposição luta para se reinventar, o regime de Maduro demonstra uma vitalidade que desafia narrativas externas. Essa história, revelada pelo New York Times, nos lembra da complexidade da política latino-americana e da necessidade de análises baseadas em fatos, não em ideologias.

Mais do que um retrato das tensões internas da Casa Branca, o episódio expõe uma contradição estrutural da política externa dos Estados Unidos para a América Latina. O discurso público de defesa da democracia entra em choque direto com práticas que priorizam estabilidade, controle de recursos estratégicos e previsibilidade geopolítica. Quando esses interesses colidem com a vontade popular expressa nas urnas, como no caso venezuelano, a escolha de Washington tende a ser pragmática, não normativa.

A decisão de Trump de apoiar uma transição conduzida por figuras do próprio chavismo, ainda que temporária, escancara essa lógica. O cálculo foi simples: um governo de oposição sem controle institucional, sem apoio militar interno e dependente de forças estrangeiras exigiria um envolvimento prolongado dos EUA. Esse cenário traria custos políticos, financeiros e diplomáticos elevados, além do risco de transformar a Venezuela em um novo Iraque ou Afeganistão latino-americano.

Nesse contexto, a retórica de “libertação” perde espaço para a administração do caos. O governo Trump passou a tratar a crise venezuelana não como uma disputa democrática, mas como um problema de gestão de risco. A prioridade deixou de ser quem governa e passou a ser como garantir fluxo de petróleo, conter migrações em massa e evitar um conflito regional mais amplo.

Ao mesmo tempo, o episódio lança luz sobre os limites de uma oposição que apostou quase exclusivamente na pressão externa. Ao alinhar sua estratégia às sanções econômicas e ao isolamento internacional, setores liderados por María Corina Machado acabaram se afastando da realidade social do país. As sanções, longe de produzir uma ruptura política, aprofundaram desigualdades e fortaleceram redes econômicas paralelas que beneficiam elites adaptadas ao bloqueio.

Esse processo contribuiu para um paradoxo incômodo: enquanto a oposição ganhava visibilidade internacional, o chavismo mantinha — e em alguns casos ampliava — sua base interna. Programas sociais focalizados, controle institucional e uma recuperação econômica parcial foram suficientes para impedir o colapso anunciado por anos. A inteligência americana, ao reconhecer esse cenário, forçou a Casa Branca a abandonar narrativas simplificadoras.

Há também um fator pouco debatido no debate público: a transformação do Partido Republicano sob Trump. A política externa deixou de ser guiada por alinhamentos ideológicos tradicionais e passou a operar de forma transacional. Apoios não são concedidos por afinidade política ou compromisso democrático, mas por capacidade de entrega imediata. Machado, apesar de sua legitimidade eleitoral, não conseguiu oferecer garantias concretas de governabilidade.

Por fim, o caso venezuelano revela uma lição mais ampla para a região. Projetos políticos que dependem da intervenção de potências estrangeiras tendem a perder autonomia e credibilidade. A soberania, ainda que imperfeita e contraditória, continua sendo um elemento central da estabilidade política. Ignorá-la, como mostram décadas de intervenções fracassadas, costuma produzir mais conflito do que soluções.

Ao optar pela cautela, Trump não legitimou a democracia venezuelana, mas reconheceu seus próprios limites. E, ao fazê-lo, desmontou uma narrativa que por anos sustentou expectativas irreais. A Venezuela segue sendo um país complexo, atravessado por disputas internas profundas, que não se resolve por decretos externos. O artigo do New York Times, ao revelar os bastidores dessa decisão, ajuda a recolocar o debate em bases mais concretas — longe da propaganda e mais próximo da realidade.

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