Davos, Suíça – 22 de janeiro de 2026 – O governador da Califórnia, Gavin Newsom, usou o palco do Fórum Econômico Mundial nesta quinta-feira para lançar um alerta grave e apaixonado sobre o que ele descreveu como uma erosão autoritária da democracia dos Estados Unidos.
Em uma entrevista marcada por críticas diretas e retórica afiada, Newsom acusou a administração do presidente Donald Trump de liderar um ataque sistemático contra as liberdades fundamentais, as instituições e o estado de direito dentro do país.
A participação do governador democrata aconteceu sob a sombra de controvérsia. Seu discurso original, marcado para um evento paralelo na “USA House”, foi cancelado após o discurso de Trump no fórum, em um movimento que Newsom atribuiu à interferência direta da Casa Branca. A reinserção de sua fala na agenda principal foi encarada como um ato de desafio político. “Esta é a conversa que Donald Trump tentou cancelar”, declarou Newsom no início, estabelecendo um tom de confronto que permeou toda a sua apresentação.
A América em reverso
Newsom dedicou a primeira parte de sua intervenção a detalhar um cenário que classificou como “a América ao contrário”. Ele enumerou uma série de what chamou de “fatos objetivos”: a censura de milhares de livros em bibliotecas escolares, a reescrita de narrativas históricas e o assalto a qualquer instituição de pensamento independente. Sua descrição mais vívida foi dos recentes distúrbios na Califórnia, onde narrou a presença de “homens mascarados” com uniformes que lembravam os da SS, arrastando cidadãos, quebrando janelas e separando famílias sem devido processo legal. “Não é surpreendente que a administração Trump não tenha gostado dos meus comentários e quisesse me calar? Não, é consistente com esta administração e suas tendências autoritárias”, afirmou.
Sua crítica se estendeu à política externa, que ele rotulou de “imprudente”. Newsom argumentou que o governo Trump desmantelou décadas de alianças internacionais com tuítes, criando um vácuo de liderança global. Ele fez referência ao discurso da primeira-ministra canadense, Mark Carney, que dias antes sugerira que o mundo deve se adaptar permanentemente à ausência da liderança americana. “Quando ouvi o presidente da UE falar”, confessou Newsom, “houve momentos em que pensei: ‘Isso costumava ser nós'”. Para ele, a verdadeira força não reside na destruição. “Destruição não é força. A administração Trump é fraqueza disfarçada de força”, declarou, argumentando que o poder real não está nas forças da natureza, mas nas forças do mercado e da governança estável, que estariam sendo sabotadas.
A estratégia do espelho e a defesa da Califórnia
Questionado sobre sua tática agressiva de resposta – que incluiu a criação de um site onde vende, ironicamente, “joelheiras da série Trump Signature” – Newsom defendeu-a como uma necessidade tática. Ele afirmou que a abordagem tradicional do Partido Democrata falhou em romper o domínio narrativo de Trump. “Decidimos que a única forma de lidar com Trump é combater fogo com fogo”, explicou. “Você precisa colocar um espelho na frente disso. Isso é loucura”. Ele descreveu essa postura como um “espírito empreendedor” e uma “mentalidade muito californiana” de iteração e persistência.
Ao ser confrontado sobre os problemas crônicos da Califórnia, como déficits orçamentários e a crise de custo de vida, Newsom contra-atacou com uma lista de conquistas econômicas. Ele destacou que o estado é a quarta maior economia do mundo, líder em inovação, capital de risco e atração de talentos globais. No entanto, o momento mais pessoal veio quando defendeu suas políticas de imigração e saúde. Ao responder se os democratas “foram longe demais” ao estender a cobertura de saúde a imigrantes indocumentados, sua resposta foi categórica: “Acredito em saúde universal? Sim. Independente de condições pré-existentes, capacidade de pagamento e seu status. Campanhei com isso. Cumpri e tenho orgulho”. Ele conectou esta visão ao legado de Ronald Reagan, lendo uma passagem de seu discurso de despedida sobre a “vitalidade dos recém-chegados”.
Um alerta final e um posicionamento político
O discurso de Newsom atingiu seu clímax emocional com um apelo urgente. Com a voz carregada, ele declarou estar em “estado de alerta vermelho piscante” e advertiu que os Estados Unidos poderiam se tornar “irreconhecíveis em uma questão de meses, não anos”. “Podemos perder nossa república como a conhecemos”, alertou, justificando sua presença em Davos como um ato de denúncia necessária. “Vim aqui para chamar a atenção para isso. E gostaria que mais de nós fizessem o mesmo”.
A apresentação em Davos foi amplamente interpretada como muito mais do que um relatório de governador. Ela funcionou como um manifesto político e um marco no posicionamento de Gavin Newsom no cenário nacional. Ao retratar a Califórnia não apenas como uma potência econômica, mas como o último reduto dos valores democráticos e do pluralismo sob ataque, Newsom solidificou seu papel como a voz principal de uma oposição que se vê lutando pela própria alma da nação. Seu aviso foi dirigido tanto à elite empresarial global, a quem ele lembrou de sua suposta “cumplicidade”, quanto ao eleitorado americano. Em um ano turbulento, a linha entre governança e ativismo parece ter se desvanecido completamente, e Newsom deixou claro que a batalha pelo futuro dos Estados Unidos, da qual Davos foi um palco improvisado, já começou.


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