“O mundo não pode voltar à lei da selva, onde os fortes intimidam os fracos.”
A frase foi dita por He Lifeng, vice-primeiro-ministro do Conselho de Estado da República Popular da China, ao discursar no World Economic Forum. Em poucas palavras, ela resume o eixo central da intervenção chinesa em Davos: a defesa de regras comuns, do multilateralismo, do respeito à soberania dos países e da cooperação como base da ordem internacional.
O discurso de He Lifeng não teve a mesma repercussão que as declarações de Donald Trump no mesmo período, dominadas por ameaças, retórica agressiva e o uso explícito da coerção econômica como instrumento político. Ainda assim, deveria ter tido. O pronunciamento chinês apresentou um contraste direto com essa postura: em vez de confronto, diálogo; em vez de unilateralismo, instituições; em vez de sanções e intimidação, regras e previsibilidade.
Logo nos primeiros minutos de fala, He Lifeng deixou claro que a China vê com preocupação o avanço do protecionismo e das guerras comerciais. “Guerras tarifárias não têm vencedores”, afirmou, acrescentando que esse tipo de política apenas eleva custos, fragmenta cadeias produtivas globais e prejudica o crescimento econômico. A mensagem foi reforçada com dados: a participação do comércio global sob regras de nação mais favorecida caiu de 80% para 72%, enquanto o Fundo Monetário Internacional estima que a fragmentação econômica pode reduzir o PIB mundial em cerca de 7%. “Isso não é do interesse de nenhum país”, disse.
Foi apenas no terceiro momento do discurso que veio a contextualização mais ampla. A fala ocorreu em 20 de janeiro de 2026, em Davos, num cenário internacional marcado por tensões crescentes, conflitos regionais e pelo enfraquecimento das instituições multilaterais. Nesse ambiente, a China optou por se apresentar como defensora declarada da estabilidade econômica global e da cooperação internacional, retomando ideias já expostas pelo presidente Xi Jinping em discursos anteriores no mesmo fórum.
He Lifeng recuperou a metáfora usada por Xi em 2017, quando o líder chinês afirmou que tentar “canalizar as águas do oceano de volta para lagos isolados” era impossível e contrário à história. A imagem voltou agora para criticar o isolamento econômico, o fechamento de mercados e a tentativa de reverter a globalização por meio de barreiras artificiais.
O discurso insistiu que a globalização pode gerar distorções, mas que a resposta não está no isolamento. “O caminho correto é encontrar soluções por meio do diálogo”, afirmou. A China, segundo ele, defende uma globalização “universalmente benéfica e inclusiva”, baseada na cooperação e na complementaridade entre economias.
A defesa do livre comércio apareceu de forma indissociável da defesa da paz. Ao falar sobre o sistema internacional, He Lifeng afirmou que “as regras devem se aplicar igualmente a todos” e que nenhum país pode se arrogar privilégios apenas com base em sua força econômica ou militar. A crítica à “lei da selva” foi acompanhada da defesa explícita da soberania nacional e do direito de cada país escolher seu próprio caminho de desenvolvimento.
Nesse ponto, o vice-primeiro-ministro reafirmou o compromisso da China com a Organização Mundial do Comércio. Lembrou que o país vem cumprindo rigorosamente suas obrigações desde a adesão e destacou uma decisão recente: a China anunciou que não buscará novos tratamentos especiais ou diferenciados em negociações futuras. O objetivo, segundo ele, é fortalecer a credibilidade do sistema multilateral e ampliar a representatividade dos países do Sul Global.
Outro tema central foi a rejeição à lógica de soma zero. Para He Lifeng, desenvolvimento não é um jogo de “eu ganho, você perde”. “Fazer o bolo crescer juntos é mais importante do que brigar por fatias”, afirmou. A China, disse ele, não busca superávits comerciais permanentes e pretende se consolidar também como um grande mercado consumidor, ampliando importações e oportunidades para outros países.
Ao abordar as relações entre China e Estados Unidos, o discurso adotou um tom pragmático. He Lifeng reconheceu que houve tensões recentes, mas destacou que o diálogo permitiu estabilizar a relação econômica bilateral. “Os fatos mostram que a China e os Estados Unidos ganham com a cooperação e perdem com o confronto”, afirmou, acrescentando que sempre haverá “mais soluções do que problemas” quando há disposição para negociar em pé de igualdade.
No campo interno, o vice-primeiro-ministro apresentou a China como fator de estabilidade para a economia global. Destacou o crescimento médio anual de cerca de 5,4% nos últimos cinco anos, a expansão da economia para mais de 140 trilhões de yuans e a contribuição de aproximadamente 30% para o crescimento mundial. Lembrou ainda que o país importou mais de US$ 15 trilhões em bens e serviços nesse período, reforçando a ideia de que o dinamismo chinês beneficia outras economias.
O discurso avançou também sobre inovação e clima. He Lifeng reafirmou as metas chinesas de pico de emissões antes de 2030 e neutralidade de carbono até 2060, destacando que o país construiu o maior sistema de energias renováveis do mundo. Defendeu cooperação internacional em tecnologia, inteligência artificial e transição energética, ressaltando que inovação exige colaboração, não isolamento.
Ao final, a mensagem foi direta: “A sabedoria de Davos está no diálogo, e o futuro do mundo depende da cooperação”. Em um momento em que parte do debate internacional é dominada por ameaças, sanções e discursos de força, a China apresentou uma narrativa alternativa — baseada em regras, soberania, comércio aberto e paz.
Um discurso que passou relativamente despercebido, mas que ajuda a entender a disputa de projetos em curso na ordem internacional.
Assista o vídeo legendado, com exclusividade, pelo Cafezinho abaixo.


Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!