Em meio a sanções, protestos internos e risco de guerra regional, diálogo indireto surge como alternativa às armas
Em um mundo onde as notícias sobre o Oriente Médio frequentemente chegam acompanhadas pelo som de sirenes e explosões, um silêncio carregado de significado emanou, nesta última sexta-feira (6), de um palácio nos arredores de Mascate. Lá, longe dos holofotes e através dos esforços discretos de mediadores omanenses, representantes do Irã e dos Estados Unidos voltaram a se falar, ainda que indiretamente. O tom, surpreendentemente, não foi de confronto. O principal negociador iraniano, Abbas Araghchi, definiu o encontro como um “bom começo”, uma fagulha de esperança em um relacionamento marcado por décadas de desconfiança mútua e hostilidade aberta.
Esta rodada de negociações indiretas, a primeira após meses de escalada militar perigosa, reacende uma aposta na via diplomática que muitos consideravam extinta. O simples fato de as partes terem se sentado, mesmo em salas separadas, sob o mesmo teto, já representa uma vitória tática para aqueles que acreditam que a segurança regional não se conquista apenas com mísseis, mas também com diálogo. No entanto, o caminho à frente permanece estreito e minado, com a sombra da guerra recente pairando sobre cada palavra trocada.
O sultanato que tece pontes onde outras só veem abismos
Mais uma vez, Omã assumiu o papel crucial de arquiteto silencioso da diplomacia. O sultanato, com sua tradição de neutralidade e diálogo, transformou-se no canal de comunicação indispensável entre Washington e Teerã, especialmente quando todas as outras portas parecem trancadas. Nesta sexta-feira, essa função voltou a ser exercida com a maestria de quem conhece o terreno movediço da política regional.
O contexto para este reencontro não poderia ser mais tenso. A memória dos bombardeios americanos a instalações nucleares iranianas, durante a guerra de 12 dias entre Israel e Irã em junho, ainda está fresca. Ao mesmo tempo, a repressão violenta do governo iraniano a protestos internos aprofundou seu isolamento e complicou qualquer cálculo diplomático. Foi neste cenário de crise multifacetada que os jornalistas da Associated Press avistaram as delegações rivais entrando e saindo do mesmo palácio próximo ao aeroporto de Mascate, um local que já serviu a encontros delicados no passado.
A coreografia das reuniões seguiu um roteiro cuidadosamente coreografado para evitar qualquer contato direto que pudesse ser interpretado como concessão prematura. Primeiro, chegou a delegação iraniana. Após sua partida, veículos com a bandeira americana adentraram o recinto. A presença de figuras como Jared Kushner e do enviado especial Steve Witkoff do lado americano sinalizou a seriedade da empreitada. No entanto, um detalhe na composição da comitiva dos EUA chamou a atenção de analistas: a presença do almirante Brad Cooper, chefe do Comando Central. Sua participação inédita em um fórum deste tipo enviou uma mensagem clara e dual: os Estados Unidos vêm para conversar, mas o poder militar permanece sobre a mesa, como um lembrete constante das consequências do fracasso.
A sombra da guerra e da repressão sobre a mesa de negociações
Para entender a frágil natureza deste “bom começo”, é necessário olhar para os traumáticos eventos dos últimos meses. A guerra relâmpago de junho não foi um mero incidente de fronteira; ela alterou fundamentalmente o cálculo estratégico de ambos os lados. Os ataques coordenados atingiram o coração do programa nuclear iraniano, destruindo centrífugas e retardando capacidades de enriquecimento. Simultaneamente, os sistemas de defesa aérea e os arsenais de mísseis do Irã sofreram baixas significativas.
Autoridades ocidentais passaram a enxergar a República Islâmica em um momento de vulnerabilidade inédita nas últimas décadas. Este sentimento se intensificou com os grandes protestos populares que abalaram o país no mês passado, considerados por alguns, como o secretário de Estado americano Marco Rubio, como o maior desafio interno ao regime desde a Revolução de 1979. A resposta brutal do governo, com milhares de mortos e dezenas de milhares de presos, paradoxalmente, ao mesmo tempo que consolidou o controle interno, aumentou a pressão externa e o risco de uma intervenção.
Este é o pano de fundo explosivo sobre o qual a diplomacia tenta agora se erguer. A pergunta que paira no ar em Mascate é se a dor compartilhada – a iraniana, da guerra e da repressão, e a americana, do constante risco de um conflito regional ampliado – pode forjar uma base para um entendimento mais estável. Os países do Golfo, vizinhos que temem serem engolidos por qualquer confronto maior, observam com esperança cautelosa, pois sabem que uma nova guerra teria um custo catastrófico para toda a região.
Os limites rígidos de uma dança diplomática
Apesar do otimismo inicial, os limites do possível nesta negociação já aparecem de forma cristalina. O chanceler iraniano Araghchi foi direto ao ponto ao escrever em suas redes sociais, em um recado claro para Washington: “O Irã entra na diplomacia de olhos abertos e com uma memória sólida do ano passado”. Ele listou os pilares não negociáveis para Teerã: igualdade de condições, respeito mútuo e interesse mútuo. Do outro lado, autoridades americanas, como Rubio, insistem que qualquer diálogo significativo deve ir além do núcleo atômico e abordar também o programa de mísseis balísticos e as atividades regionais do Irã.
Este é o grande nó. Relatos da imprensa regional sugerem que países como Catar, Egito e Turquia apresentaram uma proposta intermediária, incluindo uma suspensão de três anos no enriquecimento de urânio e a transferência do material já enriquecido para um terceiro país, possivelmente a Rússia. No entanto, aliados próximos do Líder Supremo iraniano já se adiantaram para rejeitar publicamente a ideia de enviar combustível nuclear para fora do país. A questão, portanto, transcende a tecnologia; trata-se de soberania nacional e de uma profunda desconfiança sobre as intenções futuras do adversário.
Um fio de esperança em meio a um campo minado
As conversas em Omã, portanto, não representam uma reviravolta milagrosa. Elas são, antes de tudo, um reconhecimento pragmático do impasse militar e dos custos insustentáveis de uma nova escalada. Para a esquerda que observa a cena internacional, o episódio reforça a tese de que a solução duradoura para os conflitos nunca virá da demonstração de força unilateral, mas da construção paciente de canais de comunicação e do respeito ao direito internacional.
A presença de um alto comandante militar americano na mesa, por um lado, mostra a primazia que a administração Trump ainda dá à linguagem do poder. Por outro lado, o fato de ele estar lá para conversar, e não para dar ordens de ataque, pode ser lido como um sinal de contenção. O caminho desde um “bom começo” até um bom fim é longo e cheio de obstáculos. Mas em um região onde a guerra sempre parece estar a apenas um mal-entendido de distância, o simples ato de manter a conversação viva já é uma pequena, porém significativa, vitória da política sobre a pura força bruta. O palácio em Mascate prova que, mesmo entre inimigos jurados, o diálogo ainda é a última e mais corajosa das alternativas.


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