O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, discursou na Conferência de Segurança de Munique, em 14 de fevereiro de 2026, defendendo abertamente a revitalização da hegemonia ocidental e exaltando o ciclo histórico de expansão imperial europeia.
No trecho mais explícito sobre o passado colonial, Rubio afirmou:
“Durante cinco séculos, antes do fim da Segunda Guerra Mundial, o Ocidente esteve em expansão — seus missionários, seus peregrinos, seus soldados, seus exploradores partindo de suas costas para cruzar oceanos, se estabelecer em novos continentes e construir vastos impérios que se estendiam por todo o globo.”
Ele não trata essa expansão como processo ambíguo ou contraditório, mas como marco civilizacional. Em seguida, ao abordar o pós-1945, caracterizou a perda desse poder como decadência:
“Os grandes impérios ocidentais haviam entrado em declínio terminal, acelerado por revoluções comunistas sem Deus e por levantes anticoloniais que transformariam o mundo e estenderiam o martelo e a foice vermelhos por vastas regiões do mapa nos anos seguintes.”
Aqui, os movimentos de independência na África, na Ásia e na América Latina aparecem não como libertação de povos submetidos a dominação colonial, mas como parte de um processo de corrosão da força ocidental.
Rubio também afirmou:
“Nós fazemos parte de uma única civilização — a civilização ocidental.”
E reforçou:
“Para nós, americanos, nosso lar pode estar no Hemisfério Ocidental, mas sempre seremos um filho da Europa.”
A defesa dessa identidade civilizacional foi acompanhada da rejeição explícita ao que chamou de “declínio administrado do Ocidente” e da promessa de “renovar a maior civilização da história humana”.
O projeto apresentado inclui coordenação estratégica para disputar influência econômica fora do eixo atlântico. Em um dos trechos mais reveladores, Rubio propôs:
“Um esforço unificado para competir por participação de mercado nas economias do Sul Global.”
Ou seja, a revitalização ocidental é vinculada diretamente à disputa por mercados na África, na América Latina e na Ásia.
O discurso também atacou a ordem internacional construída após a Guerra Fria. Rubio afirmou que não se pode mais colocar a chamada “ordem global baseada em regras” acima dos interesses nacionais. Defendeu a reforma das instituições multilaterais e declarou que o Ocidente não pode permitir que seu poder seja “terceirizado, limitado ou subordinado a sistemas além de seu controle”.
Ao criticar a Organização das Nações Unidas, Rubio afirmou:
“A ONU não conseguiu resolver a guerra em Gaza. Em vez disso, foi a liderança americana que libertou reféns de bárbaros e trouxe uma trégua frágil.”
E acrescentou que a ONU “não resolveu a guerra na Ucrânia” e foi “incapaz de conter o programa nuclear de clérigos xiitas radicais em Teerã”, algo que, segundo ele, exigiu “14 bombas lançadas com precisão por bombardeiros americanos B-2”.
A crítica ignora que os próprios Estados Unidos utilizaram reiteradamente o poder de veto no Conselho de Segurança para bloquear resoluções relativas a Gaza. Após limitar o alcance das decisões da ONU, Washington acusa a organização de inoperância — uma contradição evidente no discurso.
Além disso, Rubio atacou políticas ambientais globais, referindo-se a um “culto climático”, e associou a migração em massa a uma ameaça à “sobrevivência da nossa civilização”.
Quando o secretário celebra cinco séculos de expansão ocidental, esse período histórico inclui a partilha colonial da África, a imposição de fronteiras arbitrárias, a escravização de milhões de africanos, o extermínio e a mutilação de populações indígenas nas Américas, a destruição de economias locais e a organização de sistemas coloniais voltados à extração violenta de riqueza.
Ao enquadrar o declínio desses impérios como erro histórico e ao defender a reorganização estratégica do Ocidente para disputar mercados no Sul Global, Rubio apresenta uma visão em que a hegemonia atlântica não é tratada como passado superado, mas como referência para o futuro.


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