A Santa Sé decidiu, de forma oficial e irrevogável, não participar do Conselho de Paz proposto pelo presidente Donald Trump. A recusa foi comunicada pessoalmente pelo secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, durante encontro bilateral com autoridades italianas realizado nesta quarta-feira (18) no Palazzo Borromeo, sede da embaixada da Itália junto à Santa Sé.
O encontro marcou o aniversário dos Pactos de Latrão de 1929, que definiram a soberania do pequeno Estado vaticano. O presidente italiano Sergio Mattarella e representantes do governo de Roma estiveram presentes. Enquanto a Itália aceitou integrar o mecanismo na condição de observadora, Parolin deixou claro que a Santa Sé não pode fazer o mesmo.
“Há aspectos que suscitam dúvidas e pontos que precisariam de esclarecimento”, afirmou o cardeal, referindo-se à natureza ainda indefinida do conselho. Mais do que isso, Parolin reforçou a posição histórica da diplomacia vaticana: “Uma preocupação é que, no âmbito internacional, seja sobretudo a ONU a gerir essas situações”.
A iniciativa de Trump, anunciada em janeiro deste ano, nasceu com foco inicial na reconstrução e estabilização da Faixa de Gaza, mas rapidamente ganhou contornos globais. A Casa Branca a apresenta como um “G20 da paz”: um fórum ágil para mediar conflitos, acelerar negociações e contornar a lentidão burocrática das Nações Unidas. Países como México e Nova Zelândia já manifestaram reservas; agora, a ausência do Vaticano — ator moral com influência única sobre 1,4 bilhão de católicos — representa um revés simbólico de peso para a proposta americana.
A Santa Sé justificou a decisão pela “natureza peculiar” que a distingue de qualquer outro Estado. Não se trata de rejeição à ideia de paz, mas de preservação de sua identidade jurídica e espiritual: o Vaticano não quer se tornar peça de um mecanismo ainda em construção e potencialmente alinhado a interesses de uma única potência.
Parolin, diplomata de carreira que atua como “primeiro-ministro” do papa Leão XIV desde 2013, falou também sobre o conflito na Ucrânia, que completa quatro anos de invasão russa em larga escala nos próximos dias. O tom foi de franqueza desolada. Ataques intensos das últimas semanas contra infraestruturas energéticas em Kiev e outras cidades ucranianas agravaram a crise humanitária. “O clima é de muito pessimismo”, disse o cardeal. “Espera-se que as negociações tragam algum resultado, mas não parece haver grandes expectativas.”
Desde fevereiro de 2022, o Vaticano mantém canais abertos com Moscou e Kiev, oferece ajuda humanitária através da Cáritas e de redes eclesiais e insiste em cessar-fogo imediato, negociações diretas e proteção aos civis. O papa Leão XIV repetiu esses apelos em todas as suas mensagens públicas. A Santa Sé evita, porém, qualquer alinhamento que comprometa sua credibilidade como mediadora imparcial.
Analistas italianos ouvidos por veículos de imprensa em Roma interpretam a recusa como movimento deliberado de preservação de imagem. Integrar um conselho criado por Washington poderia ser lido como endosso implícito a uma visão “ocidental” ou “trumpiana” da ordem internacional — algo que a diplomacia vaticana, construída ao longo de séculos, sempre procurou evitar.
Ao mesmo tempo, Parolin destacou os laços sólidos com a Itália. Agradeceu ao governo italiano pela atenção a temas caros à Igreja: políticas de apoio à família, educação, inclusão de pessoas com deficiência e reforma do sistema prisional. Grupos de trabalho conjuntos entre autoridades estatais e a Conferência Episcopal Italiana registram avanços concretos nessas áreas.
A posição vaticana chega num momento de intensa fragmentação geopolítica. Trump, de volta à Casa Branca desde janeiro, tem priorizado “coalizões de vontade” e acordos bilaterais ou plurilaterais ágeis, em detrimento de instituições multilaterais que considera obsoletas ou ineficientes. O Conselho de Paz seria o emblema dessa filosofia: velocidade americana em vez de consenso universal.
Para países do Sul Global, incluindo o Brasil, a equação é delicada. Participar poderia trazer recursos financeiros imediatos para reconstruções (o conselho já teria US$ 5 bilhões prometidos só para Gaza), mas arrisca esvaziar ainda mais a legitimidade da ONU — foro onde o Brasil defende, há décadas, a reforma do Conselho de Segurança com assento permanente.
A Santa Sé, com sua rede de nunciaturas em quase todos os países e influência moral que transcende fronteiras, optou pelo caminho oposto: reforçar o único organismo que, ao menos em teoria, representa toda a comunidade internacional. Não por ingenuidade, mas por convicção de que paz duradoura exige inclusão, não exclusão.
Especialistas lembram que essa é a postura clássica da diplomacia vaticana desde os Pactos de Latrão: soberania limitada em território, mas voz moral ilimitada. Em 2026, com guerras simultâneas na Europa e no Oriente Médio, pessimismo generalizado e um presidente americano que prefere ação direta, o “não” de Parolin ecoa mais forte que muitos “sim” de outros Estados.
A decisão não significa isolamento. O Vaticano continua disposto a dialogar com todos os atores, inclusive os que integram o novo conselho. Apenas não quer legitimar, com sua presença, uma estrutura paralela cuja eficácia e imparcialidade ainda não estão comprovadas.
Em resumo, o Vaticano enviou um recado claro ao mundo: em tempos de desordem global, a solução não está em criar novos clubes seletos, por mais bem-intencionados que sejam. Está em fortalecer o fórum que, apesar de todas as imperfeições, ainda carrega a esperança de representar a humanidade inteira.


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