Em meio a décadas de alinhamento quase automático entre Londres e Washington, a recusa britânica em apoiar uma nova ofensiva militar dos Estados Unidos contra o Irã soa como um pequeno terremoto diplomático. O país que acompanhou os americanos na invasão do Iraque em 2003, sem mandato da ONU, agora dá sinais de que não pretende repetir a história — ao menos não da mesma forma.
Segundo o jornal britânico The Times, o governo do primeiro-ministro Keir Starmer decidiu bloquear o uso de duas bases estratégicas sob controle britânico para um eventual ataque ordenado por Donald Trump contra o Irã. A justificativa oficial seria o temor de questionamentos internacionais quanto à legalidade de uma ação militar sem respaldo do Conselho de Segurança da ONU, do qual Reino Unido e EUA são membros permanentes.
A decisão atinge diretamente duas estruturas-chave: a base de Diego Garcia, no oceano Índico, e a de Fairford, na Inglaterra. Diego Garcia, situada no arquipélago de Chagos — cuja soberania foi recentemente devolvida às Ilhas Maurício, embora Londres mantenha o controle militar — é historicamente utilizada por bombardeiros estratégicos americanos como B-2, B-52 e B-1B.
No ano passado, a base foi central na campanha de pressão contra Teerã antes do ataque promovido por Washington contra instalações nucleares iranianas. Agora, Trump voltou a mencionar publicamente Diego Garcia em sua rede social, insinuando que poderá “precisar” da instalação caso o Irã não aceite um acordo sobre seu programa nuclear.
Cálculo político e econômico
A negativa britânica ocorre num contexto explosivo. Os EUA intensificaram a mobilização militar no Oriente Médio, enviando mais de 120 aeronaves de combate e apoio à região, além de um segundo grupo de porta-aviões liderado pelo USS Gerald R. Ford. A sinalização vai muito além de um ataque pontual: analistas interpretam o movimento como uma possível tentativa de “decapitação” do regime iraniano.
Para Londres, o custo político de embarcar nessa aventura pode ser elevado. O Reino Unido possui investimentos e interesses estratégicos no Oriente Médio e acompanha com preocupação os riscos de desestabilização regional — especialmente em relação ao estreito de Hormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial.
Há também o fator reputacional. Depois de sua cumplicidade com a política israelense na guerra em Gaza — amplamente denunciada por organizações internacionais como genocídio — o governo britânico pode estar tentando evitar a imagem de coautor de um conflito potencialmente muito mais devastador. O Irã, com quase 90 milhões de habitantes, não é um alvo qualquer.
O veto não impede Washington
Apesar do gesto político, o bloqueio não inviabiliza uma ofensiva americana. No ataque de 2025, os bombardeiros B-2 decolaram diretamente dos Estados Unidos, sendo reabastecidos em voo e escoltados por caças F-22 e F-35. A capacidade operacional de Washington permite agir mesmo sem o apoio logístico britânico.
Ainda assim, o gesto de Londres tem peso simbólico. Num cenário em que a chamada “relação especial” entre Reino Unido e Estados Unidos sempre implicou obediência estratégica, a recusa representa uma fissura — ainda que pequena — na lógica da vassalagem automática.
Resta saber se se trata de um movimento circunstancial, ditado pelo medo das consequências jurídicas e econômicas de uma nova guerra, ou se marca o início de uma postura mais cautelosa diante de aventuras militares que podem incendiar o Oriente Médio e arrastar o mundo para mais uma crise global de proporções imprevisíveis.


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