“O imperialismo americano é o pior. Quando se apodera de uma área, se recusa obstinadamente a soltá-la; somente se o povo local se levantar em luta resoluta é que pode ser expulso”, disse o primeiro-ministro Zhou Enlai ao líder paquistanês Maulana Bhashani em 1965, numa conversa que condensava décadas de resistência chinesa à tutela das grandes potências sobre o destino dos povos.
Dez anos antes, na Conferência de Bandung, o próprio Zhou Enlai havia apresentado ao mundo os Cinco Princípios de Coexistência Pacífica (soberania, não agressão, não interferência, benefício mútuo e coexistência pacífica), pedra angular de uma diplomacia que rejeitava blocos militares e hegemonismo e que se tornaria a base do Movimento dos Não-Alinhados e do que hoje chamamos de Sul Global.
Foi esse fio histórico que Wang Yi retomou neste 8 de março, numa coletiva de imprensa em Pequim durante a quarta sessão da 14ª Assembleia Popular Nacional.
Wang Yi falou na condição de ministro das Relações Exteriores e membro do Birô Político do Comitê Central do Partido Comunista da China. Na abertura, apresentou a diplomacia chinesa como “a mais importante força de paz, estabilidade e justiça do mundo” e situou sua fala num cenário global marcado por guerras e turbulências.
Perguntado pela emissora Phoenix TV sobre os ataques dos EUA e de Israel ao Irã, Wang Yi respondeu que se trata de “uma guerra que não deveria ter acontecido e que não traz benefício a ninguém”. Repetiu que a soberania do Irã e dos países do Golfo deve ser respeitada, que o abuso da força precisa ser rejeitado e que civis não podem ser vitimados.
O chanceler elencou cinco princípios para a solução da crise e disse que “a lei da selva não pode voltar a reger o mundo”. Afirmou que a mudança de regime e as chamadas “revoluções coloridas” não encontram apoio popular, e chamou a China de “amiga sincera e parceira estratégica” dos países do Oriente Médio.
Neste domingo, o nono dia da campanha militar EUA-Israel contra o Irã foi marcado pela ampliação dos bombardeios sobre instalações de combustível perto de Teerã e pela expansão dos ataques para outros pontos do Golfo e do Levante. Donald Trump descartou negociação como saída imediata.
Wang Yi não formulou isso de modo explícito, mas a guerra contra o Irã é também, indiretamente, uma guerra contra a China. A lógica é a mesma que já operou na Venezuela, cujo petróleo tinha a China como destino quase exclusivo antes das sanções americanas. Dados da Reuters mostram que a China compra 1,38 milhão de barris por dia de petróleo iraniano, absorve mais de 80% das exportações do Irã e depende do Estreito de Ormuz para cerca de 45% de suas importações de petróleo.
Ao atacar o Irã e ameaçar a passagem pelo Estreito de Ormuz, Washington tenta controlar a oferta mundial de petróleo pela força, uma tática imperial tosca com consequências diretas sobre a segurança energética chinesa. Na mesma semana, a Reuters noticiou que Pequim iniciou conversas com Teerã para garantir passagem segura de navios chineses e de cargas de gás.
Na coletiva, Wang Yi revelou que as embaixadas chinesas no Irã e em outros Estados do Golfo estão trabalhando na evacuação e na segurança de cidadãos chineses.
O jornalista Mauro Ramos Pintos, do Brasil de Fato, perguntou a Wang Yi sobre a pressão dos EUA e a estratégia de segurança americana na América Latina. Wang Yi reagiu dizendo que “roteiros do século 19 não podem ser reapresentados no palco internacional do século 21”.
Afirmou que os recursos da América Latina e do Caribe pertencem a seus povos, que o caminho desses países deve ser escolhido por eles e que a escolha de amigos cabe a eles, não a Washington. Disse que os povos latino-americanos querem “construir sua própria casa, não ser o quintal de alguém” e que aspiram “à independência, não à Doutrina Monroe”.
Perguntado sobre Gaza, Wang Yi disse que a situação testa os fundamentos da justiça internacional e que só a solução de dois Estados pode oferecer saída para a questão palestina. A Reuters registrou neste 8 de março novo ataque israelense em Gaza e lembrou que centenas de palestinos foram mortos desde o início do cessar-fogo firmado em outubro de 2025.
Wang Yi rejeitou a ideia de um “G2” e disse que rivalidades entre grandes potências sempre trouxeram desastres à humanidade. Defendeu uma ordem multipolar centrada na ONU e criticou “um certo país” que ergue barreiras e empurra a dissociação tecnológica. A Reuters informou nesta semana que a escalada no Oriente Médio levou Kiev e Washington a discutirem o adiamento de conversas com a Rússia, confirmando que as guerras já não correm em paralelo e se reorganizam mutuamente.
A coletiva de Wang Yi foi a rejeição mais aberta da ordem imperial americana feita por Pequim nos últimos anos. O que a China comunicou neste 8 de março é que o conflito mundial não se resume ao choque militar, mas passa pela disputa entre uma ordem baseada na imposição e outra baseada em soberania, multipolaridade e desenvolvimento.


Kleiton
08/03/2026 - 19h35
A China està caladinha (assim como todos os sub desenvolvidos cronicos dos ditos brics) pois sabe que se falar demais Trump toma conta do estreito de Ormuz e o petroleo na China chega sò quando ele quiser…
A enrabada que Trump pode dar na China é imensa, é sò ele querer, o resto sao imbecilidades.