O colapso instantâneo que Washington queria não aconteceu. Nove dias depois de Ali Khamenei ser morto aos 86 anos num ataque dos Estados Unidos e de Israel, a Assembleia dos Peritos anunciou Mojtaba Khamenei como novo líder supremo da República Islâmica.
Antes da nomeação, entrou em cena o mecanismo previsto no artigo 111 da Constituição iraniana, com um conselho provisório assumindo as funções do líder até a escolha do sucessor. Sob bombardeio, a engrenagem do Estado iraniano não parou.
O mecanismo precisa ser explicado com clareza. A Assembleia dos Peritos, responsável por designar e supervisionar o líder supremo, é composta por 88 clérigos eleitos por voto popular. São os cidadãos iranianos que escolhem, nas urnas, os membros desse colegiado. A Assembleia, por sua vez, elege o líder supremo.
Mojtaba chega ao cargo com 56 anos, nascido em 1969 em Mashhad, e há muito tempo é tratado como homem forte dos bastidores. Nunca foi eleito para um cargo público, mas acumulou influência dentro do escritório do pai e construiu laços estreitos com a Guarda Revolucionária.
Também por isso a sucessão ganhou peso de gesto soberano. Donald Trump disse à Reuters que os Estados Unidos queriam ter voz na escolha do novo líder iraniano e, depois da nomeação, afirmou que o sucessor não duraria sem aprovação americana. A resposta de Teerã foi política e simbólica ao mesmo tempo. Nomeou rapidamente o substituto e mostrou que a chefia do regime não seria decidida em Washington. É cedo para saber se Mojtaba consolidará poder por muitos anos, mas já se pode dizer que a estratégia de “decapitação” não produziu o vácuo de comando que seus patrocinadores anunciavam.
Na disputa por legitimidade, aliás, os Estados Unidos tampouco conseguiram impor uma narrativa limpa. Um painel independente da ONU afirmou que os ataques iniciais de EUA e Israel, assim como as retaliações iranianas, violam a Carta das Nações Unidas. Na Europa, autoridades da Suíça, da Alemanha e da Espanha passaram a questionar publicamente a legalidade da ofensiva ocidental. E, dentro dos próprios EUA, uma pesquisa Reuters/Ipsos mostrou que só cerca de um quarto dos americanos aprovava os ataques. Isso não prova uma virada global completa, mas mostra que Washington não venceu de saída a batalha moral e política desta guerra.
O custo humano ajuda a explicar essa erosão. A Reuters revelou que investigadores militares dos EUA consideram provável a responsabilidade americana no ataque a uma escola de meninas em Minab, embora a apuração ainda não esteja concluída. Especialistas da ONU disseram estar profundamente perturbados com relatos de mais de 160 crianças mortas. Em Teerã, os ataques israelenses a depósitos de combustível deixaram a capital sob fumaça pesada, e autoridades iranianas alertaram para a liberação de substâncias tóxicas no ar. Quando a guerra chega a escolas e à respiração de milhões numa capital, a propaganda da “precisão cirúrgica” começa a ruir.
O Irã elege o presidente por voto direto para mandatos de quatro anos e tem um Parlamento unicameral de 290 cadeiras, o Majlis. O presidente atual, Masoud Pezeshkian, integra o conselho provisório que assumiu as funções do líder após a morte de Ali Khamenei. O Majlis foi renovado em 2024 e reserva cinco assentos a minorias religiosas reconhecidas.
O ponto político permanece. Matar Ali Khamenei não desmontou o Estado iraniano. Em meio à guerra, à alta do petróleo e às retaliações espalhadas pelo Golfo, a República Islâmica recompôs sua chefia máxima em dias, não em meses. A aposta americano-israelense numa implosão rápida de Teerã falhou, ao menos por enquanto, numa guerra que já deve custar centenas de bilhões de dólares aos contribuintes americanos. O Irã está ferido, acuado e mais duro. Mas está de pé.


Ronei
09/03/2026 - 07h28
Miguel do Larápio e a Constituição Iraniana…Kkkkkkkkk
O esquerdismo é um sub desenvolvimento mental e nada mais.
Dudu
09/03/2026 - 07h18
Já já vai se encontrar com o papai dele.