Donald Trump está mais desorientado do que nunca.
O presidente americano parece não saber como lidar com a confusão trágica que ele próprio criou no Oriente Médio. A escalada militar contra o Irã já empurra o mundo para a beira de um colapso energético.
O isolamento político de Washington é cada vez mais evidente. Editorialistas de alguns dos jornais financeiros mais pró-capitalistas e pró-americanos do planeta vêm expressando preocupação aberta com a crise. A avaliação predominante é que a situação nasceu de uma decisão estratégica irresponsável da Casa Branca.
O apoio internacional a Trump é mínimo. Ele permanece relativamente forte apenas dentro de sua base conservadora nos Estados Unidos. Fora do país, sua política externa enfrenta desconfiança crescente.
Mesmo na Europa, o apoio é hesitante. Algumas lideranças manifestaram solidariedade inicial, mas trata-se de um respaldo tímido e oportunista. Nos bastidores, cresce o receio de que a guerra provoque uma crise energética global.
A decisão de Trump de suspender sanções contra a Rússia — algo que, aliás, deveria ter sido feito muito antes — também provocou irritação em diversas capitais europeias. Isso ocorre porque parte das elites políticas do continente continua prisioneira da obsessão russofóbica e da lógica da guerra na Ucrânia. Qualquer movimento que altere esse eixo provoca reações imediatas.
Agora Trump tenta abrir uma nova frente. Em postagem recente nas redes sociais, declarou esperar que vários países enviem navios de guerra para proteger o fluxo de petróleo no Estreito de Ormuz. Entre os países citados, aparece explicitamente a China.
“Esperamos que China, França, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido e outros enviem navios para a região”, escreveu.
A mensagem, porém, tem um significado estratégico mais profundo. Segundo análises que circulam em fóruns internacionais, o convite funciona como uma armadilha diplomática: qualquer resposta de Pequim pode ser explorada por Washington.
Se a China aceitar e enviar navios, legitimará uma coalizão militar sob liderança americana. Na prática, subordinaria parte de sua presença naval à arquitetura estratégica dos Estados Unidos e perderia a neutralidade diplomática que mantém em relação ao Irã. O custo econômico também seria alto: a China hoje compra petróleo iraniano com desconto, por meio de rotas e mecanismos financeiros paralelos. Participar de uma coalizão militar comprometeria essas vantagens e enfraqueceria o sistema financeiro alternativo que Pequim vem construindo.
Mas recusar o convite também traz riscos. Washington poderá acusar Pequim de lucrar com o comércio de petróleo enquanto se recusa a contribuir para a segurança da principal rota energética do planeta. A narrativa de “carona estratégica” seria mobilizada imediatamente.
Na mesma mensagem, Trump fez uma admissão reveladora. Afirmou que os Estados Unidos já teriam destruído “100% da capacidade militar do Irã”, mas reconheceu que Teerã ainda poderia atacar navios no Estreito de Ormuz com drones, minas marítimas e mísseis de curto alcance. A contradição é evidente: uma vitória militar convencional não garante o controle de um gargalo marítimo. Um país derrotado no campo de batalha pode continuar bloqueando rotas estratégicas com armas muito mais baratas do que os sistemas utilizados pelas grandes potências.
O Estreito de Ormuz é o exemplo perfeito dessa vulnerabilidade. Com apenas cerca de 33 quilômetros de largura em seu ponto mais estreito, concentra uma das rotas energéticas mais importantes do mundo. Qualquer interrupção no tráfego provoca choques imediatos nos mercados globais.
Trump deixou claro que os Estados Unidos continuarão bombardeando a costa iraniana enquanto tentam manter a passagem aberta. Ao mesmo tempo, pede que outras potências enviem navios para escoltar petroleiros que hoje enfrentam problemas de seguro e de cobertura financeira para operar na região.
Mas por trás da proposta militar há uma disputa que vai muito além dos navios: a disputa pela moeda. Se os Estados Unidos conseguirem reabrir o estreito sozinhos, o comércio de petróleo seguirá operando sob o sistema financeiro dominado pelo dólar. Se uma coalizão internacional assumir a operação, esse controle se dilui. E se ninguém assumir o risco militar, as redes comerciais paralelas — incluindo rotas de petróleo que já funcionam fora do sistema financeiro ocidental — ganham ainda mais terreno.
É por isso que a mensagem de Trump chama tanta atenção. Não se trata apenas de um convite militar. É uma tentativa de forçar cada potência global a escolher um lado — não só na guerra, mas no sistema econômico que vai reger o mundo depois dela. A questão de fundo não é quem envia navios ao Ormuz. É quem controla a moeda em que o petróleo será negociado.


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