Enquanto Washington afunda na lógica de um conflito que prometeu ser rápido, o preço do petróleo e a paciência do eleitor americano ameaçam cobrar a conta mais cedo do que o presidente imaginava.
Há uma ironia cruel no destino de líderes que escolhem a guerra como instrumento de afirmação política, pois ela raramente se deixa domesticar pela conveniência eleitoral.
Donald Trump, na terceira semana de uma ofensiva militar conjunta com Israel contra o Irã, descobre agora o que seus antecessores aprenderam da pior forma possível. De Lyndon Johnson no Vietnã a George W. Bush no Iraque, conflitos armados têm uma voracidade própria e não pedem licença ao calendário político de seus protagonistas.
O presidente que proclamou a guerra “já vencida” há poucos dias vê o horizonte se alargar diante de si. A perspectiva agora é de semanas adicionais de combate, sem qualquer coalizão internacional disposta a dividir o fardo.
Na segunda-feira, a Casa Branca anunciou o adiamento de uma visita presidencial à China, prevista para abril, em razão do conflito. O nome militar da operação, “Fúria Épica”, ganhou vida própria nas comunicações oficiais, com a porta-voz Karoline Leavitt invocando-o solenemente para justificar cada decisão, como se a grandiosidade do codinome compensasse a ausência de uma estratégia de saída claramente articulada.
Trump utilizou suas redes sociais no fim de semana para conclamar China, França, Japão, Coreia do Sul e Reino Unido a enviarem navios para proteger o Estreito de Ormuz. A resposta foi, no mínimo, constrangedora para um presidente acostumado a se apresentar como o maior negociador do mundo.
Japão, Austrália e boa parte das potências europeias sinalizaram que não têm interesse em embarcar nessa aventura. O primeiro-ministro britânico Keir Starmer foi explícito ao dizer que seu país “não será arrastado para uma guerra mais ampla”. A Europa, que tanto se curvou diante das demandas americanas nos últimos anos, encontrou nesse conflito um limite que Washington parece não ter antecipado.
O Estreito de Ormuz não é um detalhe cartográfico menor. Por ali transitam aproximadamente 20% de todo o petróleo consumido no planeta, e a desestabilização desse corredor interfere diretamente nos preços globais de energia.
Os efeitos já se fazem sentir nos postos de gasolina americanos, onde o litro equivalente ao galão saltou de cerca de 2,94 dólares para 3,72 dólares em apenas um mês. Para um presidente que fez da gasolina barata um símbolo de sua gestão econômica, esse número é politicamente venenoso.
Analistas ouvidos pela imprensa americana destacam que a base trumpista mais fiel ainda resiste, absorvendo as dúvidas sobre o Irã da mesma forma que absorveu questionamentos sobre tarifas e imigração. O problema está nas bordas do eleitorado, nos republicanos moderados e nos independentes que votaram em Trump em 2024 com a expectativa de ver sua conta no supermercado diminuir, não crescer.
O dilema que se apresenta ao presidente tem duas faces igualmente incômodas. Se ele encerrar a operação agora, declarando que os objetivos militares foram suficientemente cumpridos, o Irã mantém capacidade de ameaçar o tráfego marítimo, o petróleo permanece caro e os Estados Unidos terão gasto dezenas de bilhões de dólares sem reconfigurar de forma decisiva o equilíbrio de poder no Oriente Médio. Seria uma vitória de fachada, e o eleitorado que paga a conta nas bombas de gasolina perceberia isso com rapidez.
Se ele escalar a operação, mobilizando as tropas anfíbias já deslocadas do Japão para a região, abre-se a perspectiva do cenário que os americanos mais temem. Outro conflito terrestre prolongado no Oriente Médio, com baixas, custos astronômicos e sem horizonte de encerramento, é rejeitado pela maioria da população, profundamente cética quanto a novas aventuras militares na região.
Há ainda uma dimensão geopolítica que raramente aparece com a devida ênfase nos noticiários ocidentais. A recusa europeia em se engajar ao lado dos Estados Unidos nessa operação não é episódica, é sintomática.
Moscou e Pequim observam com atenção calculada, sabendo que cada semana de conflito aprofunda o isolamento diplomático americano e corrói a narrativa de um “Ocidente unido”. O Sul Global, que nunca manifestou entusiasmo por sanções unilaterais e intervenções militares apresentadas como missões civilizatórias, assiste com ceticismo crescente.
Para o Brasil e para os demais países do BRICS, a guerra contra o Irã reforça um argumento que vem ganhando tração há anos. A arquitetura de segurança global centrada exclusivamente em Washington é instável, onerosa e frequentemente desestabilizadora para regiões que pouco têm a ganhar com ela.
O preço do petróleo que sobe em Ormuz chega às refinarias brasileiras e às bombas de gasolina em São Paulo. Conflitos escolhidos por uma potência distante têm consequências muito concretas para quem está do outro lado do Atlântico.
Trump, enquanto isso, jogou golfe no fim de semana, discutiu reformas no Kennedy Center e se irritou com a Suprema Corte. A normalidade performática de sempre. Mas as guerras, como ensinaram a todos os presidentes americanos que as abraçaram sem planejamento de saída, não se importam com o cronograma de quem as declarou.


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