Ex-presidente elogia ministro do STF enquanto relações suspeitas com banqueiro preso ganham repercussão nacional.
Michel Temer saiu em defesa pública do ministro Alexandre de Moraes numa semana em que o magistrado enfrenta questionamentos sérios sobre seus vínculos com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master preso por fraudes financeiras.
O ex-presidente falou durante o Fórum Pensa Brasil, evento promovido pelo canal BandNews TV nesta terça-feira, 17.
A declaração mais emblemática foi direta e sem rodeios.
"Se não fosse ele no passado recente, nós talvez não tivéssemos eleições no país", afirmou Temer, acrescentando que Moraes demonstrou "uma coragem jurídica e até pessoal extraordinárias" ao longo dos episódios que marcaram o fim do governo Bolsonaro.
A defesa tem peso simbólico: foi o próprio Temer quem indicou Alexandre de Moraes ao Supremo Tribunal Federal, em 6 de fevereiro de 2017. A vaga havia sido aberta pela morte do ministro Teori Zavascki em um acidente aéreo.
"Eu o nomeei e confesso, não me arrependo", declarou o ex-presidente ao ser questionado sobre as críticas crescentes ao comportamento do ministro.
O problema é que o momento escolhido para o elogio não poderia ser mais delicado para Moraes.
Segundo reportagem da colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, mensagens encontradas no celular de Vorcaro foram direcionadas a um interlocutor identificado como o próprio ministro do STF. Moraes negou qualquer contato, mas não ofereceu nenhuma explicação sobre a natureza da conversa ocorrida no dia da prisão do banqueiro.
O Estadão confirmou com fontes ligadas à investigação que os dois de fato conversaram naquela data. Segundo o presidente da CPI do INSS, senador Carlos Viana, uma das mensagens enviadas por Vorcaro perguntava se o interlocutor havia conseguido "bloquear" algo, e o destinatário era um telefone funcional do STF.
O caso ganhou uma dimensão adicional com a revelação sobre o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.
O contrato firmado com o Banco Master previa atuação junto ao Banco Central, à Receita Federal e ao Congresso Nacional. A remuneração estabelecida era de R$ 3,6 milhões por mês ao longo de três anos, o que poderia representar um total de R$ 129 milhões.
A coincidência entre o contrato da esposa e a área de regulação financeira em que o Master enfrentava dificuldades institucionais não passou despercebida.
Temer tentou contextualizar as críticas a Moraes defendendo que a liberdade de expressão, invocada por quem ataca o ministro, já estaria garantida pelo fato de a imprensa poder criticar o Supremo abertamente. "Quando se fala que a liberdade de expressão tem que ser plena, tanto é plena que a imprensa critica muitas vezes o que o Supremo faz", disse o ex-presidente.
O argumento é válido em tese, mas não responde às questões concretas sobre os vínculos entre o ministro e o banqueiro investigado.
A postura de Temer também revela uma coerência política do MDB nos últimos anos. O partido tem se posicionado como fiador do campo democrático contra o bolsonarismo, e a defesa de Moraes faz parte desse projeto.
O problema é que a defesa incondicional de um ministro em meio a indícios tão graves pode custar caro em credibilidade.
O STF construiu, ao longo dos últimos anos, um papel central na contenção das ameaças ao regime democrático brasileiro. Moraes foi um dos protagonistas desse processo, conduzindo investigações sobre a trama golpista de 8 de janeiro e o inquérito das fake news.
Esse histórico real não elimina, porém, a necessidade de transparência sobre os contratos da família e os contatos com investigados.
A defesa de Temer chega num momento em que o próprio Moraes precisaria falar com mais clareza. O silêncio do ministro sobre os detalhes da conversa com Vorcaro alimenta especulações que um esclarecimento direto poderia desfazer.
Blindar quem detém autoridade não é necessariamente o mesmo que defender a democracia. Às vezes, são coisas inteiramente distintas.

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