Após meses de aperto monetário brutal, o Banco Central dá um passo tímido na direção do alívio. A taxa de 14,75% ao ano, no entanto, ainda sangra a economia produtiva e o bolso do trabalhador.
O Comitê de Política Monetária do Banco Central, o Copom, decidiu reduzir a taxa Selic de 15% para 14,75% ao ano. A decisão representa o primeiro corte desde maio de 2024, encerrando um longo período de imobilidade que custou caro à economia real.
O movimento era aguardado pela maior parte dos analistas do mercado financeiro. Eles já projetavam exatamente essa redução de 0,25 ponto percentual.
O corte, embora bem-vindo, precisa ser lido com cautela. Uma taxa de 14,75% ao ano ainda coloca o Brasil entre os países com os juros reais mais altos do planeta, penalizando quem produz, consome e precisa de crédito para sobreviver.
O rentismo brasileiro segue sendo um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento nacional. Enquanto o capital especulativo se reproduz sem esforço nas aplicações de renda fixa, a indústria, o pequeno comércio e o trabalhador endividado pagam a conta.
O próprio Copom reconhece, em seu comunicado, que a decisão busca conciliar a convergência da inflação com a meta. Também visa promover a suavização das flutuações da atividade econômica e o fomento ao pleno emprego.
Isso significa que o comitê admite, ainda que em linguagem técnica, que os juros altos têm custo social real. Reduzi-los faz parte de uma agenda de responsabilidade com o emprego e a renda.
O cenário internacional, no entanto, complica o horizonte. Os conflitos no Oriente Médio pressionam o preço do petróleo para patamares superiores a 100 dólares por barril. Esse choque externo se transmite diretamente para os combustíveis e, por consequência, para toda a cadeia de preços.
O Copom deixou claro que não sinalizará novos cortes enquanto não houver mais clareza sobre a extensão e os efeitos desse conflito. A incerteza geopolítica serve de freio para uma trajetória de queda que o país precisa urgentemente acelerar.
A Petrobras ainda não anunciou reajustes nos combustíveis, mas a pressão sobre os preços já se faz sentir nas expectativas. A projeção do mercado para a inflação em 2026 já subiu na semana passada.
O choque externo não é apenas uma ameaça futura, mas uma realidade que já contamina as expectativas presentes. Vale lembrar que o sistema de metas de inflação vigente no Brasil estabelece o objetivo em 3% ao ano, com tolerância entre 1,5% e 4,5%.
O Banco Central já foi obrigado a emitir carta pública explicando o estouro da meta. Isso ocorreu após a inflação ficar seis meses consecutivos acima do teto permitido.
A reunião desta quarta-feira ocorreu com dois membros a menos no colegiado. O diretor de Organização do Sistema Financeiro, Renato Gomes, e o diretor de Política Econômica, Diogo Guillen, deixaram seus cargos. O governo ainda não indicou substitutos para as vagas.
A composição incompleta do Copom é um dado relevante em um momento de decisões tão sensíveis para a economia do país. O Banco Central, ao definir a Selic, olha para o futuro e não para a inflação corrente.
As decisões de hoje mirando o terceiro trimestre de 2027 levam de seis a dezoito meses para produzir efeito pleno sobre a economia. Isso significa que o alívio que o corte de hoje pode gerar no crédito e no consumo ainda levará tempo para chegar à mesa do trabalhador.
O governo Lula enfrenta aqui uma contradição estrutural herdada de anos de desmonte econômico. A arquitetura institucional deu ao mercado financeiro poder desproporcional sobre a política monetária.
A autonomia do Banco Central, aprovada no governo anterior, limita a capacidade do Executivo de influenciar diretamente a velocidade do ciclo de cortes. O que está em jogo não é apenas um número.
Cada décimo de ponto percentual na Selic representa bilhões de reais transferidos do Tesouro Nacional, financiado por todos os brasileiros, para os detentores de títulos públicos. Reduzir os juros é, portanto, um ato de justiça distributiva, além de uma medida de política econômica.
O Cafezinho seguirá acompanhando cada reunião do Copom com o olhar voltado para quem trabalha, produz e consome, e não para quem especula. O povo brasileiro merece uma taxa de juros que sirva ao desenvolvimento, e não ao rentismo.


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