Quando o diesel dispara, não sobe só o frete: sobe o risco de carestia, aperto social e trava no crescimento.
O diesel chegou em março a um nível que, em poder de compra do salário médio, recoloca o Brasil diante de um sinal de alerta que lembra os momentos mais tensos antes da paralisação dos caminhoneiros de 2018.
Os dados preliminares indicam que o combustível dos caminhões está mais pesado no bolso do trabalhador justamente quando a economia ainda tenta consolidar a recuperação do consumo.
A guerra no Leste Europeu, iniciada em fevereiro, acelerou de forma brutal uma pressão que já vinha se formando nos mercados globais de energia e transporte.
Em termos relativos, o custo do diesel é agora o maior desde 2012, desconsiderados os picos anômalos da pandemia e do ano passado. O dado mais preocupante, porém, não é apenas o nível, mas a velocidade da alta.
A variação registrada no último trimestre está entre as quatro maiores deste século. Ela só fica atrás de episódios de choque extremo, como outubro de 2023, sob o impacto da guerra em Gaza e dos ataques no Mar Vermelho, e maio de 2022, logo após a invasão russa da Ucrânia.
Esse movimento reforça a percepção de que a instabilidade deixou de ser exceção e passou a ocupar o centro do sistema global de transporte. O diesel, que move a circulação de mercadorias, virou também um termômetro da desordem geopolítica.
Para boa parte da população, o efeito imediato ainda parece distante. Mas o impacto indireto tende a chegar com força à mesa de todo mundo, porque o diesel é a base logística das rodovias que escoam a produção agrícola e abastecem supermercados, feiras e centros de distribuição.
A inflação oficial de alimentos acumulada em 12 meses está zerada, o que representa uma conquista importante da política econômica atual. Ainda assim, o poder de compra do salário médio para alimentos continua abaixo do patamar pré-pandemia, o que mostra como essa melhora ainda é frágil para milhões de famílias.
Se o custo do frete voltar a subir com intensidade, essa estabilidade pode ser revertida em pouco tempo. E, quando isso acontece, o peso recai sobretudo sobre os mais pobres, que sentem primeiro qualquer alta no preço da comida.
O problema, portanto, não se resume ao setor de combustíveis. Trata-se de uma pressão com potencial para contaminar inflação, consumo, humor social e expectativas econômicas ao mesmo tempo.
O fenômeno está longe de ser exclusivamente brasileiro. Governos de várias partes do mundo passaram a demonstrar preocupação não apenas com os preços, mas também com o risco de desabastecimento em cadeias já tensionadas por guerras, rotas inseguras e decisões protecionistas.
Na Ásia, países como China e Índia impõem restrições à exportação de derivados de petróleo. Isso reduz a oferta internacional disponível e amplia a competição entre países importadores, pressionando ainda mais os preços.
Na Europa, a reação tem incluído cortes de impostos e planos para limitar artificialmente os preços nos postos. O objetivo é conter o repasse imediato ao consumidor, mas a própria adoção dessas medidas revela o tamanho do nervosismo diante de uma crise que combina energia, logística e inflação.
O pânico também chegou aos mercados financeiros na semana passada, com altas brutais nas taxas de juros de longo prazo. Quando esse movimento se espalha, ele encarece financiamento, piora expectativas e dificulta a ação de governos e bancos centrais.
No Brasil, os juros futuros deram saltos significativos em duas sextas-feiras seguidas. Na prática, isso reduz a chance de novos cortes na taxa Selic pelo Banco Central e complica o cenário para crédito, investimento e crescimento econômico.
Economistas de grandes bancos internacionais avaliam que apenas três semanas de conflito já foram suficientes para assegurar uma alta da inflação global em 2024. Mesmo que haja cessar-fogo, os danos sobre produção, transporte e cadeias de abastecimento não desaparecem de um dia para o outro.
A reportagem da Folha de S.Paulo informa que o governo brasileiro também está em alerta. Medidas paliativas vêm sendo adotadas, enquanto setores do Palácio do Planalto discutem alternativas emergenciais para evitar que a escalada dos combustíveis se transforme em crise mais ampla.
Entre as hipóteses aventadas, apareceu até a ideia de controle estatal direto sobre produção e distribuição. O simples fato de essa possibilidade entrar na conversa já mostra o grau de tensão provocado por um mercado que, em momentos de choque, deixa de funcionar como promessa de equilíbrio e passa a operar como transmissor de instabilidade.
O problema é que essa saída esbarra na estrutura real do setor. O varejo está nas mãos de grandes redes, e parte importante do parque de refino foi vendida durante os governos Temer e Bolsonaro, o que reduziu a margem de manobra do Estado em uma área estratégica.
O desafio imediato é segurar preços sem produzir um efeito colateral ainda mais grave. Em algumas regiões, segundo o próprio rascunho da crise, já há sinais de desabastecimento, o que torna qualquer intervenção mais delicada e mais urgente ao mesmo tempo.
A crise escancara a vulnerabilidade de um país continental excessivamente dependente do transporte rodoviário. Quando o diesel dispara, o Brasil inteiro sente, porque quase tudo circula por caminhão, do grão ao remédio, da carne ao material de construção.
Nesse contexto, a política de preços da Petrobras, atrelada ao mercado internacional, amplia a exposição do país à volatilidade geopolítica e à especulação financeira. O resultado é um paradoxo conhecido: um grande produtor de petróleo submetido aos humores externos justamente no elo mais sensível da vida cotidiana, que é o custo de transportar bens essenciais.
A saída estrutural não virá de improviso nem de fé cega no mercado. Ela passa por recuperar capacidade nacional de refino e por investir de forma consistente em alternativas como ferrovias e hidrovias, reduzindo a dependência quase absoluta das rodovias.
Enquanto isso não acontece, a pressão social tende a crescer. O fantasma de 2018 volta a rondar o país, não como repetição mecânica, mas em um ambiente mais desgastado, com renda ainda pressionada e margem menor para absorver novos choques.
A alta do diesel funciona, no fim das contas, como um imposto indireto sobre a comida. É uma cobrança imposta pela turbulência internacional e pela lógica financeira, mas paga no caixa do mercado por quem menos pode.
A resposta do governo Lula será, por isso, um teste político e econômico de primeira grandeza. Dela dependerá não só a contenção de uma nova rodada de carestia, mas também a demonstração de que o Estado ainda tem instrumentos para proteger a população da violência dos preços internacionais.
A conta já começou a chegar. E, como quase sempre no Brasil, o destino final dessa cobrança é a mesa do trabalhador.


Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!