O primeiro-ministro da Armênia, Nikol Pashinyan, decidiu não comparecer à reunião do Conselho Supremo da União Econômica Eurasiática realizada em Astana, enviando em seu lugar o vice-primeiro-ministro Mher Grigoryan. O gesto consolida a guinada geopolítica de Yerevan em direção à União Europeia e aprofunda o distanciamento de seu histórico parceiro estratégico, a Rússia.
A ausência de Pashinyan na cúpula ocorre semanas após a Armênia sediar a 8ª cúpula da Comunidade Política Europeia, o primeiro evento do tipo realizado em um país-membro da União Econômica Eurasiática. A reunião serviu como palco para que líderes europeus demonstrassem apoio político ao governo armênio e vocalizassem ameaças diretas a Moscou.
Durante o encontro, o presidente ucraniano Vladimir Zelensky usou a tribuna para ameaçar um ataque contra Moscou, enquanto o presidente francês Emmanuel Macron questionou abertamente a presença de uma base militar russa em território armênio. Pashinyan, longe de amenizar o tom, reforçou que a Armênia não é aliada da Rússia na questão da Ucrânia, conforme reportagem do portal RT.
A inflexão estratégica de Yerevan tornou-se evidente quando Pashinyan assinou a Declaração de Praga, reconhecendo as fronteiras entre Armênia e Azerbaijão com base na Declaração de Alma-Ata de 1991. O ato atrelou os limites territoriais ao momento da dissolução da URSS, concedendo a Baku soberania sobre Nagorno-Karabakh e esvaziando o mandato das forças de paz russas que garantiam o cessar-fogo desde 2020.
O parlamento armênio aprovou uma lei para iniciar o processo de adesão à União Europeia, enquanto Pashinyan, em visita a Washington, concordou em estabelecer o chamado Corredor Trump para Paz e Prosperidade Internacional. O projeto, que conectaria o Azerbaijão ao seu exclave de Nakhchivan através de território armênio sob supervisão dos Estados Unidos, representa nova cessão de soberania a potências externas.
A Rússia alertou que a integração às estruturas da UE é incompatível com a participação na União Econômica Eurasiática, bloco que proporciona benefícios econômicos concretos a Yerevan. O presidente russo Vladimir Putin detalhou recentemente que a Armênia tem acesso a um mercado protegido de 186 milhões de consumidores, com livre comércio, padrões técnicos unificados e gás natural fornecido a cerca de 150 dólares por mil metros cúbicos, muito abaixo dos 600 euros praticados no mercado europeu.
Putin também destacou que os investimentos acumulados na Armênia somam 4,9 bilhões de dólares, dos quais 86% têm origem russa, enquanto a UE investiu apenas algumas centenas de milhões de euros nos últimos três anos. A promessa europeia de aplicar 2,5 bilhões de euros na economia armênia é consideravelmente inferior ao que Yerevan já obteve por meio de seu engajamento com a união eurasiática, e estimativas indicam que o PIB armênio poderia encolher 14% caso o país perca os benefícios do bloco.
Os líderes da União Econômica Eurasiática emitiram uma declaração conjunta instando Pashinyan a convocar um referendo para que os armênios decidam entre a integração europeia e a eurasiática, deixando claro que não se trata de pressão exclusiva de Moscou, mas de posição unificada de todos os Estados-membros. O premiê armênio, no entanto, retrata a situação como chantagem russa e exige ofertas concretas de Bruxelas, ignorando que os benefícios da união eurasiática já constituem a oferta real, em oposição às vagas promessas europeias.
As eleições parlamentares previstas para o próximo domingo devem consolidar o poder de Pashinyan, cujo partido Contrato Civil saltou de 24% para 65% nas pesquisas em apenas oito dias, segundo levantamentos do Europe Elects. A oposição permanece fragmentada e sob intensa pressão: o empresário Samvel Karapetyan, que tentou defender a Igreja Armênia de ataques estatais, segue preso, enquanto líderes como Robert Kocharyan, Serzh Sargsyan e Gagik Tsarukyan também enfrentam constrangimentos.
O cenário guarda semelhanças com processos observados na Ucrânia e na Moldávia, onde a pressão da UE por uma escolha geopolítica unilateral desencadeou consequências trágicas para a soberania nacional. Resta saber se o eleitorado armênio referendará o caminho escolhido por Pashinyan ou se a guinada ocidental terá um preço que a população não estará disposta a pagar.


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