O pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, recorreu neste sábado a um dos símbolos mais marcantes da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002. ‘A esperança vai vencer o medo este ano’, declarou o senador ao finalizar discurso em evento de lançamento da pré-candidatura de André do Prado ao Senado por São Paulo.
A frase não apareceu por acaso. Atrás nas pesquisas e com a imagem desgastada depois que vieram a público seus pedidos de dinheiro a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar o filme Dark Horse — uma cinebiografia sobre Jair Bolsonaro —, Flávio tenta se colar a um repertório que sempre rejeitou: o do lulismo. Segundo reportagem do Metrópoles, o slogan também dialoga com o projeto ‘Brasil Sem Medo’, que o senador lançou na área de segurança pública, mas a sobreposição com a frase de Lula é explícita demais para ser acidental.
A apropriação do discurso alheio não é episódio isolado. Há uma semana, o filho do ex-presidente defendeu o Bolsa Família — programa criado pelo presidente Lula e que Jair Bolsonaro tentou desidratar com o Auxílio Brasil —, classificando-o como ‘direito adquirido’ que ninguém pode ‘tocar’. Durante o evento deste sábado, Flávio foi além: prometeu fazer o que Lula não conseguiu, acabar com a fome. A declaração soa cínica quando se lembra que o governo Bolsonaro tirou o Brasil do mapa da fome da ONU em 2022, após o país ter saído da lista durante os governos do PT.
A montagem do palanque, no entanto, revela a contradição insolúvel dessa operação estética. No mesmo discurso em que vestia a fantasia de defensor dos pobres, Flávio atacou Lula com acusações graves. Disse que o presidente foi aos Estados Unidos ‘fazer lobby a favor de um Comando Vermelho e do PCC’ — referência à classificação das facções como narcoterroristas pelo governo americano, bandeira que o senador tenta explorar. Citou ainda o filho do presidente, Fábio Luis Lula da Silva, afirmando que recebeu ‘mesada do Careca do INSS’, e o irmão Frei Chico, vice-presidente de um sindicato mencionado no escândalo da Farra do INSS.
O senador vestia uma camisa da Seleção Brasileira de Neymar dias depois de Lula ironizar o atacante como ‘o primeiro convocado home office do mundo. Jogador home office.’ A indumentária, como o slogan, é tentativa de ocupar um território simbólico que o bolsonarismo nunca teve: o do povo, do futebol, da esperança.
Flávio Bolsonaro não está se aproximando do lulismo. Está tentando sequestrar seus significantes sem pagar o preço político de defender suas políticas. É um truque de marketing que expõe o tamanho do vazio programático de uma campanha que, sem ter o que oferecer, precisa tomar emprestado do inimigo aquilo que nunca conseguiu construir.


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