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Lula cita Sérgio Cabral e sinaliza aliança com velha política fluminense por apoio em 2026

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma escolha simbólica de alto impacto político durante cerimônia no Rio de Janeiro nesta segunda-feira, 22 de…

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Imagem editorial de apoio sobre institucional.
Imagem editorial de apoio. Foto: Dasfour2022.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma escolha simbólica de alto impacto político durante cerimônia no Rio de Janeiro nesta segunda-feira, 22 de junho. Ao defender o apoio do governo federal ao estado, Lula citou nominalmente o ex-governador Sérgio Cabral, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro, como exemplo de parceria institucional bem-sucedida. A declaração, feita durante a formalização da adesão do Rio ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados, o Propag, foi registrada pelo Poder360 e expõe o pragmatismo que marca a estratégia eleitoral do petista para 2026.

Dirigindo-se ao governador em exercício Ricardo Couto, do Solidariedade, Lula foi explícito: ‘Foi feito assim com o Sérgio Cabral, foi feito assim com a prefeitura do Rio de Janeiro e será feito com o senhor’. A frase foi dita diante de uma plateia de autoridades e sela, na prática, um aceno ao establishment político fluminense que controla o estado há décadas, independentemente de coloração partidária. O recado é claro: o governo federal está disposto a ignorar biografias comprometidas em troca de sustentação política e palanque no segundo maior colégio eleitoral do país.

A citação de Sérgio Cabral não é um detalhe retórico. O ex-governador do MDB, que comandou o Rio entre 2007 e 2014, foi preso em 2016 e condenado a mais de 300 anos de prisão por corrupção, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Cabral tornou-se o rosto da cleptocracia fluminense, acusado de chefiar um esquema que desviou centenas de milhões de reais dos cofres públicos. Ao naturalizar seu nome em um evento oficial, Lula envia um sinal inequívoco de que as alianças regionais falam mais alto do que qualquer compromisso com a pauta anticorrupção que o PT historicamente reivindicou.

O contexto da cerimônia ajuda a entender a dimensão da manobra. O Propag, instituído pela Lei Complementar Federal nº 212/2025, substitui o Regime de Recuperação Fiscal e oferece aos estados endividados condições mais vantajosas para renegociar seus passivos com a União. Para o Rio de Janeiro, que carrega uma dívida de aproximadamente R$ 193 bilhões com o governo federal, a adesão significa uma redução de cerca de R$ 40 bilhões do saldo devedor. As parcelas mensais pagas pelo estado cairão de uma média de R$ 436 milhões para aproximadamente R$ 119 milhões nos primeiros anos, liberando recursos para investimentos em saúde, educação e segurança pública.

A operação política que viabilizou o Propag para o Rio envolveu intensa articulação entre o Palácio do Planalto e a Assembleia Legislativa fluminense, que aprovou o Projeto de Lei 6.932/25 autorizando a adesão. Também foi necessária a derrubada de vetos presidenciais no Congresso Nacional para que as condições mais benéficas do programa alcançassem estados altamente endividados. O governador interino Ricardo Couto, que assumiu o cargo após a renúncia de Cláudio Castro, foi o destinatário direto dos elogios presidenciais e da comparação com Cabral.

Ricardo Couto é um quadro típico da política fluminense. Oriundo do Solidariedade, partido que integra a base aliada do governo Lula, ele representa a continuidade de uma elite política que transita entre diferentes governos sem rupturas significativas. A comparação com Sérgio Cabral, longe de ser um deslize, funciona como uma senha para essa elite: o Palácio do Planalto está aberto a negócios, desde que haja reciprocidade eleitoral.

A estratégia de Lula para o Rio de Janeiro é compreensível do ponto de vista eleitoral. O estado é o segundo maior colégio eleitoral do Brasil, com mais de 13 milhões de eleitores, e historicamente impõe dificuldades ao PT. Nas eleições presidenciais de 2022, Lula venceu no Rio com 56% dos votos válidos contra 44% de Jair Bolsonaro, mas o bolsonarismo mantém forte capilaridade no estado. Para 2026, garantir um palanque sólido no Rio é condição essencial para qualquer projeto de reeleição, e isso exige pactos com forças políticas locais que nem sempre se alinham ao discurso progressista do partido.

O problema é o preço desse pragmatismo. Ao normalizar Sérgio Cabral em um evento oficial, Lula reabilita simbolicamente um nome que representa tudo o que a esquerda brasileira já denunciou sobre a degradação da política fluminense. Cabral não foi apenas um governante corrupto: ele simbolizou um modelo de governança baseado em propinas, contratos superfaturados e parcerias obscuras entre o setor público e empreiteiras. Sua menção pelo presidente não é um lapso de memória, mas um cálculo político que sinaliza anistia moral para velhos aliados.

Há também um elemento de contradição interna no discurso petista. O partido que se apresentou como alternativa ética à política tradicional agora recorre aos mesmos métodos de conchavo que criticou por décadas. No Rio de Janeiro, essa contradição é particularmente aguda porque o estado se tornou o epicentro de escândalos que alimentaram a retórica antipetista durante os anos de Lava Jato. A estratégia pode render votos, mas cobra um preço alto em termos de coerência programática.

A resposta de setores progressistas do Rio deve ser de cobrança e vigilância. O apoio do governo federal ao estado é bem-vindo, especialmente no que diz respeito ao alívio da dívida e à liberação de recursos para políticas públicas. O que não se pode aceitar é que essa parceria venha acompanhada de um salvo-conduto para a velha política de compadrio que arruinou as finanças fluminenses e aprofundou a desigualdade social. O Rio precisa de recursos, mas também de uma profunda renovação política que a menção a Cabral contradiz frontalmente.

O episódio revela, em última análise, os dilemas de um governo que tenta conciliar compromissos históricos com a esquerda e a necessidade de ampliar sua base de sustentação. Lula parece apostar que o eleitorado fluminense relevará os nomes mencionados em troca dos benefícios concretos do Propag. Resta saber se essa aposta se confirmará nas urnas em 2026 ou se o abraço à velha política cobrará um preço mais alto do que o presidente calcula.

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