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A fleuma do Estadão

Por Miguel do Rosário

04 de janeiro de 2012 : 10h43

Uma das promessas de Ano Novo feitas a mim mesmo é ser mais isento em minhas análises. Quer dizer, não acredito muito no conceito de isenção, mas aprendi a apreciar o esforço neste sentido. É uma questão quase estética, na acepção positiva do termo. No fundo, o jornalista e seus leitores sabem muito bem, ou tem uma séria e fundamentada desconfiança, dos fumos políticos e ideológicos por trás de um editorial ou mesmo de uma supostamente neutra matéria jornalística. Entretanto, se o texto é bem escrito e apresenta uma argumentação consistente, o leitor o respeita, mesmo que não concorde ou sinta-se incomodado. Os fatos e raciocínios lidos serão, ainda que à revelia, introjetados em seu espírito.

É uma questão curiosa e delicada. Ao mesmo tempo em que aprecia essa aparência de isenção, o leitor parece entediar-se mortalmente quando nota que ela é autêntica. Não porque seja um leitor hipócrita, mas porque a isenção total indica um texto sem vida. Um cadáver, de fato, não tem partido ou ideologia.

Pensei nisso ao ler um dos editoriais do Estadão de hoje. É um texto fleumático, enfadonho, apesar de tratar de um assunto extremamente relevante.

Segundo o Estadão, o governo de São Paulo aumentou, através de uma portaria válida a partir do início deste ano, o imposto sobre 76 produtos eletrodomésticos e eletrônicos, incluindo aí a chamada linha branca, como fogões e geladeiras. Reproduzo a abertura do texto:

Por simples ato administrativo, o governo do Estado de São Paulo aumentou a tributação sobre 76 produtos eletrodomésticos e eletrônicos, num período em que, para estimular o consumo, o governo federal reduziu o imposto sobre esses mesmos produtos.

É um editorial morto, porém. Não vem acompanhado de uma cobertura jornalística, com entrevistas, fotos, infográficos e estatísticas. Não tem adjetivos, não se posiciona de maneira firme, assertiva. É um lamento tímido e submisso a um ato político particularmente infame, porque prejudica setores estratégicos, e precisamente num momento em que eles mais precisariam de estímulo.

Eu tenho uma trajetória como blogueiro de esquerda, mas sempre me posicionei contra o aumento da carga tributária, possivelmente porque também sempre fui micro-empresário e conheço na carne a voracidade do Leão e o estrago que ela pode causar em nossos sonhos.

Todavia pago meus impostos sem me lamuriar muito, pois também sou contra uma queda excessiva da carga. Para mim, deveria ficar mais ou menos como está hoje, em torno dos 35%, mas procurando sempre aliviar a barra dos pequenos, dos inovadores, da classe média.

Temos um país caro, com oito milhões de quilômetros quadrados, que ainda está por construir uma infra-estrutura decente, então precisamos dos impostos. A maneira pela qual a imprensa noticia o aumento da arrecadação fiscal, aliás, é criminosa do ponto-de-vista do interesse nacional, porque este é um aumento que deve ser festejado, visto que indica solidez das instituições e poder de fogo para, enfim, realizar as reformas necessárias, não apenas na infra-estrutura física, mas também na infra-estrutura social, por assim dizer, através de melhorias no campo da saúde e educação.

Entretanto, o que fez o governo tucano – aumentar a carga tributária de fogão e geladeira, um dos poucos itens em que temos uma indústria competitiva, pujante e em crescimento, justamente no momento em que o governo federal reduz os impostos sobre os mesmos produtos – constitui um atentado revoltante e insano ao desenvolvimento nacional, ainda mais se considerarmos que o grosso da produção industrial brasileira se encontra em São Paulo.

Por isso, é também revoltante que o Estadão trate o tema com tamanha fleuma, o que, neste caso, corresponde a uma postura condescendente, ou mesmo negligente. Com o poder midiático que possui, o Estadão poderia transformar o caso num escândalo político: como é possível que justamente o governo que representa a oposição de centro-direita, e que, portanto, deveria defender a redução dos impostos, aja exatamente em sentido contrário? Como é possível que, num momento delicado de nossa indústria, baixe uma portaria que, na prática, aumente a carga tributária dos segmentos mais importantes (e o que é pior, mais sensíveis do ponto-de-vista da economia social, pois fogão e geladeira não são exatamente artigos de luxo) da economia brasileira?

Não é hora de fleuma! Não é hora de falsa isenção! O PSDB fez a mesma coisa em 2008. Em plena crise financeira mundial, quando uma grande apreensão tomava conta do país, o governador José Serra aumentou a carga tributária de vários produtos industriais, exatamente no mesmo momento em que o governo federal reduzia impostos para estimular a economia.

Eu tenho questionado a tese da desindustrialização porque entendo que há exagero, lobby e manipulação das notícias. Jamais neguei, porém, que nossas indústrias têm sofrido duramente com o dumping cambial chinês, principal problema hoje de vários setores. Diferentemente da atividade agrícola ou mineral, onde o Brasil goza de enorme vantagem competitiva, a indústria é um setor onde não temos vantagem nenhuma em termos de comércio exterior. Ao contrário, o câmbio tem sido bastante desfavorável à inserção dos manufaturados brasileiros no mercado internacional. Nosso trunfo é um mercado doméstico vigoroso, que tem crescido firmemente ano a ano, e o desempenho de alguns poucos setores, como o de fogão e geladeiras, atingidos pelo aumento de impostos do governo tucano.

Não é um aumento marginal. Segundo o Estadão, o aumento médio será de 20%. Francamente, não dá para entender porque o jornal, sempre tão duro e adjetivo em sua defesa pela redução da carga tributária, resolveu tratar o tema com tanta resignação e falta de energia. Igualmente é difícil entender porque a Folha ou Globo sequer se pronunciaram sobre o assunto. Com apoio da mídia, o PSDB lutou bravamente para eliminar a CPMF, imposto que corresponderia a menos de 0,1% sobre uma operação financeira, seria dirigido inteiramente à saúde pública e tinha grande utilidade no combate ao crime organizado. E agora, na maior cara de pau, e igualmente com apoio da mídia (através de seu silêncio ou postura fleumática), aumenta em mais de 20% o imposto para fogão, geladeira e dezenas de produtos elétricos e eletrônicos! Onde está a coerência?

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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2 comentários

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elson

05 de janeiro de 2012 às 06h24

Essa é a maneira tucana de combater a guerra fiscal , vende as ferrovias (desfazendo-se de uma infra-estrutura vital ) e os bancos do Estado ( entregando a iniciativa privada suas ferramentas de estímulo ao consumo e produção) , privatiza as rodovias encarecendo o preço de seus produtos e depois ainda aumenta o imposto sobre mercadorias que são itens nescessários aos mais pobres . Depois essa turma ainda vem reclamar que o nordeste está levando embora suas industrias .

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Miguel Oliveira

04 de janeiro de 2012 às 10h59

Não tem nada difícil de entender. Está mais do que claro que o PSDB e sua mídia corrupta querem mais é que o Brasi e o povo brasileiro se f…, ou melhor, se danem, para colocarem a culpa no PT, como sempre fazem.

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