Análise em vídeo das manifestações do 2 de outubro e as vaias a Ciro

A nova classe média

Por Miguel do Rosário

23 de janeiro de 2012 : 01h54

O Cafezinho ficou meio lento nos últimos dias. Mas acompanhei tudo que se publicou por aí. Gostei particularmente desse post do Nelson de Sá, onde se discute um pouco os valores da “nova classe média”.

22/01/2012

João Santana e a nova classe média

Na edição de hoje, publico “Nova classe média não é garantia de moderação política”, ouvindo os cientistas políticos André Singer, ex-porta-voz de Lula, e Antônio Lavareda, ex-marqueteiro de FHC, além de João Santana, marqueteiro de Dilma Rousseff, do presidente de El Salvador e, este ano, do favorito para presidente da República Dominicana. Perguntas e respostas de Santana:

Na pesquisa Datafolha, todas as classes, inclusive as novas classes médias, dizem viver melhor do que seus pais. Qual é o reflexo disso na política? Uma “pax social”, com menos polarização?

Ao contrário. Todo movimento de ascensão social provoca a liberação de uma forte descarga de energia política. A tendência de quem está subindo, de quem está melhorando de vida, é querer subir cada vez mais. Isso pode gerar desequilíbrios muito interessantes dos pontos de vista político, social e cultural. Na verdade, em qualquer tipo de sociedade, há dois momentos fortemente imprevisíveis, de riqueza política e social única: seja quando ocorre uma forte ascensão social ou quando ocorre um forte descenso. É nesses momentos que surgem grandes mudanças políticas. Para ficar só no fenômeno que nos interessa, o da ascensão social, vale lembrar que o indivíduo que está ascendendo leva, dentro de si, quatro tipos de sentimentos primários, que convivem simultaneamente. Um de gratificação e alegria porque está melhorando de vida; outro de medo de perder a súbita conquista e cair, retornando para sua condição anterior (ou até para outra pior); um desejo de imitar, mimetizar, macaquear o novo grupo social que está integrando; e uma disposição consciente _e inconsciente_ de se libertar, na forma e no conteúdo, de traços culturais, gostos e atitudes do espaço social que ocupava anteriormente. Como dá para perceber, qualquer tipo de “nova classe média” tem uma cabeça complexa e cheia de nuances. Um verdadeiro turbilhão. É preciso, portanto, muito cuidado para desvendar os seus mistérios.

Como os partidos devem adaptar sua estratégia diante da ascensão das novas classes médias? Os eleitores passam a ser mais conservadores, em suas prioridades e valores?

O que distingue um partido vivo e em movimento, de um outro estagnado e quase morto, é justamente a capacidade de entender, de se adaptar, de acompanhar e, também, de provocar as mudanças sociais. Trata-se de análise incompleta e superficial dizer que as novas classes médias têm uma tendência de ser mais conservadoras em seus valores. Elas são, sim, mais pragmáticas, mais plásticas e adaptativas. Mas podem ser, igualmente, mais rebeldes e progressistas. Acho que as principais lideranças petistas estão muito atentas para esse fenômeno. O PT é o partido mais identificado com essas novas classes médias. Por sinal, foi sua política de governo que ajudou a acelerar esse processo e ele é o partido mais apto a ser desaguadouro dessa nova torrente. Uma coisa importante é despertar o gosto para a política dos setores em ascensão. É a linha do programa de rádio e TV e dos comerciais que foram ao ar [em dezembro].

Candidatos de maior apelo às classes médias, como Dilma Rousseff e Fernando Haddad, já seriam um reflexo da mudança?

Sim, mas o presidente Lula também. Não por acaso, Lula foi o deflagrador desse processo. Ele tanto ampliou a sua base social de apoio, trafegando da classe média urbana para as camadas mais populares, como fez essa travessia junto com sua base social, no sentido contrário. Estimulou e acompanhou esse movimento de ascensão social. A presidenta Dilma e o ministro Haddad, cada um à sua maneira, fazem parte desse processo. Assim como Lula tem uma trajetória única e quase épica, Dilma está fazendo um percurso surpreendente e espetacular. Haddad também promete muito e o cenário social é bastante favorável para ele.

Como é o fenômeno no Nordeste?

O Nordeste é hoje tão urbanizado como as outras regiões. Esse dado aproxima suas novas classes médias daquelas de outras regiões. Mas há um fato muito interessante: apesar de ainda continuar muito mais pobre do que o Sudeste e o Sul, foi no Nordeste que, nos últimos anos, essa ascensão social ocorreu de forma mais rápida. Esse salto histórico, depois de anos e anos de estagnação, já trouxe e vai trazer reflexos políticos. Acho, mais uma vez, que se o PT não der bobeira continuará sendo o mais beneficiado por essas mudanças na região.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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