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Os bons números do comércio exterior brasileiro

Por Miguel do Rosário

03 de fevereiro de 2012 : 11h36

Hoje eu li a seguinte nota na capa do Estadão:

 

Ela  me serviu de mote para uma análise atualizada da performance das exportações brasileiras. Concordo com o Estadão que o Brasil não deve fazer retaliação nenhuma contra o México, se é que é isso mesmo que o governo está pretendendo fazer. Negociar, tudo bem. Não aprovo, porém, medidas protecionistas. Quanto ao câmbio, sou a favor da liberdade desde que li Formação Econômica, do Celso Furtado. Durante décadas, o governo brasileiro manipulou o câmbio em favor das elites exportadoras, em detrimento dos trabalhadores e dos setores voltados ao consumo doméstico. A pressão continua até hoje.

Falar, porém, que as exportações brasileiras tiveram um “fraco desempenho” em janeiro deste ano é um absurdo. As exportações brasileiras em janeiro totalizaram 16,1 bilhões de dólares, um recorde para o mês de janeiro, com alta de 1,3% sobre janeiro do ano anterior. O aumento sobre o ano passado se deu graças ao aumento das exportações de manufaturados e semimanufaturados, que subiram 0,1% e 2,5%, respectivamente, já que as vendas de produtos básicos descresceram 0,7%.

Como é possível, diante de números recordes, e ainda por cima, com maior participação dos industrializados, falar em “desempenho fraco”?

Os jornais deram destaque somente ao déficit da balança comercial em janeiro, que foi de 1,3 bilhão de dólares. Na verdade, a mídia brasileira ainda reflete um sentimento colonizado de que importar é ruim. Só a exportação é boa. Esse preconceito, que às vezes contamina inclusive mentes “progressistas”, esquece que a melhora do poder aquisitivo da população e do faturamento das empresas implicam, necessariamente, em aumento das importações.

O que os jornais omitiram, no entanto, é que no acumulado de 12 meses Fev/Jan 2012, o saldo da balança comercial brasileira cresceu 36% sobre o período anterior, atingindo 28,10 bilhões de dólares!

A importação brasileira, por sua vez, foi impulsionada sobretudo pelo aumento de 55% na importação de combustível. Considerando somente o petróleo, as importações cresceram 70% em janeiro. O Brasil importou 2,6 bilhões de dólares em combustível em 2012, o que revela algumas coisas:

  • O pré-sal tem de começar a produzir logo, para atingirmos a autonomia em petróleo de uma vez por todas.  Sabe-se que o petróleo do pós-sal é grosso, de difícil refino, obrigando-nos a importar um material de melhor qualidade. O aumento da frota de automóveis, ônibus e motos no país e o próprio crescimento da economia brasileira estão produzindo forte crescimento da demanda por combustível fóssil. Problemas na safra de cana-de-açúcar, que elevaram o preço do álcool e do biodiesel, pressionaram a demanda por gasolina, aumentando a importação.
  • As importações de bens de capital totalizaram 3,7 bilhões de dólares em janeiro, aumento de 5% sobre o ano anterior. São máquinas e equipamentos que nossa indústria está importando para aumentar a sua produção.
  • Os dois itens que mais pesaram na importação brasileira foram 1) produtos químicos e farmacêuticos, cuja importação totalizou 2,12 bilhões de dólares em janeiro, aumento de 18% sobre o ano anterior; e 2) máquinas industriais, 1,3 bilhão de dólares, aumento de 10%
  • Os brasileiros, com mais dinheiro no bolso, estão comprando mais remédios e de melhor qualidade, importados.
  • As indústrias estão importando mais máquinas, preparando-se para ampliar sua produção.

 

Na tabela abaixo, podemos visualizar um pouco da história do comércio exterior brasileiro.  De fato, as exportações de manufaturados perderam participação na balança comercial brasileira, sobretudo a partir da virada do século. Isso não significou, contudo, queda nas exportações dos manufaturados, mas corresponde antes à explosão na quantidade e no valor da exportação de commodities. As exportações brasileiras de manufaturados crescem de 32 bilhões de dólares, no ano 2000, para 92 bilhões de dólares em 2011. Acontece que as exportações de básicos passaram de 12 bilhões a 122 bilhões de dólares entre 2000 e 2011! Uma comparação assim é covardia. Um aumento de tal escala na exportação de básicos só seria possível num país como o Brasil, que possui reservas inimagináveis em minérios e terras agricultáveis.

 

Em janeiro deste ano, tivemos crescimento nas exportações dos seguintes manufaturados: automóveis de passageiros (+75,1%, para US$ 255 milhões), veículos de carga (+70,3%, para US$ 132 milhões), máquinas e aparelhos para terraplanagem (+32,8%, para US$ 185 milhões), polímeros plásticos (+24,4%, para US$ 189 milhões), óleos combustíveis (+21,2%, para US$ 372 milhões), aviões (+17,7%, para US$ 148 milhões), pneumáticos (+11,9%, para US$ 136 milhões), bombas e compressores (+4,5%, para US$ 115 milhões) e motores para veículos e partes (+3,6%, para US$ 203 milhões).

Veja o histórico das exportações brasileiras para o mês de janeiro:

 

 

Temos de observar ainda o seguinte gráfico, que traz a corrente de comércio, ou seja, a soma de exportação e importação:

 

 

Ambos mostram números recordes em janeiro, de maneira que não tem sentido falarmos em “desempenho fraco”.

Gostaria de finalizar, porém, com um tom menos ufanista. No editorial do Estadão de hoje, que tem um título criativo (“México, déficit e vudu”), cita-se um estudo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), que traz, em detalhe, o déficit para cada setor da indústria. Examinei-o e publico abaixo a tabela principal, devidamente simplificada. Os números mostram, de fato, um aumento muito grande do déficit em vários setores, sobretudo de alta e média tecnologia. Entendo, porém, que esse era um processo inevitável, na medida em que o desenvolvimento da indústria brasileira se dá num ritmo necessariamente bem mais lento do que o aumento do poder aquisitivo de trabalhadores e empresas. Na medida em que os grandes projetos industriais que estão sendo implantados no Brasil (e isso não é invenção minha: há grandes projetos em estado de implementação) forem ficando prontos, esses déficits podem se estabilizar ou mesmo cair. Não sejamos ingênuos, todavia. As energias do Brasil estão focadas, e estarão focadas por muito tempo, na industrialização de seus infinitos recursos naturais. Ser um país rico em minérios e terras agricultáveis é uma fatalidade a que o Brasil não poderá fugir. O que devemos fazer, neste sentido, é vender esses produtos já devidamente industrializados, em vez de exportá-los verdes e crus.  A mesma tabela do Iedi mostra que isso já está acontecendo. O saldo da indústria de baixa tecnologia atingiu um valor positivo de 42 bilhões de dólares em 2011, puxado sobretudo pelo setor de alimentos e bebidas.

Conclusão: não vamos chorar de barriga cheia. O Brasil está exportando cada vez mais, inclusive manufaturados, e o saldo comercial ficou em 28 bilhões de dólares nos últimos 12 meses (até janeiro). O problema do Brasil continua sendo 1) sistemas de saúde e educação precários e ineficientes; infra-estrutura lamentável: não temos ferrovias e as estradas são ruins. Em vez de ficarmos nos lamuriando contra o dólar ou contra problemas na indústria, deveríamos focar nesses problemas, que são a origem de todos os outros, incluindo a explosão inflacionária dos serviços. Se o governo agir neste sentido, em vez de se deixar seduzir pelo canto da sereia dos lobbistas da indústria, seremos um grande país no futuro, com indústrias saudáveis, criativas e independentes, desemprego baixo e um povo feliz.

 

 

A ilustração da capa é uma pintura de Zé Veras, artista plástico do Rio de Janeiro, e meu amigo.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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1 comentário

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Adriana

23 de fevereiro de 2012 às 16h53

Gostei muito desse site!

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