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Com Serra, o PSDB só tem a perder

Por Miguel do Rosário

23 de março de 2012 : 23h09

Por Alberto Carlos Almeida | De São Paulo, no Valor (Via Nassif)

Caso Serra seja o escolhido nas prévias do PSDB para concorrer à Prefeitura de São Paulo, será também escolhido o mais novo lema do partido: em time que está perdendo não se mexe. A pior forma de solidão é a companhia de José Serra. É por isso que o PSDB está na iminência de cometer mais um erro político: escolhê-lo como candidato a prefeito de São Paulo. O candidato derrotado por Dilma Rousseff de maneira acachapante não prima por ser um homem partidário. Não custa lembrar o que ele fez na última eleição para prefeito de São Paulo: apoiou um candidato de outro partido, Gilberto Kassab, fazendo tudo para que Geraldo Alckmin, o candidato do PSDB, fosse derrotado.

É impressionante que haja tucanos dispostos a apoiar um político que fez isso. Aliás, trata-se de um comportamento inimaginável no PT. Se Geraldo Alckmin não tivesse sido candidato a prefeito em 2008, contra a vontade de Serra, provavelmente ele não seria hoje o governador de São Paulo. É preciso sublinhar a gravidade desse comportamento e chamar a atenção para o fato de Serra ter traído os interesses de seu partido em 2008. Vale repetir: ele não apoiou o candidato de seu partido na última eleição para prefeito, ele apoiou um candidato de outro partido, de um concorrente do PSDB. Não se tratou de algo sem consequências para o PSDB. Isso contribuiu para que o partido perdesse votos e densidade política.

omportamentos antipartidários não param aí. Enquanto exerceu o cargo de prefeito e de governador, houve muito pouco espaço para importantes deputados federais do PSDB de São Paulo que hoje fazem um excelente trabalho como secretários de Estado de Alckmin. Tais secretários são homens partidários de primeira qualidade que foram colocados quase inteiramente de lado no período em que Serra governou São Paulo.
A falta de compromisso do candidato derrotado com seu partido tem como um dos maiores símbolos as suas campanhas eleitorais para presidente. Serra jamais defendeu o que foi realizado por Fernando Henrique Cardoso. A propósito, a importância política que Serra passou a ter no cenário nacional deve muito a FHC. Não tivesse ele sido ministro da Saúde, dificilmente teria alcançado o “recall” que possibilitou sua primeira candidatura a presidente em 2002. Porém, Serra não se sente devedor de ninguém, nem mesmo de um ex-presidente. Nas campanhas eleitorais de 2002 e de 2010, ele ignorou solenemente tudo o que foi feito quando o Brasil foi governado pelo PSDB. O ponto culminante desse comportamento antipartidário foi quando Serra colocou em sua propaganda eleitoral de 2010 ninguém menos do que Lula.

Aliás, a campanha de 2010 foi absolutamente sofrível. O candidato derrotado não permitiu que seu partido tivesse nenhum controle sobre a propaganda; ele tomou sozinho todas as decisões importantes. Justamente por isso ele negou ser um tucano. Ele não fez uma campanha para presidente, mas para prefeito de cidade pequena. Não falou de grandes temas como o consumo da população pobre, mas somente de questões provincianas, tais como mutirões de cirurgia de próstata, varizes e cataratas, dois professores por sala de aula, 400 quilômetros de metrô nas principais capitais, multiplicação de Fatecs pelo Brasil afora, enfim, um rosário interminável de questiúnculas irrelevantes para o eleitor médio. Não por acaso foi humilhado por Dilma nas urnas. Quando tratou do tema das privatizações, Serra acusou o PT de ser privatista, ou seja, ele negou de forma veemente ser favorável a algo que foi muito importante no governo de FHC.

Serra é tão desagregador que a simples colocação de seu nome como pré-candidato já resulta em uma importante cizânia interna. No último fim de semana foi amplamente noticiada pela mídia uma discussão pública entre o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, e o senador Aloysio Nunes. O motivo do conflito público, obviamente, gravitava em torno de Serra. A natureza desagregadora de Serra é amplamente conhecida no meio político. Na famosa entrevista que FHC deu a “The Economist” em janeiro, o ex-presidente chamou a atenção para o fato de que não foi possível sequer unir todo o partido em torno de Serra em 2010. Se isso acontecer novamente nas eleições para prefeito de São Paulo, será mais uma prova da dificuldade que os tucanos têm de aprender com os próprios erros.

O comportamento político recente de Serra mostra que ele não é confiável para o PSDB. Assim, caso o PSDB o escolha candidato a prefeito em 2012, estará optando por perder a eleição qualquer que seja o resultado dela. É uma obviedade que, se o candidato Serra perder, se tratará de mais uma derrota para os tucanos. Porém, se Serra for eleito, também será uma derrota. Uma vez na prefeitura e diante da eleição para governador de Estado em 2014, caso Kassab seja candidato enfrentando Alckmin, o prefeito da capital vai apoiar Kassab. Ele já fez isso uma vez, o que torna mais fácil ainda fazer uma segunda vez. Ainda mais quando se sabe que a entrada de Serra no páreo das prévias em muito deve aos movimentos políticos de Kassab.

Caso Kassab seja candidato em 2014 e Serra o apoie, a tarefa de Geraldo Alckmin rumo à reeleição será muito mais arriscada. Kassab, diferentemente do PT, disputa o mesmo eleitorado de Alckmin. Isso está mais do que provado pelo resultado eleitoral da última eleição para prefeito na capital paulista. Kassab, junto com Serra em 2014, vai tirar votos do atual governador fazendo com que a eleição ocorra entre três candidatos competitivos e não somente dois, como seria o caso de uma disputa entre o PT e o PSDB. É exatamente por isso que Kassab quer muito que Serra se torne prefeito de São Paulo.

Adicionalmente, Serra já declarou que o sonho dele de se candidatar a presidente está adormecido. O que está adormecido pode acordar a qualquer momento, basta um despertador com um som alto o suficiente. Serra prefeito será uma pedra no sapato de Aécio Neves. Enganam-se os que acham que Serra é controlável e, uma vez na prefeitura, ele vai apoiar de maneira decidida e inquestionável Aécio. É mais fácil acreditar na existência de Papai Noel. Serra fará com Aécio no futuro o que fez com Fernando Henrique no passado: não o defenderá. Serra vai agir politicamente para prejudicar ao máximo Aécio.

A eventual escolha de Serra para ser o candidato do PSDB estará mais baseada no medo de perder as eleições do que na disposição de se renovar e dar ares novos para o partido. O PT tem se renovado e o PSDB não. Pode-se dizer tudo de Dilma, menos que ela não é renovação. Lula escolheu uma pessoa que nunca tinha disputado uma eleição, mais renovação é impossível. O mesmo está ocorrendo agora para a Prefeitura de São Paulo. A escolha do PT foi a favor da renovação – buscou-se um político inteiramente novato em eleições. Funcionou com Dilma e pode funcionar novamente.

A possível escolha de Serra como candidato terá a função de diminuir o medo que o PSDB tem de perder as eleições. De um lado medo e falta de ousadia, de outro Lula com sua enorme capacidade de arriscar e apostar. O medo dos tucanos é tecnicamente infundado. No Município de São Paulo qualquer candidato do PT ou do PSDB será eleitoralmente competitivo. Não é preciso ser um estudioso da geografia eleitoral da cidade nem dos resultados das últimas eleições para prefeito para detectar que PT e PSDB têm, cada um, pelo menos 30% de votos certos. Lula tomou a decisão tecnicamente correta. Os tucanos, como de costume, movem-se orientados pela cautela e pelo medo.

Todos se recordam de que Serra derrotou Marta na eleição para prefeito de 2004. Poucos se lembram, todavia, que foi uma eleição muito difícil e que no primeiro turno Marta cresceu mais do que Serra. Além disso, quando em 2009 as pesquisas testavam separadamente os nomes de Serra e Alckmin para governador de São Paulo, Alckmin, que não era governador, se saía melhor do que Serra, que era o governador. Ou seja, Serra é um político sem carisma. Até pode ganhar uma eleição, mas é um processo bem mais sofrido do que quando o PSDB lança um candidato simpático e com carisma.

A derrota de Serra nas prévias é improvável, mas possível. Não há nenhuma pesquisa feita junto aos habilitados a votar. A cobertura de mídia desse evento foi muito ruim. Não houve sequer uma matéria baseada em uma boa apuração do que pensam aqueles que vão escolher o candidato tucano a prefeito. A mídia se limitou a cobrir a disputa dentro da elite política. Há muito tempo, no Brasil, os de baixo deixaram de ser carneirinhos nas mãos dos de cima. Os filiados com direito a voto no PSDB não vão necessariamente seguir esta ou aquela liderança. O voto no Brasil de hoje é muito menos controlado do que pensam muitos de nossos analistas. Foi graças a isso que Lula chegou ao poder, será somente graças a isso que o PSDB vai de fato se renovar.

Quanto a uma eventual vitória de Serra nas prévias, Lula e o PT agradecem. Afinal, o PSDB terá consagrado seu mais novo lema: “Em time que está perdendo não se mexe”.

Alberto Carlos Almeida, sociólogo e professor universitário, é autor de “A Cabeça do Brasileiro” e “O Dedo na Ferida: Menos Imposto. Mais Consumo”.

E-mail: alberto.almeida@institutoanalise.comwww.twitter.com/albertocalmeida

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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1 comentário

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Cláudio Freire

25 de março de 2012 às 15h39

Concordo com tudo o que ele disse nesse artigo. O que não me impede de ressaltar que entendo que o Antonio Carlos Almeida é um simpatizante do PSDB preocupado com os rumos do partido, caso o PSDB insista com um sujeito que pensa em seus interesses pessoais, e não nos interesses do partido.
Considero que ele tem toda razão, mas também por outras razões: Serra é, na minha opinião, o mais vingativo, truculento e traiçoeiro dos atuais políticos de expressão no país.

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