A mosca azul pousará em Eduardo Campos?

Napoleão, por Jacques Louis David

Ontem a Folha dedicou uma página inteira à campanha, agora diária, sistemática, de produzir divisão e intriga entre PT e PSB. No subtítulo da versão impressa, constava o seguinte:

PSB, da base de apoio do governo Dilma, pode investir em candidatura própria ou apoiar nome de Aécio Neves (PSDB)

Quando se lê a matéria, não se encontra qualquer declaração, nem sequer anônima, de algum dirigente do PSB, que indique a possibilidade do PSB apoiar Aécio Neves em 2014. Isso é o que se chama de forçar a barra.

A reportagem enfatiza as viagens de Aécio para defender um ou outro candidato do PSB, mas não lembra que PT e PSB seguiram unidos em centenas de chapas em todo país. E que o PSB apoiou mais candidatos do PT do que o PT apoiou candidatos do PSB.

Agora, é natural que existam divergências. É natural que o PSB queira crescer, e nesta ascensão trombe com o PT. Eleição é concorrência, e os espaços são finitos.

O que a mídia vem fazendo não é retratar a divergência, e sim maximizá-la, e mandar um recado ao PSB: se quiser voar sozinho em 2014, terá nosso apoio; se se unir ao PSDB, terá nosso entusiasmo.

Ao PSB, e a Eduardo Campos em particular, essa conjuntura traz benefícios políticos, mas também oferece perigosas armadilhas. A mesma mão que afaga, é a mesma que apedreja.

Os benefícios trazidos são os elogios, a blindagem política, a exposição pública com viés positivo. Enquanto for visto como chance única para derrotar o PT em 2014, numa dobradinha com os tucanos, Campos será pintado como um campeão político: ético, competente, audaz e renovador.

É uma estratégia arriscada, porque Eduardo Campos pode usar esse mesmo capital político em favor de Dilma Rousseff. Com a vaga de vice já ocupada pelo PMDB, Campos pode vir como candidato ao Senado em 2014, com acordo pré-estabelecido de se tornar presidente da Casa.

Por outro lado, não há bicho mais traiçoeiro que a mosca azul, metáfora antiga para indicar as tentações do poder e da vaidade. Um político deve ter a casca grossa para enfrentar duas formas de ataques midiáticos: uma através de críticas; outra via elogios. Ambos devem ser filtrados. Há críticas justas, e há elogios injustos.

Campos não pode se iludir, porém, com a força da mídia. Uma coisa é cercar e sufocar ministros do Supremo Tribunal Federal. São apenas 11, e transitam justamente nos meios sociais influenciados pela grande mídia. O povo, não. O povo brasileiro está relativamente vacinado contra as manipulações da mídia em função de sua heterogeneidade. O povo, graças a Deus, não lê Merval Pereira, e deve ouvir, quando calha de ver TV até mais tarde, com saudável ceticismo, as ladainhas pseudomoralistas de um Arnaldo Jabor.

Na minha opinião pessoal, Campos vai dar trela até onde puder a essa história de aliança com Aécio Neves, mas sempre pontuando, como tem feito até aqui, com encontros, reuniões e declarações de apoio à Dilma Rousseff. Quando chegar em 2014, apoiará Dilma.

Confiram esta outra notícia, publicada no Globo de hoje, cujo subtítulo é:


Caciques do partido [DEM] se mostram entusiastas de aproximação com PSB

 

Como dizia aquela famoso axé dos anos 90, aí “já virou sacanagem”. A hipocrisia não tem limites. Basta o PSB crescer um pouco, e vislumbrar-se para a legenda novas perspectivas de poder, que os urubus do DEM logo aparecem voando ao redor. Ou seja, todo aquele discursinho contra o fisiologismo é posto de lado, e o DEM pré-adere automaticamente ao PSB, legenda com a qual não tem nenhuma identificação ideológica ou programática.

Muita cara de pau. Por outro lado, são movimentações legitimamente democráticas, visto que a hipocrisia é um vício não apenas perfeitamente legal como um dos mais aceitos na modernidade. Voltaire dizia que a hipocrisa é o tributo que o vício presta à virtude. Pois então. Deixemos o DEM sonhar. O que interessa aqui não é a voracidade priápica do DEM e sim a postura do PSB. O PSB se tornou uma mulher bonita e atraente. É normal que seja cortejada e desejada. Mais que nunca, porém, a sociedade estará de olho no comportamento desta mulher. Vivemos uma sociedade mais ou menos livre, em questão de costumes, e não creio que o eleitor se importe muito com os flertes ocasionais do PSB com a oposição. Mas o casamento principal do PSB é com Dilma Rousseff, e uma traição de baixo nível não seria perdoada. Uma coisa é a mulher ter uma vida sexual livre, outra coisa é ser vista como uma pistoleira sem caráter e sem critério.

O PSB tem obrigação moral e política de apoiar a reeleição de Dilma Rousseff em 2014. Este é o acordo mãe de todos os acordos. Um rompimento desse compromisso, reiterado inúmeras vezes pelo próprio presidente do partido, diversas vezes, implicaria numa reviravolta política e partidária de conotações imprevisíveis no país, mas todas negativas para o PSB. Fazendo isso, o PSB assimilaria, automaticamente, todas as antipatias que a oposição de direita recebe da população. E o processo de crescimento do partido poderia ser bruscamente revertido.

Seria humilhante e ridículo que Eduardo Campos, um quadro em ascensão, aceitasse o papel subalterno de vice de uma legenda declinante e associada ao conservadorismo, como o PSDB. Seria mais fácil, porém, o contrário. Entretanto, uma chapa PSB e PSDB ganharia ares grotescos, porque incorporaria todas as forças reacionárias no país, incluindo os extremistas – gerando crise profunda no PSB, o qual, pese a seu pragmatismo partidário, ainda é um partido fortemente identificado com ideias de esquerda.

Por todos os lados que analisamos a questão, portanto, vemos quanto existe de desespero e delírio nessa tara da oposição (PSDB, DEM, mídia) pelo corpinho malhado do PSB.

E também acompanharemos de que maneira o PSB conseguirá se safar do assédio, driblando sua própria vaidade e seus próprios interesses.

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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