O triste fim de um ex-Gabeira

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Um chiste eleitoral de que não me esqueço foi uma resposta que o então candidato do PSOL, Jefferson Moura (que está migrando para a legenda da Marina), deu a Fernando Gabeira, num debate em 2008. Moura dirigiu um olhar compassivo para o velho Gabeira de guerra, ícone da maconha livre, da liberdade sexual e da resistência à ditadura, que agora havia se tornado a quinta-coluna da direita carioca e tascou: você é um ex-Gabeira. O apelido pegou profundamente porque, de fato, a gente assistiu uma conversão terrificante: Gabeira havia se tornado um homem conservador. Até seu aspecto mudara. Talvez ele já estivesse mudando há tempos, mas só agora a gente prestava atenção em sua figura. O espirituoso e sorridente Gabeira se tornara um velho carrancudo, um ancião ideológico, sempre com uma expressão angustiada, triste, severa, acusadora. Desde muito não mencionava qualquer bandeira social ou libertária. Em 2010, candidatou-se a governador ao estado do Rio apenas para dar palanque à José Serra, de quem foi um cabo eleitoral bastante ativo, ao menos até perceber que fora enganado pelo PSDB, que lhe prometera recursos de campanha, mas o deixou à míngua.

Gabeira agora escreve semanalmente para o Estado de São Paulo, bastião do velho conservadorismo paulistano. Função: usar o tema da semana para bater no PT. O estilo, udenista até a medula. O ex-guerrilheiro tornou-se um Jabor que ingeriu doses cavalares de calmantes tarja preta.
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Em seu artigo de hoje, É o fundo do poço, é o fim do caminho, encontramos, já no título, um execrável atentado à bela canção de Tom Jobim, cuja letra às vezes triste se contrapunha à melodia repleta de esperança, alegria e sonhos de liberdade. Aliás, isso é incrível. No auge da ditadura, quando não se via um fiapo de luz no fim do túnel, tínhamos grandes homens, na política e na arte, que se encarregavam de mostrar que a história ainda não havia acabado. Que apesar de você, ainda viveríamos um tempo de felicidade.

Ora, tudo isso são metáforas e poesia. A felicidade é uma gota de orvalho numa pétala de flor, como dizia Vinícius. Brilha fugazmente, depois cai, qual uma lágrima de amor. A democracia não nos faz automaticamente felizes. Os maiores índices de suicídio no mundo ficam na tranquila e justa Escandinávia. O que também não quer dizer nada.

Mas Gabeira se tornou um homem profundamente equivocado. Ele não fala da angústia humana. Sua depressão é ideológica. Ou antes, a sua ideologia é a depressão. Todos aqueles setores derrotados pela democracia, que hoje se aglomeram, irritados, lá no fundo do rico inferno em que vivem, encontraram mais um porta-voz para sua insatisfação.

Que mané fundo do poço, Gabeira!

Renan Calheiros é presidente do Senado, ok, mas antes era Ministro da Justiça!

Voltaire dizia que a hipocrisia era a cortesia que o vício prestava à virtude. Ingênua frase! A hipocrisia de Gabeira é a cortesia do vício ao vício! Renan é acusado por pagar pensão à sua própria filha. Pois bem, e Marconi Perillo, que continua governador, todo pimpão, depois de ter entregue o estado de Goiás ao crime organizado? E Demóstenes Torres, que ainda está lá, exercendo o cargo de procurador, no mesmo Goiás, depois de tudo que descobrimos sobre ele? Depois de todos aqueles áudios, que não deixam margem de dúvida sobre a sua total degradação moral?

É um absurdo que um homem que tenha sondado os porões fétidos em que a política brasileira entrou, durante a ditadura, vir à público hoje dizer que estamos num poço sem fundo. E dizendo isso de onde? Não poderia haver uma ironia mais sinistra! Gabeira vomita seus udenismos do alto da mesma tribuna que pregou o golpe de Estado em 1964. Realmente, o homem é um ser incrível. No momento mais difícil do país, um jovem toma a decisão mais perigosa possível, que é entrar na luta armada para tentar derrubar a ditadura. E aí, no momento mais tranquilo da nossa democracia, o mesmo homem, já velho, torna-se servil às mesmas forças que sustentaram o regime militar.

Eu também fiquei profundamente triste quando elegeram o tal Feliciano para a Comissão de Direitos Humanos. Pensei comigo: poxa, eu aqui defendendo o Congresso, dizendo que ele é importante, não é tão ruim como prega a mídia, e os caras fazem essa merda? Falei isso com um amigo, que me respondeu: “Pois é, Miguel, mas pensa bem, isso é da democracia”.

Pois é. Se vivêssemos uma ditadura, seria fácil para o poder nomear um notável para o cargo de presidente da comissão de direitos humanos do Congresso. Do jeito que estamos hoje, é sempre um risco. Temos um congresso plural, imprevisível. De  um lado, dezenas de parlamentares que defendem o casamento gay, a laicidade do Estado e outros valores progressistas e libertários. De outro, deputados que defendem o contrário. Nem sempre o nosso lado ganha. E quando perdemos, lutamos. A sociedade hoje pode se manifestar com uma tremenda e eufórica liberdade. É capaz do Feliciano não aguentar as pressões sociais e políticas e renunciar. O fato, de qualquer forma, conferiu enorme projeção política àquela cadeira. Despertou uma saudável cobiça, entre parlamentares de orientação progressista, por aquela vaga. O próximo ocupante, podem escrever, será um progressista.

Usar um revés, que faz parte do processo democrático, para esculhambar o Parlamento, e isso num contexto político do qual Gabeira tem perfeita consciência, é fazer o jogo do udenismo golpista. O artigo de Gabeira em seguida traz frases de Lula tiradas do contexto, apenas para pintá-lo, ridiculamente, como inimigo dos direitos humanos. Ora, Lula não é perfeito, cometia suas gafes. Foi o campeão das gafes. Mas a história não o julgará por isso, assim como não julgará Gabeira por ter dito que sambistas votariam num candidato por causa de um churrasco.

O palavrório de Gabeira pode ser resumido a este trecho:

Não foram nossos erros no movimento de direitos humanos que trouxeram Feliciano ao centro da cena. Ele não chegou ao topo à frente de um onda racista e anti-homossexuais, apesar de suas declarações bombásticas. Ele triunfou porque é cafajeste, e essa condição hoje é indispensável para o ascender no Congresso. Expressa um longo processo de degradação impulsionado pelo PT.

Quão errado você estava, Voltaire! A hipocrisia não guarda relação nenhuma com a virtude. Gabeira é a prova disso. A eleição de Feliciano para a Comissão de Direitos Humanos se deu com apoio do PSDB, e da direita em geral. Porque Gabeira não conta a história completa? Acusar o PT, que está na linha de frente na luta contra Feliciano, é – como diria Roberto Freire – uma ignomínia![/s2If]

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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