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Uma análise crítica e franca sobre as jornadas de junho

Por Miguel do Rosário

05 de novembro de 2013 : 03h47

Segue abaixo um artigo de Fabiano Santos, publicado na Carta Maior, onde vemos críticas ao florescimento de um neo-radicalismo político, omisso em relação à história do Brasil e à própria história das lutas sociais e democráticas.

Santos é curto, objetivo, franco: “a pedagogia política que ficou das manifestações de junho não é boa. Intolerância, grito e depredação são seus instrumentos. Idealismo e voluntarismo, sua inspiração teórica. Decepção e surpresa, a continuar a tergiversação esquerdista, serão seu provável resultado.”

É também uma opinião corajosa, visto que essa intolerância crescente faz com que as pessoas reajam com truculência a quem não partilha de suas ideias. Não apenas discordam. Revelam o impulso de querer silenciar a divergência. Black blocs virtuais.

Temos que trabalhar para politizar o povo, instruí-lo, não transformá-lo em agentes de um caos que só gerará mais danos ao próprio povo, à democracia e ao futuro.

A glamourização da violência é uma espécie de preconceito de quem acha que o povo não tem inteligência para superar os obstáculos através de estratégias pacificas, democráticas, cerebrais.

*

O desafio da esquerda (sobre os protestos de junho)

Um esquecimento dos achados mais relevantes da obra de Marx é o mínimo que se pode dizer sobre a atuação de boa parte da esquerda nos protestos de junho.

Por Fabiano Santos, na Carta Maior.

“Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem: não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”. A frase consta do primeiro parágrafo da clássica obra de Karl Marx, O 18 Brumário de Luís Bonaparte. Segundo o genial analista político alemão, as circunstâncias são essenciais para entender o sentido e efeito das escolhas e os cursos de ação tomados pelos indivíduos e grupos sociais. Circunstâncias podem ser entendidas como um conjunto de fatores que escapam ao desígnio dos agentes da história, isto é, que não dependem de sua vontade, mas que, no entanto, serão determinantes para o resultado final do processo. Processo aqui entendido como conflito, como disputa e alianças entre indivíduos e grupos tendo em vista a defesa de seus interesses, valores, ideias e identidades.

Nada mais importante na atual conjuntura brasileira do que revisitar o ensinamento de Marx contido em sua brilhante análise de conjuntura. Na França revolucionária de meados do século XIX, classes e frações de classes, grupos e facções políticas, cada um agindo na direção de maximizar seus interesses, da conquista de seus ideias e valores mais caros, acabaram por produzir resultado não desejado por ninguém, resultado, ademais, que em nada traria de novo na vida política francesa de então: trouxe sim o retorno do déspota, do estado autoritário e do golpe como instrumento de tomada do poder. Nem o sobrenome do ditador, no caso, encerraria alguma novidade.

Por que o ensinamento é importante para o momento atual, relevante, em suma para se pensar a política brasileira neste início do século XXI? Total esquecimento dos achados mais relevantes da obra política de Marx é o mínimo que se pode dizer sobre a atuação e discurso de boa parte da esquerda brasileira, sobretudo, a partir das manifestações ocorridas em junho do corrente ano. Quando Marx, no 18 Brumário, se refere às “circunstâncias”, fator chave para o sucesso da ação política, tinha duas coisas em mente: correlação de forças e estrutura social. Uma boa estratégia política é aquela que observa seus contendores e possíveis aliados, bem como os recursos com os quais contam, sendo os atores participantes do jogo, assim como seus recursos em boa parte decorrência da estrutura social.

A estrutura social brasileira hoje é fruto do tipo de capitalismo, com forte participação do estado, que temos desenvolvido desde a revolução de 30, com suas transformações e permanências. Seus atores sociais e políticos mais importantes advêm desta trajetória, sendo qualquer agenda minimamente factível de desenvolvimento dependente em alguma medida de um comportamento cooperativo destes. O papel da política democrática, bem como o de suas instituições é exatamente o de servir de mediação dos interesses em conflito de forma a gerar pautas socialmente inclusivas e de expansão econômica, pautas que contem com boas chances de aprovação e realização.

Plausível, portanto, sustentar que a superação dos obstáculos ao crescimento e ao estabelecimento de políticas públicas eficientes de inclusão social depende da criação de contextos de cooperação e explicitação de divergências entre os principais protagonistas de cena econômica e social. É plausível também sustentar que a Constituição de 88 fornece excelentes instrumentos aos governantes para o estabelecimento de tais contextos. Se é assim, a pedagogia política que ficou das manifestações de junho não é boa. Intolerância, grito e depredação são seus instrumentos. Idealismo e voluntarismo, sua inspiração teórica. Decepção e surpresa, a continuar a tergiversação esquerdista, serão seu provável resultado.

(*) Cientista político, professor e pesquisador do IESP/UERJ

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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8 comentários

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Guilherme Preger

05 de novembro de 2013 às 16h37

a questão é que a “explicitação de divergências entre os principais protagonistas de cena econômica e social” está acontecendo unicamente nas ruas. não está se dando no núcleo do poder (incluindo o poder midiático completamente sincronizado com o núcleo governista sobre a prioridade dos jogos). Um exemplo óbvio é o seguinte: com a saída do PSB da base governista, provavelmente vão se apertar ainda mais os laços desastrosos entre PT e PMDB. Sérgio Cabral vai para o Ministério dos Transportes e nem sequer teremos a candidatura do Lindinho no Rio de Janeiro. Onde está então a divergência procurada pelo articulista? Não adianta ficar chutando cavalo morto, como se a candidatura nati-morta do Aécio Never fosse o principal problema do país… Onde estão as vozes divergentes hoje em dia, senão na rua?

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Claudio Tavares De Mello Guarani Kaiowá

05 de novembro de 2013 às 15h21

Acompanho e admiro seu trabalho, O Cafezinho, mas não dá pra esperar mais de Lula e Dilma… Não sem bater forte neles. Nem Azenha aguenta mais. No nível federal ainda se salva alguma coisa, embora seja difícil mensurar e enxergar o que se passa com clareza, mas no âmbito estadual e, principalmente, municipal, salta aos olhos o estrago causado pela política da camaradagem público-privada.

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O Cafezinho

05 de novembro de 2013 às 15h12

então concordamos em tudo, claudio.

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Claudio Tavares De Mello Guarani Kaiowá

05 de novembro de 2013 às 13h30

Sou contra a ausência de planejamento que corrói as nossas cidades e contra a falta de rédea que ponha o mercado da construção civil no devido lugar e a favor da agricultura familiar que põe 70% do que consumimos em nossa mesa – ” ao mesmo tempo”. Tem mais coisas que eu gostaria de ver ao mesmo tempo, como a regulação da mídia ou pelo menos a sequência do processo contra as “organizações” globo por crime contra a ordem fiscal, sobre o qual não vemos mais notícia e muito menos posição da receita. Ora, se por um lado, em 12 anos foi fácil flexibilizar o Código Florestal, liberar o cultivo de transgênico e tornar a Odebrecht a queridinha do Governo onde o BNDS participa com quase 40% nos seus negócios, é porque força tarefa não deve ser o problema.

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    Miguel do Rosário

    05 de novembro de 2013 às 12h47

    tudo bem. também sou contra a ausência de planejamento em nossas cidades, e contra tudo isso aí que você falou. estamos de acordo em quase tudo.

    sobre a agricultura familiar, está certo que ela põe 70% de tudo que consumimos. Sò que os outros 30% são proteína, a carne, que infelizmente ainda vem do agronegócio.

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Rosivaldo Pellegrini

05 de novembro de 2013 às 13h24

Penso que o agronegócio não é agricultura, agroecologia sim. Odebrech é uma empresa transnacional envolvida no esquema PC Farias.

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O Cafezinho

05 de novembro de 2013 às 13h10

12 anos de odebrect e agronegócio? Você é contra a construção civil e contra a agricultura ao mesmo tempo?

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Claudio Tavares De Mello Guarani Kaiowá

05 de novembro de 2013 às 10h16

“A estrutura social brasileira hoje é fruto do tipo de capitalismo, com forte participação do estado, que temos desenvolvido desde a revolução de 30, com suas transformações e permanências. Seus atores sociais e políticos mais importantes advêm desta trajetória, sendo qualquer agenda minimamente factível de desenvolvimento dependente em alguma medida de um comportamento cooperativo destes. O papel da política democrática, bem como o de suas instituições é exatamente o de servir de mediação dos interesses em conflito de forma a gerar pautas socialmente inclusivas e de expansão econômica, pautas que contem com boas chances de aprovação e realização.

Plausível, portanto, sustentar que a superação dos obstáculos ao crescimento e ao estabelecimento de políticas públicas eficientes de inclusão social depende da criação de contextos de cooperação e explicitação de divergências entre os principais protagonistas de cena econômica e social”. Depois de 12 anos, acompanhado da Odebrecht e do agronegócio, essa é a linha de defesa do Governo? Uma pena, mas é um tremendo chute cafofo.

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