Eleições argentinas: uma peça de dominó em disputa

Por Lia Bianchini, repórter especial do Cafezinho

No último domingo, a Argentina deu o primeiro passo para sua troca de presidência, com as eleições primárias (uma espécie de pesquisa, com voto obrigatório, para as eleições oficiais de 25 de outubro).

Os principais partidos concorrentes eram a Frente para la Victoria (FpV – partido do atual governo), o Cambiemos, a Alianza Unidos por Una Nueva Alternativa (UNA) e o Progressistas.

O resultado da chamada PASO (Primarias Abiertas Simultáneas y Obligatorias) seguiu essa ordem, com 38,41% dos votos para a FpV, 30,7% para o Cambiemos e 20,63% e 3,51% para UNA e Progressistas, respectivamente.

Antes da análise do cenário político a partir desses resultados, porém, é preciso entender o significado das próximas eleições para o contexto argentino e sul-americano.

A história argentina assemelha-se muito à brasileira. Após um governo neoliberal e uma crise nos anos 90, a Argentina elege um governo progressista, que perdura por 12 anos: os Kirchner (Néstor, de 2003 a 2007, e Cristina, de 2007 a 2015). Ao longo desses anos de governo, o chamado kirchnerismo conseguiu, entre alguns de seus feitos, elevar as taxas de crescimento econômico, produtividade industrial e poder de compra dos argentinos e diminuir o desemprego e a pobreza no país.

No entanto, a imagem do governo foi sendo desgastada, principalmente após a crise econômica de 2008 (chamada por Cristina Kirchner de Efeito Jazz, em alusão à origem do problema: os Estados Unidos). Hoje, o governo kirchnerista recebe críticas tanto do campo de esquerda (vindas dos peronistas dissidentes e dos esquerdistas radicais) quanto da oposição de direita, que vem crescendo no país.

Logo, é nesse cenário de crise de representatividade que se situam as próximas eleições argentinas. E o resultado da PASO gera incertezas quanto ao futuro caminho político argentino.

Com maior porcentagem de votos recebidos, o partido do governo aposta no governador da província de Buenos Aires Daniel Scioli como sucessor de Cristina Kirchner. Contudo, há pouco tempo, Scioli não era considerado tão próximo ao kirchnerismo, posicionando-se muito mais ao campo político centrista do que à esquerda. A aproximação entre Cristina Kirchner e Scioli veio apenas com a iminência das eleições e a necessidade de um sucessor para a atual presidente, já que o outro possível candidato do governo, Florencio Randazzo (atual Ministro do Interior e Transporte da Argentina), não teve tanto apelo junto ao eleitorado kirchnerista.

O principal partido da oposição, o Cambiemos, que agrega direita e centro-direita, tem como candidato Mauricio Macri, atual prefeito de Buenos Aires e ex-presidente do clube de futebol Boca Juniors. Macri aparece como o renascimento da direita argentina, conquistando os votos do eleitorado conservador, anti-peronista e anti-kirchnerista. Pode, ainda, conseguir alguns votos dos peronistas dissidentes, que se opõem ao kirchnerismo. Uma grande aliada de Macri é a imprensa tradicional argentina, que vem atacando fortemente o governo Kirchner, implantando um ideário de que o melhor para a Argentina seria o fim do kirchnerismo (representado, nas próximas eleições, por Scioli).

Correm por fora, ainda, Sergio Massa e Margarita Stolbizer, dos partidos UNA e Progressistas, respectivamente. Ainda que, estatisticamente, sem possibilidades reais de vitória, ambas as candidaturas são essenciais para alterar o cenário político.

Massa apresenta-se como uma terceira via, com um discurso de renovação política e não polarização (praticamente a Marina Silva da Argentina). O candidato deverá ter voto de parte dos peronistas dissidentes, contrários tanto à política de direita, representada por Macri, quanto à de esquerda moderada, representada por Scioli. Contudo, alguns veículos argentinos já noticiam um possível apoio de Massa a Macri, o que aumentaria consideravelmente as chances do Cambiemos eleger seu candidato, uma vez que Massa foi o terceiro mais votado nas eleições primárias.

Stolbizer também pode contribuir para diminuir a porcentagem de votos da FpV, já que seu eleitorado alvo é a esquerda anti-kirchnerista e anti-peronista. Na imprensa argentina, ela é noticiada como “la candidata que no negocia”. Faria diferença, porém, seu posicionamento em um possível segundo turno das eleições. O apoio a Macri é praticamente descartável, mas o apoio a Scioli endossaria a polarização ideológica, definindo claramente esquerda e direita, o que poderia atrair a parte dos eleitores de Massa que é contrária ao apoio dele a Macri.

Basicamente, a Argentina está prestes a encarar uma disputa entre esquerda e direita. O cerne da questão é: a direita virá muito bem organizada, enquanto a esquerda terá que encontrar um caminho convergente entre tantas divergências. Porém, a população argentina pende mais à continuidade de um governo progressista. Logo, resta a Scioli (único candidato da esquerda com possibilidades reais de vitória) ser, de fato, essa salvação do progressismo na Argentina e não se deixar perder pelos caminhos obscuros do centrismo.

O cenário é de uma complexidade há muito não vista em eleições Argentinas, mas parecida com a que vem passando outros países sul-americanos, a partir dessa nova investida neoliberal nas nações emergentes. Qualquer semelhança com as últimas eleições brasileiras ou uruguaias não é mera coincidência. A América do Sul é como um mosaico montado em peças de dominó: se alguém derrubar uma única peça, todas as outras caem juntas.

Lia Bianchini:
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