Investimentos e conspirações

O Banco Central divulgou hoje os números do setor externo da economia brasileira.

A entrada de investimentos diretos no país – que até pouco tempo atrás eram denominados de investimentos estrangeiros diretos – cresceu US$ 5,2 bilhões em agosto, totalizando US$ 73,6 bilhões nos últimos 12 meses.

Houve recuo no mês em relação ao ano passado, quando entrou aqui US$ 10 bilhões, mas é uma queda que aconteceu no mundo inteiro.

A crise política também deve ter contribuído. Diante da perspectiva de um golpe de Estado com consequências imprevisíveis, compreende-se que os investidores puxem o freio.

Mesmo assim, o número mantém o Brasil na lista dos cinco ou seis países que mais recebem investimentos diretos internacionais no mundo.

São várias as metodologias para se calcular o investimento estrangeiro em um país.

Por exemplo, a metodologia do Banco Mundial, com dados atualizados até o ano de 2014, põe o Brasil como o terceiro maior recebedor de investimentos diretos em 2014, atrás apenas de Luxemburgo e China. À frente inclusive dos Estados Unidos.

Totalmente o oposto do que é vendido por nossa imprensa.

Repare que os investimentos para os EUA caíram fortemente em 2014, empatando com os do Brasil, que vem crescendo de maneira bastante vigorosa nos últimos anos.

 

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Há uma outra metologia, porém, usada pelo jornal Financial Times, que separa apenas o que eles chamam de “capital expenditure on greenfield investment projects”, ou seja, dinheiro investido em novos projetos. Este conceito refere-se somente ao investimento em novas fábricas, novas instalações, etc.

O Financial Times tem feito matérias bastante negativas sobre o Brasil, usando este conceito. A última foi do dia 14 de setembro, sobre a forte queda nos investimentos diretos em “novos projetos” na maioria dos emergentes, com exceções brilhantes para Índia, Indonésia, e meia dúzia de outros.

Os investimentos estrangeiros em novos projetos no Brasil caíram 65% na primeira metade de 2015, segundo o Financial Times, somando US$ 4,66 bilhões.

Foi uma queda braba, porém, similar ao sofrido por alguns xodós das finanças mundiais, como Coréia do Sul, Peru e Panamá, cujos investimentos novos caíram, respectivamente:  64%, 84% e 91%.

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Voltando ao Banco Central, o relatório Focus, que apura a opinião de agentes privados, estima que o ano fechará com investimentos diretos em torno de US$ 65 bilhões, o que seria uma queda forte sobre os quase US$ 97 bilhões registrados em 2014.

Por curiosidade, eu peguei uma das tabelas divulgadas pelo Banco Central hoje, editei e incluí alguns percentuais. Ela traz o fluxo líquido de investimento direto, menos os lucros reinvestidos, de maneira que nos aproximamos do conceito de investimentos em “projetos novos” apurado pelo Financial Times.

A lista por país traz alguns dados interessantes. Em primeiro lugar, nota-se a ausência da China. A China investiu no Brasil US$ 723 milhões em agosto de 2014, e apenas US$ 21 milhões em agosto deste ano. No acumulado de janeiro a agosto, os investimentos chineses caíram de US$ 923 milhões para US$ 170 milhões, uma queda de 82%.

Esses números nos fazem lembrar da visita do presidente chinês ao Brasil, há poucos meses, e sua promessa de investir mais de US$ 60 bilhões no país, incluindo a ferrovia bioceânica. Esse é um projeto que tem de ser defendido politicamente, porque, se depender da nossa mídia, ele será sabotado, como já está sendo.

Outro dado interessante da lista é o investimento dos EUA no Brasil, o qual, na contramão da maioria dos outros países, manteve-se estável em agosto. O Tio Sam continua apostando pesado no Brasil, talvez por intuir que, caso haja uma ruptura política, a balança penderá mais para seu lado, beneficiando ainda mais os seus negócios.

A China pode ter entendido que, diante de um possível impeachment da presidenta, haverá uma mudança de clima político que não lhe favorecerá.

Um analista mais paranoico poderia até ver nesses números um indício de participação dos EUA nas conspirações em curso para derrubar o governo nacionalista.

Outro dado um pouco estranho foi o aumento de 11 mil por cento dos “investimentos” oriundos das Ilhas Cayman em agosto. Saíram de 4 milhões em agosto de 2014 para 485 milhões de dólares no mesmo mês deste ano. Dá para bancar alguns milhares de Lulas infláveis e outras gracinhas…

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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