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John Singer Sargent

Cafezinho Literário: o breu e o baile de Cláudia Almeida

Por Paulliny Gualberto Tort

12 de junho de 2016 : 22h48

O flamenco é uma poderosíssima ‘linguagem silenciosa’. Foi assim que Cláudia Almeida, assinante do Cafezinho Literário, explicou suas motivações para escrever “Breu e baile”. Enviou o texto com uma mensagem muito simpática, em que se notava uma leitora assídua desta coluna. Talvez não esperasse vê-lo publicado. Mas este seu baile tem um irresistível poder de arrebatamento.

A autora apresentou “Breu e baile” como uma crônica. A narrativa, no entanto, se aproxima da de um conto, sem a ação que se espera deste gênero. O texto me fez lembrar de “O museu dos queijos”, do Ítalo Calvino, publicado em Palomar. Um exercício de profunda observação, destinado a contar uma história não pelos atos das personagens, mas pelo estado do mundo em torno delas.

Embora escreva com frequência, a Cláudia ainda não publica seus textos. O que é uma pena, pois faz belezas quando escreve… “Breu e baile” é um desses textos capazes de criar uma atmosfera quente e densa em torno da cena. O leitor se vê logo envolvido pelo universo de cores, texturas e vibrações sonoras próprias da cultura flamenca. Quando menos espera, está lá, batendo palmas para a bailaora.

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Paulliny Gualberto Tort

Editora do Cafezinho Literário

A autora Cláudia Almeida, bailarina de flamenco

A autora Cláudia Almeida, bailarina de flamenco

Breu e baile

de Cláudia Almeida

Breu. Uma guitarra hesitante ensaia os primeiros acordes, amarrando o fio da harmonia. Alguns compassos. O cajón entra com sua marcação ritmada, insistente. Em seguida, palmas ‘sordas’ vão se integrando à cadência e ao andamento. Fluidez e pulsação. Uma voz pungente se desprende em queixumes, longos ‘ais’. Uma luz tênue vai amansando a escuridão. O palco está montado. Não há cenário algum, nada que desvie a atenção; só há protagonistas, cada um fazendo e sendo música. No lado esquerdo do palco revela-se aos poucos uma silhueta quase arbórea, com o torso sinuoso e os braços suspensos, alcançando o que não está lá.

Num suspiro repentino, os braços se abrem em galhada e vão voluteando, as mãos acompanhando o movimento espiralado. O tronco permanece imóvel; só há vida e movimento nos braços que gravitam na penumbra. De repente, a bailaora vira e golpeia o tablado com ímpeto e atrevimento, impondo o andamento com seu taconeo preciso. Seu rosto é pura irreverência e ousadia; os golpes, tacos, puntas e tacóns se enredam nas palmas que se tornam vivas e vão acelerando num sapateado febril e enérgico; não são mais apenas passos, é música que parece se desprender da pele, tão resoluto e intenso o corpo. Um remate; um cierre. Só a respiração ofegante da bailaora dita agora o ritmo do silêncio.

A guitarra retoma o compasso, ansiosa. Inicia uma levada mais lenta e suave, chamando um bruxuleio delicado de mãos e braços, os pés agora quase inaudíveis. Ela se mostra inteira, seu colo arquejando da bravura anterior e antevendo a delicadeza da letra que o cantaor agora entoa. É uma soleá. Solidão, desterro. E é com esse mesmo abandono que ela esquadrinha sua própria soledade e impõe aos espectadores sua dor, sua inquietude, sua angústia. São paseos e braceos impiedosos mas serenos, as mãos arrancando do peito o desassossego e lançando-o lentamente na plateia embriagada de intensidade. Os olhos da bailaora fitam cada um, e nenhum. Ela baila para si.

Um último fôlego e guitarra, cajón, palmas e cante eclodem em acordes impetuosos, desafiando a bailaora, que responde com o corpo em uníssono, toda ela uma enxurrada de sensações. A música interpela, ela revida. Sua saia volumosa incendeia o tablado, seus volantes serpenteando e pintando o movimento, como um Matisse reinventado. Tudo nela é mobilidade e ela provoca o público, que agora não é mais assistente, é quase testemunha hipnotizada da franqueza e desassombro do baile arrebatado. Inesperadamente, ela para. Com o queixo, ela afronta cada um de nós e enceta mais um sapateado impossível antes de fazer um gesto de premeditado enfado e sair, tão tênue e imperceptível como entrou.

A guitarra ainda triturou uns poucos compassos desvanecidos antes de também libertar a mudez significativa. Nada mais havia a ser dito. Mas todos ouviram.

***

Cláudia Almeida e o ritmo das palavras

Cláudia Almeida é…

…carioca ‘quase calango’, de tanto tempo que vive em Brasília. É professora de inglês e tem paixão pelas palavras – e os silêncios. Em maio de 2016, se deu de presente de 50 anos a assinatura do Cafezinho Literário e espera ansiosa pelos e-mails todo domingo.

E essa carioca-quase-calango escreve com que frequência? Tem blog ou textos publicados? 
Escrevo sempre, geralmente ideias aleatórias em post-its. Algumas viram texto; outras viram poeira, mas não tenho blog ou textos publicados… ainda. Tenho algumas coisas borbulhando, mas ainda em estado vaporoso.
Quais são seus autores favoritos, aqueles que mais a influenciam?
Amo Gabriel Garcia Márquez, paixão desde a adolescência. Machado de Assis também me fala ao coração. Recentemente descobri João Anzanello Carrascoza, um lirismo encantador.
Qual é o lugar do flamenco na sua escrita?
O flamenco tem lugar cativo no meu coração, desde sempre e para sempre. O que escrevo tem muito do ritmo do flamenco.

*A obra que ilustra esta postagem se chama El Jaleo (1882), de John Singer Sargent.

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1 comentário

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renato andretti

13 de junho de 2016 às 08h16

Muito “flamenco” começar dia assim.
os movimentos aquecem o frio do sul.
e o coração..do brasileiro.

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