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Entrevista: Batida, África-Portugal-Brasil

Por Bernardo Oliveira

22 de junho de 2016 : 10h49

Por ggabriel albuquerque*, convidado da coluna musical do Cafezinho.

nascido em angola e radicado em portugal, o dj batida (ou pedro coquenão) é parte de um movimento de reformulação da música africana e eletrônica a partir de um cruzamento de texturas e ritmos do kuduro, kizomba e tarraxinha com beats do house: o afrohouse.

 batida apresentou em fevereiro no festival rec-beat, que acontece durante o carnaval de recife, aberto ao público, no centro da cidade. percebendo o “afrohouse” como um agenciamento coletivo global de reprocesso das diretrizes da música africana (leia aqui),  conversei com ele antes do show para entender melhor tanto o quadro geral como suas particularidades enquanto criador.

 a fala de batida me chama atenção especificamente quando se refere à segregação/marginalização da música periférica de portugal. além das similaridades sonoras e visuais entre o afrohouse com o funk-2010s-kondzilla  e o axé contemporâneo (compare aqui; aqui; e aqui), o preconceito parece ter a mesma raiz.  sobre o kuduro em portugal, o dj diz: “a segregação que existe é sempre da ignorância das pessoas que vivem mais no centro, no shopping center e no meio do idealismo acadêmico e intelectual, que é muito distante geograficamente e até em termos de afeto; não têm contato com as pessoas que vivem mais fora da cidade”. a frase serve também para refletir sobre vladimir safatle, márcia tiburi, arthur xexéo e outros articulistas que se colocam contra o funk sem conhecimento de causa e literatura, temperando tudo com falácias construídas com muito adorno mal lido.

em portugal, um conjunto de artistas diferentes tem uma relação muito íntima com a música africana, tanto como um resgate como uma reinvenção deste som. além de você, há também o dj firmeza, nigga fox, marfox e buraka som sistema. de onde isso surge e como a relação da sua música com a áfrica?
eu não sei se é portugal ou se é o mundo inteiro… acho que é tudo diáspora africana. muitos dos artistas que saíram da áfrica e especificamente dos países colonizados  – no meu caso em particular, de angola; mas também de cabo verde, nigéria, gana – foram para as capitais do mundo e depois acabaram por ter uma necessidade de reinventar a memória que têm. pessoalmente, eu tive uma necessidade de voltar até certo ponto. abandonei a angola ainda quando era bebê, no momento de independência seguida de forte guerra civil no país. eu voltei lá depois, mas cresci ouvindo histórias sobre angola e como eram as coisas, que música tocava lá.

isso é uma interpretação entre muitas, mas pode ser um pouco a necessidade de construir a tua própria memória, porque de repente estás em lisboa mas há coisas que não correspondem com a realidade. eu cresci em lisboa, há coisas com as quais me relaciono mas há coisas que eu não encontro lá. isso me obriga a ter que procurar outro lugar. às vezes vou procurar as referências em nova york, holanda mas há outras que só vou encontrar em luanda e angola. e desde o começo eu tenho essa ideia de mistura.

você comentou que ouvia a música de angola. como é essa música e como ela te influencia?
música de club em portugal, pelo menos nos clubes africanos, sempre foi música de dança. não era rock, era semba, merengue ou qualquer que seja. era um monte de ritmos e alguns deles já começavam a ter um beat eletronico. isso no fim dos anos 1980, 1990. depois começou a fluir em outros sentidos. o kuduro nasceu um pouco assim. e se olhar o que acontece hoje em dia… eu faço uma coisa, o dj nervoso faz outra, o marfox faz outra, o nigga fox faz outra, os buraka fazem outra. cada um faz o seu caminho, mas, sim, eu acho que existe uma necessidade de fazer o caminho de novo, voltar atrás pra chegar outra vez ao lugar onde estamos e projetar uma ideia de futuro um pouco mais parecida contigo mesmo. mas cada um tem as suas singularidades. há uns que estão mais ligados ao techno, outros mais ligados à música de cabo verde. às vezes nem é tanta questão de ter nascido em angola ou cabo verde. no caso do marfoxx [nascido em portugal], ele tem descendentes que são de são tomé e faz música que é muito inspirada em angola e que já tem muito de lisboa. mas ainda não deixa de ter essa necessidade de buscar batuques, de buscar outros tipos de ritmos… enfim, cada um é muito específico

como é a condição social dos imigrantes africanos em portugal? há uma segregação, eles vivem em guetos?
houve várias ondas [de imigração]. houve uma primeira onda de escravos, houve uma onda de pessoas que fugiram da independência e iminente guerra civil, outras que fugiram durante a guerra civil. e também pela crise, a falta de oportunidades em angola. depois, com a crise de portugal, deixou de haver esse fluxo mas muitas pessoas já haviam mudado. a minha família é um exemplo disso: foi alocada numa zona de subúrbio, então se acaba vivendo às margens da cidade grande e você tem um contato muito grande com o centro e com o setor mais intelectualizado da sociedade. você acaba por andar numa zona em que o kuduro já existe há muito tempo, em que a fusão entre essas coisas já existe há muito tempo. o queer pop, por exemplo, já existe há muito tempo mas demora um pouco mais para chegar ao centro da cidade.

 é quase igual em muitas cidades no mundo. acho que, no caso de nova york, o bronx era visto como subúrbio. então é um pouco isso. culturas suburbanas algum dia aparecem numa revista mais sofisticada, um jornalista mais acadêmico ou um selo com uma visão de marketing mais agressiva consegue traduzir aquilo de uma maneira com que as pessoas aceitem a música de modo válido e sem condescendência. e isso vai acontecendo. normalmente essas musicas [do subúrbio] são vistas como marginais, não só no sentido de estarem à margem mas também porque são vistas como menos sérias, mais duvidosas, associadas à coisas socialmente menos aceitáveis. a segregação acontece muito no sentido intelectual, mais do que econômica. não sei se tá relacionada ou não, mas intelectual acontece e econômica também. às vezes mais do que o preto e o branco. no caso de portugal e em angola isso também acontece. acho que é mais uma questão social e de falta de cultura pra perceber que aquela música tem tanto de sofisticado quanto a música que chega a londres ou nova york.

mas isso também é uma questão humana. nós temos mais dificuldade em aceitar que nosso amigo é genial do que um tipo qualquer que vive nos estados unidos. a segregação que existe é sempre da ignorância das pessoas que vivem mais no centro, no shopping center e no meio do idealismo acadêmico e intelectual, que é muito distante geograficamente e até em termos de afeto; não têm contato com as pessoas que vivem mais fora da cidade. então essa ignorância, essa distancia afetiva vai provocar sentimentos que não são bons. têm vários nomes: alguns podem chamar racismo ou elitismo ou outros ismos. mas acho que tem sempre a ver com ignorância e desconhecimento, que provoca medo e falta de amor. quando há afetos, acabou. isso tá acontecendo um pouco nos últimos anos. as músicas que tu ouves mais nas cidades, nos bailes… o kuduro não tanto, mas a kizomba e o afrohouse são populares.

e como é a circulação e recepção do kuduro e kizomba em portugal? isso toca nas rádios, está na grande mídia?
kuduro não toca na rádio nem em portugal nem em angola. começou a tocar mais quando foi visto como possível fenômeno internacional, quando de repente uma banda como os buraka conseguiram traduzir o kuduro para outra coisa que já não era kuduro — mas era interpretado como kuduro e que as pessoas fora de angola conseguiam entender. o kuduro no seu estado mais bruto, em seu estado mais tradicional ou mais étnico, é visto como subversivo pelo simples fato de não ser corrente maior, não ser mainstream. a produção nem sempre é de estúdio profssional. é visto com alguma distância, então não toca muito na rádio. todo percusso de um artista de kuduro é feito em circuito undeground, através de disco pirata pra passar no candongueiro (que é o taxista daqui). é muito forte essa amizade entre o pirata e o produtor de música. o pirata não é um inimigo: é um promotor de música. em portugal não é muito assim, funciona mais pela partilha na internet mesmo. hoje em dia já tem eventos num clube ou outro, como a noite da príncipe ou a enchufada, que são selos que apresentam noites independentes sem ser num contexto africano. mas ainda não se pode dizer que há muito.

 a kizomba sempre foi música de subúrbio, mas agora tá sendo mais consumida fora de lisboa e fora de luanda. há um mundo que começa a se interessar — por mérito dos selos e jornalistas e algumas rádios — por esta forma diferente de fazer música de dança. a kizomba é mais transversal porque é pra dançar junto, é uma dança mais lenta, social, permite o engate. o kuduro, não: é uma expressão individual. é outro tipo de coisa, quase como uma catarse [abaixo]. a dança por si só, pra quem não conhece, parece agressiva. e não tem nada disso, mas como a dança e musica são a mesma coisa, nesse caso então não tem muita aceitação. ainda assim, se tu for olhar pras listas da venda de disco de portugal, no top 10 tem sempre uma ou duas compilações de kuduro, uma ou duas de funaná.

você também conhece muito de música brasileira. como a cultura do brasil chega até lá e como você enxerga as relações entre angola, portugal e brasil?
o brasil é autocentrado em música, como os estados unidos, como a inglaterra e os paises que são grandes economias — sejam grandes, pobres ou não. em portugal tu cresce de maneira diferente, em angola tu cresce a olhar pro brasil. você liga a televisão e tudo é dublado em pt-br. você assiste a globo! eu cresci vendo o sítio do pica-pau amarelo, vendo novelas. então a música brasileira pra mim não é nem estranha nem familiar: é algo natural. cresci ouvindo os grandes cantores brasileiros, dos mais comerciais aos mais trabalhados, como a gal costa, gilberto gil… todos eles tiveram lugar. nós crescemos a ouvir isso tudo, então eu acho que influencia sempre, até pelo brasil ter mantido viva uma cultura angolana e africana fora da áfrica, às vezes sem ter consciência disso. a própria capoeira e instrumentos como a cuíca e o berimbau são africanos, que foram mantidos mais vivos aqui do que em angola ou outros países.

eu estava pensando que esse reprocesso das matrizes culturais africanas acontece também fortemente aqui no brasil. você talvez conheça o metá metá, por exemplo. eu vejo uma relação muito análoga entre eles e você e os demais djs de portugal-angola, só que o metá faz uma mistura com o punk rock…
sim, eu conheço o metá metá. gosto muito deles. como eu disse, acho que isso é uma ideia universal e que já existe há muitos anos e que as pessoas acabam por apanhar isso do ar. muitas vezes nem éalgo  objetivo, mas é como uma necessidade de se retomar ligações que foram perdidas com o tempo. há uma ligação fortíssima, um triângulo entre angola, portugal e brasil, principalmente essa parte norte/nordeste. angola e nigéria têm uma relação histórica de sangue com essa geração do brasil, que foi quase interrompida, os dois separados, uma história interrompida. de minha parte, estou a vivê-la sempre, mas falta aqui. acho que o brasil tem todo o potencial pra ser o que faz isso acontecer de uma maneira mais consistente. o brasil é o maior de todos os paises lusófonos porque é autosuficente em termos culturais e porque tem uma vivência nesse tipo de mistura de musica, apesar da ditadura. lisboa e luanda ainda não são muito abertas, então cabe ao brasil fazer os artistas circularem.

era bom o brasil fazer mais do que faz (porque já faz) e integrar ainda mais esse circuito. há aqui [no brasil] um grande problema: as viagens de avião são muito caras. mas a ligação é como vizinho. portugal está mais proximo do brasil do que da espanha. o brasil está mais proximo de portugal e angola do que do méxico ou do peru, uruguai, argentina. não é só lingua, são as histórias. algumas não tão bonitas, até mesmo horriveis, mas que nos unem e nos mantém. nós temos algumas informações e hoje em dia com a internet  essa ligação se transformae em algo que é obvio, já nao é uma coisa tão abstrata. você começa a ver ate bandas do rio de janeiro e de são paulo, como o metá metá, a fazerem isso. mais ao norte, já acontece desde a nação zumbi, dj dolores… é por aí.

Batida-Mpula-Xe?

*ggabriel albuquerque é repórter do jornal do commercio, de recife, e escreve no blog o volume morto: http://www.ovolumemorto.com/

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