Cafezinho 5 minutos – comentários diários de Miguel do Rosário

Temer faz do Brasil uma república de bananas: da política vira-lata ao preço do pré-sal

Por Tadeu Porto

29 de julho de 2016 : 20h43

Por Tadeu Porto*(@tadeuporto), no site Diálogo Petroleiro

Alguns fatos se apresentam como uma facada, causando feridas difíceis de estancar e superar. É o que podemos verificar, por exemplo, hoje com a notícia de que a Petrobrás decidiu, deliberadamente, abrir mão de um campo altamente produtivo do Pré-sal por míseros 2,5 bilhões de dólares.

Os números podem até parecer positivos a priori, todavia, a título de comparações, a nossa estatal vendeu a sua prima norueguesa um pedaço da maior descoberta recente do mundo do petróleo por um preço que se equivale a cifras presentes em estádios esportivos pelo mundo. Em outras palavras, se a Petrobrás quisesse comprar a vista os estádios Stade de France e Wembley ela poderia até conseguir,  mas sem ficar com troco algum.

Estamos falando de valores tão baixos que nos proporciona comparar o mercado de óleo e gás, principal fonte de energia do mundo, com o mercado do futebol (não me estranharia ver Temer trocar dois poços do pré-sal para ter o Neymar de volta).

Para se ter uma ideia do péssimo negócio feito pela maior petrolífera da América Latina [pelo menos por enquanto, a se considerar o andar da carruagem] vamos comparar os números de produção do pré-sal com o valor pago:

Consideremos o valor do barril U$ 45,00 (cotação de 29/07/16 estava U$ 46,17); Suponhamos, ainda, que a Statoil gaste quase o dobro da Petrobrás para produzir na bacia de Santos, ou seja, U$15,00. Por fim, tomamos com exemplo a produção de um poço no campo de Lula, o 7LL27RJS (que vou chamar carinhosamente de LuLinha), que há mais de um ano mantém a média de produção próxima a 33 mil barris de óleo por dia.

Oras, com um valor líquido de U$30,00 o barril, se a empresa escandinava furar um único poço do potencial do LuLinha ela conseguirá ganhar, aproximadamente, U$ 1 milhão por dia. Consequentemente, com 2500 dias – ou pouco menos de sete anos – a companhia pagaria o que gastou para ter o campo com apenas um único poço mantendo seu potencial.

Não fica difícil abstrair, ainda, que se a Statoil conseguir a não difícil tarefa de furar sete poços do potencial do LuLinha (reparem que no boletim de produção mensal da ANP, os cinco primeiros poços possuem produção acima dos 30mil barris de óleo por dia) ela paga o investimento com um ano.

Bom, claro que muitos céticos vão duvidar  dessa “conta de papel de pão” – apesar de eu a ter feito na calculadora do Google – e que empresa nenhuma faria essa besteira sem um planejamento sério. Em primeiro lugar, eu incentivo fortemente esse tipo de indagação, afinal, sou a favor de uma educação crítica em que fatos são constantemente questionados (conhecida hoje em dia por escola com partido). Em segundo lugar, argumento que fiz uma previsão conservadora dos números envolvidos, pois não considerei, por exemplo, o preço do gás que o campo pode proporcionar. Por fim, por mais que consideremos os impostos envolvidos no mercado – podemos fazer também outra previsão conservadora e dizer que os encargos fiscais dobrariam o custo – ainda sim a Statoil precisaria de cinco anos de produção para pagar, com muita folga, o investimento que fez.

Vale ressaltar, nesse sentido, que esse tipo de transação faz parte de uma política vira-lata e entreguista que visa os retornos de curto prazo dos Royalties – que a exploradora vai ter que pagar – e abre mão da soberania nacional e, principalmente, de uma vantagem estratégica na concorrência na disputada e acirrada geopolítica do petróleo (ou alguém acha aí inteligente deixar os noruegueses aprenderem a explorar abaixo da camada pré-sal, com centena de outros mares no mundo para explorar?).

Ou seja, o que o PMDB de Temer, Pezão, Renan e cia querem é colocar a mão numa receita fiscal mais facilitada abrindo mão de uma política mais estadista e de longo prazo, que gere empregos, tecnologia e conhecimento genuinamente nacionais.

Que o Brasil tinha virado uma república de bananas com um golpe tão absurdo e nefasto todos nós, a essa altura, já sabíamos. A apunhalada nas costas vem, justamente, da descoberta que nossas riquezas serão negociadas a preço dessa iguaria que tão bem acompanha um açaí.

 

Tadeu Porto é colunista do cafezinho e diretor do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense.

 

Tadeu Porto

Colunista do Cafezinho e diretor da Federação Única dos Petroleiros e do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense.

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17 comentários

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Elena Osawa

31 de julho de 2016 às 08h00

Aposto como rolou propina para “alguéns” para vender tão barato o nosso pré-sal. E o povo ó…. chupando o dedo…

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Gileno Araújo

31 de julho de 2016 às 07h28

Vejam como é a mídia… Falaram tão mal de Pasadena, dizendo que era um mal negócio… Uma incompetência!… E o que é isso aí?

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Eduardo Albuquerque

30 de julho de 2016 às 13h03

Creio que não faz sentido discutir quantos milhoes de dólares valem um platafoma. A meta deve ser apenas uma: derrubar a quadrilha que tomou o poder, Temer é apenas o porteiro, o primeiro a ser atropelado.

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Sandra Francesca de Almeida

30 de julho de 2016 às 08h46

Bye, bye, BraSil! Welcome, BraZil!

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MZ

30 de julho de 2016 às 08h10

Pelo gigantismo do bloco, a maior coluna de petróleo entre os poços do pré-sal, com mais de 400 metros de profundidade, um poço é muito pouco, se chegarem a dez poços, pela mesma conta em menos de um ano estará pago. Quanto a Petrobrás gastou na exploração até achar o petróleo neste bloco? Retire este valor da venda e o prejuízo torna-se maior.
Só mais um detalhe para reforçar o texto, nossa estatal está vendendo para outra estatal.
Os empregos que seriam de brasileiros, tanto na exploração, quanto nas encomendas de conteúdo nacional, serão importados. Um emprego na indústria de base gera novos empregos no setor secundário e terciário. Este o maior problema em ignorar o valor estratégico da Petrobrás na economia nacional.

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Italo Rosa

30 de julho de 2016 às 06h55

O atual governo não tem legitimidade para alienar o Pré-Sal, porque
o governo age, em uma democracia, como delegado do povo, que o elegeu. Não subsiste o
argumento, que se lê com freqüência, de que Temer figurava na chapa
eleita. Por duas razões: a primeira é a mais importante: o programa de
governo que foi ungido por 54 milhões de votos não incluiu o
desmantelamento da Petrobrás; o que se pretende é ignorar a soberana
vontade popular (está lá na Constituição que o poder emana do povo e em
seu nome será exercido), que não discutiu a desejabilidade ou
conveniência de uma decisão dessa monta. Vai ficar na mão de meia-dúzia
uma decisão que pressupõe um debate prévio, pelo menos se aspiramos ser
um país politicamente maduro? A segunda é que os motivos alegados
para justificar o afastamento da Presidenta (e lembre-se que a
relevância deles tem sido discutida), se aceitos pelo Senado, não
justificam uma mudança de programa de governo. As propostas do governo
Temer são as que foram derrotadas em quatro eleições consecutivas! É um
estelionato eleitoral. Temer foi eleito vice em uma chapa com um
determinado programa. É ilegítimo renegar esse programa e implementar o
que foi derrotado nas urnas. Agora, com uma câmara em que apenas cerca
de trinta parlamentares foram eleitos nominalmente (os demais tomaram
carona nos puxadores de votos), um judiciário partidarizado, um Supremo
omisso ou conivente, uma máquina de manipulação igualzinha à de Goebbels
na Alemanha nazista, de nada adianta argumentar. São os senhores de
engenho que continuam decidindo nossos destinos, em concluio com os
imperialistas e seus vassalos daqui.

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Italo Rosa

30 de julho de 2016 às 06h46

Criminoso, um assalto à riqueza do país, ao seu futuro. Como brasileiros podem ser tão canalhas a ponto de trair os interesses nacionais em favor de empresas estrangeiras? É só mediocridade ou é corrupção, eles que tanto falam nela, e praticam esse crime de lesa-pátria contra a soberania nacional? O golpe foi consumado justamente para possibilitar o saque do Pré-Sal. É um absurdo, é revoltante ver a cara cínica desses golpistas vendendo nosso país. Eles não têm legitimidade para tomar tais decisões, que fazem parte de um programa derrotado nas urnas quatro vezes seguidas. Por isso deram o golpe, com o beneplácito dos imperialistas. Mentes colonizadas, lacaios do imperialismo.

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Gileno Araújo

30 de julho de 2016 às 05h51

Ocorrem atualmente os lances decisivos na guerra de informação que se iniciou com o advento da internet, para competir frontalmente com a informação unidirecionada e monocórdica da mídia empresarial.

A vitória do golpe no Brasil de 2016 será um espasmo dessa mídia decadente, e que é inegavelmente destinada ao ocaso, quando a internet mostrou ao povo como se informar sobre os dois lados da notícia. Mas uma boa parte da população, em torno de 50%, quis continuar seguindo a notícia como é passada pelo conglomerado midiático com mais sede de poder que há na face da Terra. O que acontecerá depois disso? Uma regressão a um modus vivendi semelhante aos anos 60? Ou a explosão da vontade dos que têm sede e fome de justiça? Aguardamos ansiosamente o desdobrar dos acontecimentos. Domingo 31 de julho, tem ato Fora Temer em todo o Brasil.

As manifestações de quem não quer ver a nação regredir a um padrão de filme estadunidense dos anos 40 precisam contagiar o povão.

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    Jadir Rocha

    31 de julho de 2016 às 08h40

    Dia de abertura dos Jogos Olímpicos será dia de protestos contra o golpe. Serão manchetes em todo o planeta. Fora Temer e O povo não é bobo abaixo à rede Globo.

    Responder

      Rafael Carvalho e Lima

      31 de julho de 2016 às 11h09

      Vc acha que o exercito está nas ruas e capitais brasileiras caçando Terroristas? está lá p achacalhar os brasileiros q(tentarem) ousarem levantar a voz contra o golpe.

      Responder

Gerson

29 de julho de 2016 às 22h48

Se soma a isto a venda da BR, que é a marca que a Petrobrás é conhecida mundialmente. Em momentos que o barril está com o preço relativamente baixo, o maior lucro vem do refino e da venda do produto acabado. Exatamente estas áreas, junto com o pré-sal, que os golpistas estão atacando.

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Maria Thereza G. de Freitas

29 de julho de 2016 às 22h27

isso é CRIME!

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R.alonso

29 de julho de 2016 às 21h46

Privataria 2 o retorno….

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maria clara

29 de julho de 2016 às 21h37

isso sem contar com os possíveis desastres ambientais que podem advir de uma empresa sem tradição em águas profundas e sem compromisso com a terra em que explora petróleo.! Deus nos guarde pq se depender de nossos entreguistas estamos fudidos mesmo!! isso mesmo!! Rio Doce que o diga!! né Minas Gerais. Brasileiro é otário mesmo.. só falando assim..! ô povinho!!

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francisco niteroi

29 de julho de 2016 às 21h28

Tadeu

E nós ficamos reclamando aqui pra quem já sabe da coisa, ou pra trolls que enchem o saco.

A mídia esquece.

Temos que inundar as redes com memes de fácil comunicação, comparar lava-jato com as perdas, e as perdas do Brasil.

E, claro, entrar na justiça.

Ação popular, etc.

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    Maria Thereza G. de Freitas

    29 de julho de 2016 às 22h27

    É CRIME!

    Responder

    Italo Rosa

    30 de julho de 2016 às 07h05

    Correto, embora com essa justiça venal, a serviço dos interesses dos poderosos e do imperialismo, as perspectivas de êxito sejam poucas.

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