Não é tiro no pé. O golpe pode dar muito dinheiro ao ‘Brazil’

Brasília - DF, 01/08/2016. Presidente em Exercício Michel Temer durante cerimônia de anúncio de abertura de mercado para carne bovina brasileira. Foto: Beto Barata/PR

Foto: Beto Barata/PR

Não é tiro no pé. É o “brazil”

por Marcelo Zero

O ótimo artigo da jornalista Eleonora de Lucena, no qual se afirma que as nossas elites estariam dando um tiro no pé ao apoiar o golpe que conduzirá o país a um grande atraso social, político e econômico, causou grande impacto.

Com efeito, qualquer pessoa medianamente informada está se perguntando como essas “elites” podem ser tão cegas a ponto de apostarem nesse enorme retrocesso social e político? Como pode o sacrifício da própria democracia ser uma “saída” para a crise política? Como pode o retorno da nossa grotesca desigualdade histórica ser uma “ponte para o futuro”? Como pode a associação subalterna ao capital internacional e à única superpotência do planeta ser uma afirmação dos interesses do Brasil?

Mas a questão não é tão simples assim.

Em primeiro lugar, o capitalismo é um sistema “cego”, intrinsecamente desequilibrado, que gera inexoravelmente desigualdades e contradições. O mercado, essa reificação que justifica tudo, nada mais é que um bando anômico de lemingues vorazes e míopes, sempre disposto a cometer suicídio coletivo. A lógica da acumulação é cega, não tem plano, não tem nacionalidade, não tem equilíbrio, não tem estratégia de longo prazo. É por isso que o capitalismo é um sistema de crises periódicas, frequentemente profundas e destrutivas. É por isso que esse sistema gera, de forma reiterada, bolhas especulativas descontroladas.

Assim, faz parte da natureza do capitalismo atirar sistematicamente contra os próprios pés.

Contudo, nos países mais desenvolvidos, especialmente os da Europa Ocidental, conseguiu-se estabelecer, ao menos durante algum tempo, um controle político desse sistema, que lhe conferiu algum equilíbrio, civilidade e capacidade de planejamento. Principalmente após a Segunda Guerra Mundial, os países dominados pela socialdemocracia conseguiram distribuir renda, construir um Estado do Bem-Estar, afirmar seus interesses nacionais, planejar seu futuro e evitar crises profundas e duradouras. Os lemingues foram domesticados e controlados com políticas keynesianas, sindicatos robustos de trabalhadores, e um sistema político que conseguia representar, ainda que com assimetrias, os interesses da maior parte da sociedade.

Essa “Era de Ouro”, como a denomina Hobsbawn, começou a ser destruída a partir da década de 1980 com as políticas neoliberais, que quebraram a espinha dorsal dos sindicatos, reduziram os controles democráticos sobre os mercados, deram autonomia aos bancos centrais, desregulamentaram o capital financeiro em nível mundial, diminuíram as funções do Estado, aumentaram a influência do poder econômico sobre o poder político e impuseram sua hegemonia no cenário internacional.  Os resultados maiores foram o grande aumento das desigualdades e a “financeirização” e desregulamentação da acumulação do capital. Soltaram os lemingues. “Atiraram nos pés”.

A regressão econômica, social e política foi avassaladora. Piketty e outros mostram que o capital deste século, novamente desregulamentado, voltou a ter os grotescos níveis de desigualdade de renda e patrimônio que tinha ao final do século XIX. A presente crise, a pior desde 1929, é consequência direta dessas políticas neoliberais desregulamentadoras e concentradoras.  Ironicamente, o país que mais se desenvolveu nas últimas décadas e que melhor resiste à crise é a China, que tem o que a The Economist chama apropriadamente de “capital confinado”.

Atualmente, a hegemonia econômica e ideológica dessa acumulação desregulamentada é, com nuances, praticamente mundial. O “tiro no pé” é internacional, embora doa mais nos mais fracos, como a Grécia.  No Brasil, porém, há um sério agravante. Ao contrário do que aconteceu em vários países desenvolvidos, principalmente europeus, aqui nunca tivemos de fato uma “burguesia nacional”, uma elite progressista, capaz de liderar um processo robusto e continuado de afirmação dos interesses do país no cenário mundial, incorporar as massas ao mercado de consumo, promover a cidadania social e acolher os interesses de todos os segmentos sociais na representação política.

Nosso capitalismo nunca teve uma Era de Ouro. Nosso capitalismo sempre foi de chumbo: dependente, excludente, marginalizador, autoritário e, sobretudo, extremamente violento. Nunca produziu uma utopia, uma “revolução burguesa”. Sempre foi distópico.  Nunca gerou um Brasil com b maiúsculo e s. Ficou apenas no “brazil”.

Tivemos, é claro, espasmos de verdadeiro progresso. Getúlio, odiado pelas elites, foi quem implantou a indústria de base e criou a Petrobras. Juscelino, também muito combatido, foi quem implantou a indústria automobilística. Jango caiu porque, entre outras coisas, tentou fazer uma reforma agrária.

Ironia das ironias, foi nos governos do Partido dos Trabalhadores que o país chegou mais perto de ter algo parecido a uma “revolução burguesa”, a um capitalismo mais inclusivo, democrático, capaz de eliminar a pobreza, distribuir renda de modo sistemático e produzir um ciclo de desenvolvimento relativamente autônomo.  Durante um breve período, parecia que o país teria um ciclo de longo prazo de verdadeiro desenvolvimento para todos os seus cidadãos, parecia que a nossa Índia migraria para nossa Bélgica, parecia que o “brazil” viraria Brasil.

Bastou, entretanto, que a crise mundial se agravasse, que o ciclo das commodities acabasse, o crescimento minguasse e as taxas de lucro se reduzissem para que o “brazil”, que havia somente tolerado (mal) o PT e o Brasil, mostrasse de novo suas velhas garras e passasse a exigir o retrocesso.

O golpe veio para destruir tudo. Não veio apenas para acabar com a democracia política. Veio para acabar com nossa incipiente democracia social. Veio para acabar com a saúde pública, a educação pública, a previdência pública e os programas sociais. Veio para acabar com os direitos trabalhistas e previdenciários. Veio para tirar os pobres e os negros das universidades. Veio para tirar as crianças pobres da escola e devolvê-las às ruas. Veio para tirar os pobres do orçamento. Veio para acabar com a soberania e o patrimônio público. Veio para entregar tudo o for possível: pré-sal, terras, empresas públicas, reservas indígenas e tudo o que der lucro. O golpe veio para vender o Brasil e restaurar o “brazil”.

É tiro no pé? Do ponto de vista dos que apostaram na construção, no longo prazo, de um verdadeiro Brasil lógico que é. Mas não do ponto de vista e dos interesses do “brazil”.

O capital nunca foi sábio, mas sempre foi astuto.

O capital financeiro, os rentistas, os sonegadores da FIESP associados ao capital internacional, os exportadores de soja, os grupos políticos fisiológicos etc. sabem que o golpe pode lhes dar muito lucro. Privatizações, venda do patrimônio público, taxas de juros estratosféricas, abertura indiscriminada da economia, subida do desemprego, diminuição dos rendimentos do trabalho e redução dos direitos sociais podem ser muito lucrativas. A desigualdade, ainda que irracional e insustentável no longo prazo, pode restituir as taxas de lucro ao “brazil”. Golpe pode dar dinheiro. Em 64 deu tanto que deu até para pagar a propina aos torturadores.

Nesse sentido, o golpe e seu retrocesso monumental têm a astúcia rasa dos “cunhas”, o cinismo moralista dos sonegadores da FIESP, a desfaçatez míope dos que sempre venderam o país, a subserviência obtusa dos que querem inserir-se nas “cadeias mundiais de valor” como supridores de matéria-prima e mão de obra barata. O “brazil” do golpe quer um Brasil bem baratinho para vendê-los aos seus sócios internacionais.

A resistência ao golpe não virá nunca dessa corja imunda de saqueadores, entreguistas, exploradores, sonegadores e cínicos. A democracia não será salva pela assembleia-geral de bandidos reunida no Congresso e tampouco pelas classes médias cooptadas ideologicamente pelo discurso hipócrita e neoudenista das classes dominantes e sua mídia falseadora.

Essa associação de ratos vorazes, de lemingues celerados, de punguistas da Nação, provinciana, inculta, preconceituosa, insensível às necessidades do povo e cuja única utopia é Miami não se importa em destruir o país e sua democracia, desde que possa pilhar impunemente as suas ruínas. Eles não dão somente tiros no pé, eles dão tiro no coração do Brasil para poder vender o seu cadáver. Eles sempre viveram do escracho ao país.

A resistência só poderá vir de baixo, dos trabalhadores, dos pequenos agricultores e comerciantes, dos negros, dos índios, das mulheres, daqueles que experimentaram o gostinho de serem cidadãos depois de 500 anos de opressão, daqueles que saíram do Mapa da Fome e de todos aqueles que vão sentir na carne as consequências da falta de democracia, de direitos, de empregos, de salários, de comida, de oportunidades e de respeito.

Mas o fato é que a luta de classes não está suficientemente escancarada nas ruas. Se estivesse, o golpe não passaria. A resistência ainda é débil e fragmentada. A mídia golpista falsifica pesquisas e manipula dados para convencer que a coisa está melhorando e os investidores pararam de apostar contra o governo, como faziam freneticamente até Dilma ser afastada. Os bandidos do Congresso agora desistiram das “pautas-bomba” e decidiram contribuir para a governabilidade. Por enquanto, o “brazil” parece estar ganhando do Brasil.

Lula disse que os pobres são solução, não problema. O problema é que os pobres foram apenas solução econômica, foram apenas consumidores. Os pobres serão realmente solução, solução definitiva, quando forem incorporados de fato ao sistema de representação política e conseguirem arejar os miasmas fisiológicos e conservadores do nosso Estado privatizado. Faltou o essencial: transformar a emancipação econômica e social em emancipação política.

Se isto acontecer, o Brasil salvará o Brasil.

Marcelo Zero é sociólogo, especialista em relações internacionais e assessor da Liderança do PT no Senado

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