Bahia: Refinaria privatizada provoca desabastecimento de Gás de Cozinha

Familiares de detentos ficaram desesperados por informações

Barbárie sob a fumaça

Por Luis Edmundo

03 de janeiro de 2017 : 14h27

Espiando o poder: análise diária da grande imprensa 

Foto: Michael Dantas/Reuters

Por Luis Edmundo Araujo, colunista do Cafezinho

O assassinato de 56 presos no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) expõe mais uma vez a deterioração do superlotado sistema prisional nacional e ganha as manchetes do Globo, da Folha e do Estado de São Paulo, os dois primeiros com a foto aí de cima. Colunistas opinam, gráficos coloridos explicam, especialistas analisam no mínimo de duas páginas inteiras gastos com o tema nos principais jornais do País e não há, em nenhum deles, uma linha sequer informando cabalmente, numa frase apenas que fosse, que o Compaj é administrado pela iniciativa privada. E não foi só isso o que foi confiscado aos leitores dos principais representantes da mídia familiar, corporativa, que esquadrinhou a situação dos presídios sem dizer quais são públicos ou privados e detalhou guerras entre facções sem fazer qualquer relação entre a maior delas, tida como principal agente provocador da barbárie, e o partido que governa há 22 anos o estado onde nesse período nasceu e se consolidou o chamado Primeiro Comando da Capital (PCC).

Lá se vão quase 11 anos do mês (maio de 2006) em que o PCC aterrorizou São Paulo com seguidos ataques contra forças de segurança e alvos civis, que chegaram a se espalhar Brasil afora. O governador era Cláudio Lembo (DEM), vice de Geraldo Alckmin (PSDB), que disputava naquele ano o Planalto com o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Hoje, um dos analistas com chamada de capa no Estadão, Marcelo Godoy afirma, no artigo “Reação ao monopólio”, que a “guerra de facções é reação de comandos locais à tentativa do PCC de impor monopólio no mercado da droga”.

Godoy completa a informação na página interna contando que “essa estratégia dos paulistas começou no fim de 2007”, menos de dois anos depois dos ataques generalizados a delegacias, postos da Polícia Militar, agências bancárias, quartéis de bombeiros e demais alvos no terror instaurado. Segundo ele, a guerra entre as organizações criminosas começou quando “as facções regionais do Norte e do Nordeste se uniram ao Comando Vermelho do Rio para formar um cartel e importar a própria droga”.

Ao lado de Godoy na primeira página, Eliane Cantânhede fala em “Banho de sangue” logo no título do texto em que “o massacre no presídio de Manaus pode ser tudo, menos uma surpresa nesse caos”. Surpresa, para ela, talvez seja a informação divulgada pelos Jornalistas Livres, reverberada por Fernando Brito, no Tijolaço e não citada nem no Estado nem na Folha de São Paulo, nem no Globo também.

A página dos Jornalistas Livres informa, na matéria assinada por Cesar Locatelli e Laura Capriglione, que o governador do Amazonas, José Melo (Pros), firmou em 2015 um “contrato de R$ 205,9 milhões para concessão de cinco unidades prisionais por 27 anos, prorrogáveis até o limite de 35 anos”. O contrato é com o “Consórcio Pamas – Penitenciárias do Amazonas, a Umanizzare Gestão Prisional e Serviços e a LFG Locações e Serviços Ltda”.

O texto diz ainda que “a Umanizzare, que em 2014 recebeu do governo amazonense R$ 137.284.505,62, prometia, como o seu nome já diz em italiano, ‘Humanizar’ os detentos”, e que a empresa, ao assumir a unidade na qual, ontem, presos foram decapitados, também esquartejados, tinha “o intuito de empregar diversas práticas e ações já desenvolvidas em outras unidades prisionais geridas por ela e que amenizam a condição de cárcere do detento”.

As informações divulgadas pelos Jornalistas Livres vêm insinuadas, apenas, no pé da matéria do Valor, abaixo do entretítulo em negrito que fala em “R$ 900 milhões para entidades”. “O governador foi indagado sobre os pagamentos de cerca de R$ 900 milhões entre 2010 e 2016 para duas entidades de direito privado que passaram a administrar presídios do Amazonas”, informa o texto, que em seguida vem com a justificativa de José Melo para a medida, algo sobre garantir a comida dos detentos, até que sem nome de empresa nem contrato específico, a matéria termina.

No Poder 360, Tales Faria entrevista o senador Eduardo Braga (PMDB-AM), que aponta a “’ponta de um iceberg da verdadeira guerra civil’ por que passa o Brasil.” No 12o parágrafo do texto, o autor chega perto de falar em privatização mas nada afirma, só dá a entender ao dizer que “agentes penitenciários da empresa terceirizada Umanizzare e 74 presos foram feitos reféns”, e que “ao menos seis deles foram decapitados.”

Eduardo Braga lembra a Tales que “nos últimos dias, teve o caso do assassinato do ambulante na estação do metrô de São Paulo, do arrastão na via Dutra  –principal via de ligação entre RJ e SP– e do tiroteio contra passageiros do BRT no Rio de Janeiro”, para então perguntar: “isso é ou não é uma guerra civil?” E se o Poder 360 não cita partidos nem nomes, nem informa sobre a privatização do sistema, Braga não lembra da chacina de Campinas, na qual não foram expostas, pela chamada grande mídia, as preferências políticas do assassino do filho, da ex-mulher e de mais 10 pessoas.

A Folha publica duas páginas sobre a matança em Manaus, ambas com gráficos coloridos, e afirma na capa que o Compaj “abrigava 1224 homens, o triplo da capacidade”. O Globo conta na abertura da matéria que “a unidade onde ocorreu o massacre, a maior do estado, já estava em condições ‘péssimas’ em outubro de 2016, segundo inspeção do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).” E nenhum dos dois jornais revela quem é o maior responsável, hoje, pelo presídio, no caso o Consórcio Pamas, cujo nome não é citado em espaço algum da grande mídia.

Marcelo Godoy e Eliane Cantanhêde também não falam nada disso, assim como não escrevem um nome sequer dos quatro últimos governadores paulistas, desaparecidos também da coluna de Merval Pereira que, sob o título “A política de sempre”, começa criticando Marcelo Crivella, depois João Doria, para enfim falar da barbárie, dizendo que “a ideia de que essa é uma questão estadual está superada pelos fatos”.

“Se o governo federal e as Forças Armadas não entrarem com tudo no combate a essas facções, o país estará à mercê dessas gangues, cada vez mais fortalecidas pelo tráfico internacional de drogas”, completa Merval. E sem falar em privatização nem em governantes tucanos do estado do PCC, o colunista alarma, prevê um futuro sombrio sem o “combate a essas facções”, sem, por consequência, mais prisões que atulharão o sistema prisional, só aumentando o inferno atual.

Nos jornais, especialistas decretam a falência do sistema, dados de prisões abarrotadas são divulgados sem que em lugar algum sejam feitas as perguntas que Fernando Brito faz no Tijolaço, se “afinal, não vibramos com a prisão, não consideramos a cadeia o sinônimo de Justiça e o caminho da realização dos desejos coletivos? E não achamos que prender de menos, e não demais, é a fonte de nossos problemas”. Fausto Macedo, em seu blog no Estadão, também não faz essas perguntas. Sobre o massacre de Manaus, vem com a informação de que o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, outro dia preocupado em erradicar a maconha da América do Sul, agora “anuncia núcleos de inteligência para monitorar presídios”.

Nada sobre a condição desses presídios, se privatizados ou não. Nada também sobre a condição pregressa do atual ministro, que tornou-se conhecido como uma das, digamos, lideranças no setor de Segurança Pública do berço do PCC. Fausto, no entanto, informa em outra nota que “em 3 anos, Operação Lava Jato chegou a 37 países”. A informação é chamada de capa no Estadão e mostra o avanço internacional da operação que prendeu indiscriminadamente sem provas, antes das condenações inclusive.

Na Folha Fábio Zanini pede “Menos, Moro”, no título de seu artigo, no qual afirma, no subtítulo, que “Lava Jato deve ficar mais quente, e Moro faria bem se ficasse mais frio”. Zanini cita derrapadas de Moro como a nota de agradecimento em março, na maior manifestação contra a então presidenta Dilma Rousseff, elogiando, entre outras coisas, o “trabalho robusto” do Ministério Público Federal, “parte nas ações que ele tem de julgar de forma isenta”.

O articulista também lembra da resposta de Moro ao artigo do físico Rogério Cesar de Cerqueira Leite na Folha, em que o juiz sugeriu que se evitasse a publicação de opiniões panfletárias. “Em outros tempos, o nome disso seria censura prévia”, afirma Zanini, que conclui o texto temeroso, afirmando que “a principal ameaça à Lava Jato, maior até do que um acordão no Congresso, é a perda de credibilidade de seu principal porta-estandarte”.

Enquanto isso, no texto em que pergunta, no título, “por que não abrimos logo campos de concentração”, Fernando Brito lembra que, no país das prisões midiáticas, tornadas explícitas por Moro e cia, “estamos em marcha batida para termos um milhão de pessoas presas. O que, convenhamos, é prender em escala hitleriana”.

Luis Edmundo

Luis Edmundo Araujo é jornalista e mora no Rio de Janeiro desde que nasceu, em 1972. Foi repórter do jornal O Fluminense, do Jornal do Brasil e das finadas revistas Incrível e Istoé Gente. No Jornal do Commercio, foi editor por 11 anos, até o fim do jornal, em maio de 2016.

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1 comentário

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Almanakut Brasil

09 de fevereiro de 2017 às 14h51

A “pau-mandada” Eliane Cantanhêde elogiou a ex-terrorista na Globo News, no dia 08/02/2017, citando a luta contra a “ditadura”, sem citar as ações da quadrilha vermelha!

Ele deveria tomar umas aulas com a blogueira cubana, sobre ditadura e jornalismo sob repressão!

Tributo à Yoani Sánchez, blogueira hostilizada no Brasil por ordem de CUBA!

VerdadeBRdemocracia – 23/02/2013

https://www.youtube.com/watch?v=YroOBeQ8EsM

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