Análise da reunião ministerial de Bolsonaro

A internacionalização do yuan e a desdolarização global

Por Tulio Ribeiro

08 de outubro de 2017 : 06h06

(Imagem: CGTN)

A definição de quais moedas deve-se acumular a riqueza é uma das questões mais tangentes e polêmicas da atualidade. Será que o movimento das transações comerciais apontam para um modo de diversificar as moedas que servem a esta mensuração? Pressuposto que nesta seara, o que se apresenta é ascensão da moeda chinesa.

Quando no início do século se cobrava a inserção do yuan como parâmetro, a secretaria do tesouro estadunidense refutava, exigindo que o governo asiático reduzisse sua intervenção na economia como premissa a dar garantias ao ¨mercado¨ e por fim deixasse a moeda flutuar. Hoje o mundo tem informações suficientes para saber que, as premissas exigidas apenas representavam a tentativa de retardar um momento que se faz premente.

Em 2004 o yuan era a 35º moeda em transações, atualmente está entre as dez maiores. As maiores taxas de crescimento de seu PIB e ser o maior exportador do mundo alteraram este parâmetro positivamente. O fato é que seu desempenho no comércio garantiu que diversos países aceitassem sua moeda como pagamento, pois passaram a depender da importação do país asiático. A máxima é que a China compra preferencialmente de quem lhe compra.

Diante desta nova realidade, o Fundo Monetário Internacional em 24 de setembro inseriu o yuan na cesta que mensura as transações internacionais de pagamentos. Desde 1999, o Direito Especial de Giro(DEG) que se assemelha uma moeda virtual, era formado apenas pelo dólar(EUA), iene(Japão), Euro(zona euro) e libra(Inglaterra). Esta é a segunda medida importante , já que o FMI já tinha inserida o yuan na cesta de suas reservas.

Corroborando com esta análise se faz primordial compreender, mesmo que os Estados Unidos atue contra, que o mercado mostra sinais de caminhar no sentido de respaldar uma mudança. Entre 17/12/2016 a 8/9/2017 o dólar se desvalorizou em 7,85% (saindo de 6,959 para 6,452 de yuan), somente em setembro a queda foi de 1,2%, a maior para um mês desde julho de 2004. Este movimento reduz as dívidas das empresas chinesas e permite o avanço do poder de compra diante dos estadunidenses.

Passando dessa abordagem, é preciso reconhecer que o dólar ainda é 60% das reservas cambiais e líder em transações comerciais e de serviços. Este modelo se mantém principalmente porque os Estados Unidos é deficitário na balança comercial e paga suas contas através de sua moeda, espalhando o dólar pelo o mundo ao contrário da China que sendo superavitária acumula e ainda não distribui yuan. A título
de explicação a potência americana financia seu ¨défit¨, seja fiscal ou comercial, via emissão de papel-moeda.

Mesmo que os dados ainda mostrem a supremacia estadunidense, o comparativo com o passado aponta superação deste padrão, principalmente pela razão que os EUA estão longe de ser superavitários e a China de ser deficitária. Em todo caso, mesmo que analistas que servem aos fundos de lastro em dólar queiram esconder, três forças fundamentais reforçam o yuan.

A primeira é que a China é detentora da maioria dos títulos da dívida da nação da América do norte e não deixará de usar caso necessite impor sua moeda. A segunda é a mais importante pois se desenrola atualmente. O maior mercado de demanda do dólar é o oriente que acumula recursos e o usa como pagamento, a mudança para venda de barril de petróleo em moeda chinesa(iniciada na Venezuela) vai reduzir muito esta procura, forçando sua desvalorização. Nasce os petroyuan em detrimento dos petrodólares. A terceira é que a China possui a maior produção mundial em ouro e pode lastrear sua moeda, ao contrário dos Estados Unidos, desde que abandonou o padrão-ouro(1971) por incapassidade de honrar a paridade que lançou em Bretton Woods(1946), não tem como alterar esta realidade no médio prazo.

Fontes:

www.xe.com/es/currencycharts/?from=USD&to=CNY&view=2Y (intervalo do gráfico 17/12/2016 a 8/9/2017)

www.cgtn.com

Telesur/vtv

www.hispantv.com

Autor:

Tulio Ribeiro é graduado em economia,pós-graduado em História Contemporânea,mestre em História Social, doutorando em ¨Ciencias para Desarrollo Estrategico¨pela UBV-Caracas. Autor do livro: A politica de Estado sobre os recursos do petróleo, o caso venezuelano.

Tulio Ribeiro

Túlio Ribeiro é graduado em Ciências econômicas pela UFBA,pós graduado em História Contemporânea pela IUPERJ,Mestre em História Social pela USS-RJ e doutorando em ¨Ciências para Desarrollo Estrategico¨ pela UBV de Caracas -Venezuela

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17 comentários

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cleomar josé cordeiro

10 de outubro de 2017 às 16h33

Texto muito oportuno para reflexões do mundo contemporâneo.

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Miguel Barbosa

09 de outubro de 2017 às 20h07

Muito bom e esclarecedor o texto de Túlio. É de gente como o Tulio que estamos precisando, para podermos ter por onde ir. Fico muito contente de existirem pessoas como o Tulio e outros da área da economia.

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lu

09 de outubro de 2017 às 18h36

Ótimo texto ,concordo plenamente.
Parabéns pela abordagem.

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Guimarães Roberto

09 de outubro de 2017 às 14h25

COMO SE DEU O INÍCIO DA INDUSTRIALIZAÇÃO NA CHINA
Resumidamente foi assim.
Durante o período conhecido como “guerra fria” os EUA, sob a presidência de Richard Nixon, vinham tentando uma reaproximação com a URSS, que tinha como primeiro ministro Nikita Khrushchov, com dois objetivos:
1º – diminuir o contingente de forças americanas e soviéticas estacionadas na Europa e, com isso, o custo logístico de manutenção; e
2º – diminuir as tensões que os dois arsenais nucleares, ali instalados, provocavam na comunidade europeia.
Estudos geopolíticos da inteligência americana indicavam que um dos caminhos seria primeiro, uma reaproximação com a China, que tinha como primeiro ministro Mao Tse Tung para, posteriormente, tentar restabelecer o diálogo com a URSS.
O governo americano sabia das dificuldades que Mao enfrentava com sua superpopulação, a pouca industrialização e a escassez de investimentos em infraestrutura. Mao desejava a modernização, mas sem afrontar o partido comunista da China. Procurava uma maneira de introduzir alguns aspectos do capitalismo sem ter que eliminar o comunismo.
Mas o que teria Nixon a oferecer a Mao nas áreas críticas da China?
Dentro do governo americano algumas perguntas surgiram:
1ª) Mao receberia Nixon mesmo estando em lados opostos na Guerra do Vietnam?
2ª) Como reagiria a URSS, em relação à China, caso a visita fosse um sucesso?
3ª) A ilha de Formosa (Taiwan) entraria nas negociações?
4ª) E as Coreias seriam obrigadas a assinarem um acordo definitivo de paz?
Em diplomacia é praxe negociar o que é possível, o que é admissível e o que não é conflitante, ficando o restante para uma próxima reunião a ser agendada.
E foi justamente isso que Nixon e sua comitiva fizeram.
Muito embora diplomática e cuidadosamente agendada, a reunião entre os dois mandatários tinha tudo para ser tensa, pois seria a primeira reunião a nível governamental entre o capitalismo e o comunismo, sistemas econômicos conflitantes naquele momento (e sempre). A reunião foi proposta sem que na pauta constasse nenhum acordo sobre a guerra do Vietnam ou venda de produtos americanos, assuntos proibidos pelo partido comunista. O corpo diplomático garantiu que Nixon e sua comitiva estavam indo propor soluções para os problemas chineses, iria mostrar ao governo daquele país que a solução desses problemas estava, em grande parte, lá na própria China.
Observem a inteligência, a estratégia e o objetivo concreto do governo Nixon.
Para se fabricar qualquer produto, três coisas são necessárias: a matéria prima, a mão de obra e as máquinas de fabricação (o maquinário).
Dos três, a China possuía: parte da matéria prima e mão de obra (barata e abundante).
Nixon, então, ofereceu a Mao a transferência de linhas de produção industrial (o maquinário), as mais simples no começo devido à falta de mão de obra especializada. Com isso, Mao poderia dar ocupação a um grande contingente de pessoas (mão de obra) em idade produtiva, mas desocupada. Inicialmente se utilizaria a matéria prima existente na China e, a matéria prima que a China não possuísse, os EUA garantiriam o fornecimento até a China conseguir fornecedores internacionais dessas matérias prima. Por fim, Nixon ofereceu inclusive o cliente para os produtos fabricados. Todos os produtos fabricados nessas linhas de produção seriam adquiridos pelos EUA.
Mao aceitou a ideia de pronto e o partido comunista, que controla o governo, não teve como evitar a entrada de empresas estrangeiras, sob pena de ficar isolado. Qualquer governo deseja dar emprego à sua massa de trabalhadores. Isso, todos sabem, não tem oposição.
E assim se deu o início da industrialização na China.
Posteriormente, marcas famosas começaram a transferir para a Ásia, de uma maneira geral, suas linhas de produção, inclusive as que não estavam instaladas nos EUA. A grande maioria das empresas foi aproveitar a mão de obra barata, chinesa e/ou asiática. O custo unitário dos produtos fabricados em solo asiático era o mais barato do mundo.
Foi uma aula da diplomacia americana que negociou o que era possível para aquele momento e deixou os demais itens para um próximo encontro, ou seja, para depois.
Com o tempo observou-se que essa estratégia estava provocando o fechamento de fábricas no mundo inteiro, desempregando uma quantidade enorme de pessoas. Bem, isso já é outro assunto e fica para outra oportunidade.

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Guimarães Roberto

09 de outubro de 2017 às 14h23

Algumas observações:
1- Os EUA impuseram ao mundo sua moeda com base no poderio adquirido na 2ª Guerra. Dai em diante todos os países do mundo foram obrigados a exportar qualquer coisa (matérias primas, mercadorias e serviços) para obterem os US$ necessários para honrarem seus compromissos internacionais e formarem reservas. O único país que ficou fora dessa obrigatoriedade foram os EUA porque ele é o dono da máquina que fabrica essa moeda e ela tem curso forçado pelo Acordo de Bretton Woods (NH, 1944); 2- Os países detentores de reservas em US$ estão, na realidade, financiando o déficit americano; 3- Muito se fala das reservas em US$ da China, mas pouco ou nada se sabe de sua dívida interna; 4- Foi Nixon quem iniciou a transferência de linhas de produção para a China (ver meu post a seguir para maiores detalhes); 5- Petróleo é o grande problema para os EUA por não ter ainda um substituto. Não esqueçam que os parques industriais ao redor do mundo e frotas de veículos (terra, mar e ar) são movidos por essa commodity. Onde existir esse bem lá estarão os EUA a tentar ter acesso às jazidas porque sabem que sua população não aceitará modificar seu estilo de vida ou ver seus parque industrial paralisado por falta desse produto. Para isso ele não poupará esforços diplomáticos, econômicos, financeiros e bélicos. O plano americano para obter acesso ao petróleo é conhecido há muito tempo e é composto de 5 itens: diplomacia, empréstimos, suborno, desestabilização política e/ou econômica e invasão. A apoiá-lo está a mídia mundial com seus tentáculos. Nosso pais é o último exemplo da execução do plano de domínio. O pré-sal é a bola da vez.

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Verde F Aqua

09 de outubro de 2017 às 17h20

#petroyuan respaldado em ouro

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Xiao

08 de outubro de 2017 às 22h33

Desculpe fazer divulgação nessa postagem mas é porque tem tudo a ver com o assunto…

Estou divulgando um curso de mandarim online totalmente gratuito com transmissão ao vivo todas as quintas 09h da manhã na página do Facebook xiaomandarim.

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Reginaldo Gomes

08 de outubro de 2017 às 19h14

Engano !!!
A china está desesperada!
Ela é a maior detentora de títulos da dívida “IMPAGÁVEL” do EEUU . O calote é certo!!!!
É igual imobiliária . inquilino dá calote, trouxa do fiador paga!!!!
A china está a espera de um milagre e costurando paliativos.

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    Márcio Martins

    09 de outubro de 2017 às 20h02

    No problem: existe um país de calhordas ao sul do equador que em troca dos dólares dos chineses vai entregar suas empresas estatais em breve. Viu como irão resolver este problema? Levarão riqueza em troca de papel pintado…somos os novos indígenas dos tempos do descobrimento, não somos? Espelhinhos e pentes sempre nos conquistaram!

    Responder

Edson ferreira

08 de outubro de 2017 às 15h38

A hegemonia no mundo está passando das mãos dos EUA para a China. O que virá por aí ninguém sabe. Os americanos sempre usaram o marketing e sempre levaram o mundo na conversa. E com muita pólvora também. Resta saber como será a China como dona do mundo. Vai impor seus interesses como aconteceu com paises hegemônicos do passado: França, Inglaterra, Holanda. O caminho deve ser o que já se tentou sem muito sucesso: os países se organizarem em bloco para equilibrarem as forças política e econômica de uma potência mundial. A China com um bilhão e meio de habitantes assumirá as rédeas do planeta com um poder nunca visto antes.

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augusto2

08 de outubro de 2017 às 13h37

É isso mesmo.
No dia em que a china jogar ao mar suas reservas em dolar, os juros nos Usa subirão como foguete. Outros paises detentores de reservas em US$ o farão ao menos parcialmente em seguida, e o financiamento dos Usa por nosotros, os outros bobos do mundo será cortado á metade ou menos… Pequim vai faze-lo, se necessario, de modo vagaroso para não incidir ela mesma em repentina crise econômica… mas o caminho da Historia é esse.
Depois, se nesse meio tempo o imperio criar uma guerra grande pra salvar seu poder restante, Moscou e pequim poderão amarrar suas moedas ao ouro. O que será fator de atração pelo mercado, é lógico.
O que certa vez disse Madeleine Albright e ficou célebre -”somos a nação indispensável, estamos assentados muito alto e enxergamos mais longe que outras nações futuro adentro”… NAO é mais verdade, não obstante suas 17 agências de ‘inteligencia’, universidades e centros secretos de treinamento de ‘especialistas’ em geopolitica que sao de propriedade de alguma das 17 e com dinheiro publico.
E não é verdade mais pela razão simples de que a arrogância e desejo de dominio os cegaram por completo, ao contrario dos especialistas de beijing e moscou que não sofrem desses males.

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Hildermes José Medeiros

08 de outubro de 2017 às 10h37

Claro que essa é a tendência. A perda de poder, não só financeiro, dos EUA, é vista nessa arenga sem fim com a Coreia do Norte e em anunciar querer que seus aliados assumam, comprometam-se com suas próprias seguranças, e por elas respondam e paguem. Em outras épocas, não tinha conversa, todos baixavam a crista, quando os EUA davam o seu dictat, tugiam mas não mugiam. Agora, essa tendência financeira, a julgar pelas aparências, é apenas mudar do dólar para o Yuan, está longe de algo mais igualitário entre as nações, a base é a hegemonia de poder incontrastável, que dura mas pode passar, como está acontecendo com o irmão do Norte (nosso grande e pretensioso Caim). Enquanto dura, muitas injustiças e problemas para todos

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Luiz Carlos P. Oliveira

08 de outubro de 2017 às 09h38

Os Estados Unidos sempre pressionaram a China para que valorizasse o yuan frente ao dólar, o que sempre foi negado pelo governo chinês. Quem entende de economia sabe os motivos. A China é o que é por não se submeter às normas do FMI. Afinal, um mercado interno com 1,37 bilhões de habitantes não é para ser desprezado. Pelo jeito a bandeira brasileira nunca será vermelha. Mas a do mundo já está mudando de cor. Será VERMELHA! Para o resto do mundo isso não quer dizer absolutamente nada. Mas para alguns debilóides brasileiros diz muito (seja lá o que isso quer dizer, pois talvez nem esses debilóides saibam).

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Francisco Rezende

08 de outubro de 2017 às 11h30

Nós próximos dez anos a China vai se tornar a maior economia do mundo , e sua moeda o yuan mais forte que o dólar !

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Miguel Barbosa

08 de outubro de 2017 às 08h16

É verdade, Rodrigo. E é uma informação importantíssima.

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Rodrigo

08 de outubro de 2017 às 07h18

Muito bom texto.
Informações que não vemos na mídia comercial

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Leonardo Augusto dos Santos Araujo Rocha

08 de outubro de 2017 às 07h14

Ótimo artigo. A palavra incapacidade está escrita de forma errada.

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