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Bolhas, bitcoin e geopolítica, por Bruno Galvão dos Santos

Por Miguel do Rosário

20 de dezembro de 2017 : 16h38

Bolhas, bitcoin e a geopolítica do quantitative easing

Por Bruno Galvão dos Santos*, colunista do Cafezinho

Todo mundo tem falado da febre do bitcoin. Também pudera ele é o maior fenômeno de enriquecimento já visto. Ele já chegou a valer menos do que US$ 1 há poucos anos e atualmente seu valor já superou US$ 20 mil. Do nada os detentores do bitcoin possuem hoje cerca de US$ 300 bilhões, ou R$ 1 bilhão de reais. Em termos de comparação, esse valor é superior ao valor de mercado somado de três gigantes e tradicionais empresas dos EUA: Ford (US$ 50 bilhões); GM (US$ 58 bilhões) e GE (US$ 154 bilhões). Garotos bem jovens sem nenhum esforço conseguiram o sonhado por muitos yuppies ficar multimilionário antes de 30 anos de idade, detendo apenas um punhado de bitcoins. Já no início deste ano, o bitcoin era visto como uma bolha prestes a estourar. Mas, desde, então, o bitcoin valorizou inacreditáveis 1751%!

Diferente da grande maioria dos outros ativos financeiros – de ações e títulos a imóveis –, o bitcoin não gera fluxo de caixa ou juros. Paradoxamente, essa é a grande força da especulativa da valorização do bitcoin. Dessa forma, não há um preço justo para o bitcoin, pode ser 1 centavo ou 1 milhão. Por exemplo, considerando uma taxa de desconto real de 0,5% ao mês, o valor justo de um imóvel seria de 200 vezes o preço do aluguel. Numa bolha especulativa de imóvel, podem-se argumentar diversas coisas para justificar um acentuado aumento do valor do imóvel: i) a taxa de desconto real de 0,5% ao mês, o que significaria 6% ao ano, é muito elevada; ii) a escassez de terrenos nas áreas urbanas provocará um inevitável e forte aumento do valor do preço do aluguel. Com essas crenças os preços dos imóveis podem valer 500 ou até mil vezes o valor do aluguel atual. De fato, os preços dos imóveis no Brasil multiplicaram em média 3 a 4 vezes em poucos anos. Com muitos imóveis tendo uma valorização bem acima dessa média.

Contudo, com os preços dos imóveis “lastreados” na expectativa de fluxo de caixa do futuro descontado pela taxa de juros esperada, há um limite razoavelmente rígido para a especulação dos ativos. O mesmo ocorre com as ações, cujo preço seria determinado pela expectativa de recebimento dos dividendos no futuro. Da mesma forma que os imóveis, as ações podem sofrer uma onda especulativa com a expectativa de redução dos juros ou de forte aumento dos lucros e dividendos da empresa. Em empresas de setores tradicionais, já consolidados, o volume de capital e o histórico de lucro da empresa tendem a ser um preditor razoável de fluxo de caixa futuro.

Por outro lado, empresas de setores novos, tanto o capital quanto o lucro atual não oferecem uma base para estimativa de lucros futuros. Por exemplo, os casos de empresas, como Google e Facebook, que começaram com relativamente pouco capital, têm lucro de dezenas de bilhões de dólares anuais. A grande dificuldade de criar uma base objetiva para estimar lucros das novas empresas de tecnologia torna a atual explosão do preço do bitcoin comparável com a bolha das empresas de internet no começo dos anos 2000. Empresas da chamada “nova economia” prometiam lucros enormes, muito maiores do que o valor de seu capital ou do lucro presente. A grande maioria delas mostrou-se uma miragem. Contudo, as mais bem sucedidas renderam lucros fantásticos aos seus primeiros investidores.

Outro fator em comum entre a atual valorização do bitcoin e a bolha da internet é que ambos foram períodos de forte valorização de ativos financeiros tradicionais. Desde a criação do Bitcoin, o índice Dow Jones triplicou. Valorização parecida teve o índice do Dow Jones antes da bolha da internet. Naquele período, o motivo da valorização das ações de empresas tradicionais dos EUA foi o forte crescimento da economia dos EUA. Enquanto a valorização atual pode ser explicada principalmente pelo que pode ser denominado de “políticas monetárias competitivas”, os bancos centrais mantem políticas super-expansionistas para impedir a valorização de suas moedas.

O FED, o banco central dos EUA, inovou inicialmente com o quantitative easing, política de compras de títulos públicos de longo prazo com o objetivo de reduzir diretamente a taxa de juros de longo prazo da economia. Isso contrariava e continua contrariando os manuais de macroeconomia, que postulam que os bancos centrais atuam na taxa de juros, indiretamente, por meio de determinação da taxa de juros de curto prazo.

Embora recomendado por economistas heterodoxos, desde os anos 30, como Michael Kalecki, o quantitative easing era algo tão “ousado” pelos economistas atuais que não era nem previsto pelos economistas tradicionais, nem para condenar. Até um dia antes do FED iniciar essa política, simplesmente consideravam que o quantitative easing sequer existia como hipótese.

Herdando o conservadorismo do Bundesbank, o Banco Central Europeu (BCE), até então, pecava sempre pelo excesso de cautela. Contudo, a forte crise da periferia da Zona Euro não deixava muitas alternativas ao BCE. Em 2012, a desintegração da Zona Euro parecia iminente. Era importante para os euroburocratas castigar a Grécia, mas não a tão ponto que ela decidisse por sair da Zona Euro, para fingir rigor enquanto salvavam heterodoxamente bancos e outros países europeus. Era preciso que a Grécia e seu povo fosse o bode expiatório para expiar os pecados de toda Europa e os pecadores fossem salvos pelas políticas keynesianas frouxas que eles no mesmo momento negavam aos gregos. Um povo foi sacrificado para manter-se as aparências de austeridade neoliberal enquanto os culpados se esbaldavam com dinheiro fácil para cobrir as apostas insanas dos bancos feitas antes da Grande Crise de 2008.

Para isso, desde então, o BCE adotou com grande discrição importantes inovações heterodoxas em sua política, quantitative easing, a compra de centenas de bilhões de euros de títulos privados e a máxima aberração para os economistas neoliberais: a taxa de juros negativa.

Além disso, essa política tem um efeito: i) aumentar bastante a competitividade da economia europeia, ao elevar a cotação da moeda dos EUA e da China em comparação ao euro em cerca de 30%; ii) fazer com que credores passassem a pagar um pedágio (juros negativos) para poder emprestar para governos europeus, notadamente a Alemanha.

O Japão como bom aluno aprendeu rápido com os europeus. O país, que sofre há três décadas os efeitos da superapreciação da sua moeda, elegeu em 2012 um primeiro-ministro disposto a fazer quantitative easing bem mais forte que o do Fed e com isso provocar desvalorização de sua taxa de câmbio, ajudando a aumentar a competitividade, as exportações e a inflação do país.

O Banco Central suíço adotou o nível de taxa de juros mais negativo já registrado de modo a minimizar as pressões para a valorização de sua moeda. Outros bancos centrais do continente europeu, como o da Dinamarca e da Suécia, também têm adotado taxas de juros negativas. Alias, o Banco Central sueco tem sido claro que, apesar da taxa de inflação e de crescimento elevadas, manteria as taxas de juros negativas até o BCE mudar sua política. Há uma completa interligação das políticas dos bancos centrais; todos temendo aumentar a taxa de juros antes dos outros, para desespero dos rentistas europeus.

Essas três políticas dos bancos centrais – quantitative easing, taxa de juros nominais negativas e compras em grande quantidade de títulos privados – só poderiam estimular as mais loucas bolhas especulativas, pois acabaram com a rentabilidade de investimentos tradicionais já arriscados como títulos de longo prazo e ações. Com essas taxas de juros incrivelmente baixas, todos os gatos são pardos e até investimentos lunáticos parecem atraentes.

A explosão dos preços do bitcoin e de outras criptomoedas deve ser entendida no contexto de busca desesperada de investidores por algo que pareça rentável. Tal como ocorreu com o subprime, a bolha da internet e outras bolhas, essa caça por rendimentos elevados em criptomoedas certamente não resultará em um final feliz. E quanto mais tempo demorar pela correção maior será a queda. Não dá para saber quando será, mas certamente não passará do momento em que os juros americanos voltarem a subir, o que pode demorar alguns anos, se o Trump conseguir valer o discurso super protecionista e pró Guerra Econômica que ele fez esta semana. Enquanto prevalecer a Guerra Econômica, os juros continuarão baixíssimos e a maioria das bolhas continuará inflando, o que pode ser um alento para os imprudentes entusiastas do enriquecimento fácil que apostam na bitcoin próxima ao número mágico dos 100 mil dólares. Nas atuais circunstâncias geopolíticas, podemos dizer que isso realmente não é impossível, pois o precipício dos ativos ainda parece que não está perto, mas podemos garantir que quando chegar, a queda será realmente catastrófica para os eufóricos…

Dicas de investimento da semana

O cenário não mudou. Mantemos as recomendações da semana passada.

E não recomendamos a compra de Bitcoins. É a bolha mais evidente das políticas de quantitive easing, que ainda devem durar alguns anos na Europa e Japão. Algumas bolhas não devem durar tanto.

* Doutor em economia.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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4 comentários

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Nabuco

21 de dezembro de 2017 às 15h10

Alguém poderia fazer uma matéria sobre os antigos esquemas.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Boi_Gordo
https://pt.wikipedia.org/wiki/Telexfree
https://pt.wikipedia.org/wiki/Avestruz_Master

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Frank

21 de dezembro de 2017 às 03h36

Bruno, qual seria uma nova bolha que ainda está começando? Uma que renderia bons ganhos em algum tempo. rsrsrs

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Tulipa

20 de dezembro de 2017 às 19h25

Fake New$, Economia fake, justi$a fake…. Fake ,,,Fake ,,Fake
Neste mundo de fdps ladrões golpista tudo é FAKE.

Fake ,,,Fake ,,Fake Fake ,,,Fake ,,Fake

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Baba

20 de dezembro de 2017 às 17h46

Crypto moedas um mega esquema de fraude à nível internacional
No Brasil a lava jato dá golpe de estado.
Brasil um pais de Tolos.

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