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Agência de “ghost checking” denuncia falta de notícias sobre socialismo

Por Miguel do Rosário

15 de janeiro de 2018 : 14h58

Inauguramos hoje a nossa “Agência de Ghost Checking”!

Seu objetivo será identificar as principais “ghost news”, notícias fantasmas, a vagar por lugares escuros e que, às vezes, irrompem bruscamente na realidade, aterrorizando os incautos!

Uma das “ghost news” mais populares da grande mídia brasileira são notícias sobre realidades ou ideologias progressistas no mundo desenvolvido.

Ninguém no Brasil pode saber, por exemplo, que as tvs públicas sempre foram (e são até hoje) âncoras fundamentais do processo democrático em todas as nações industrializadas, incluindo nos Estados Unidos.

Ninguém no Brasil pode saber que, na Alemanha, os direitos de transmissão de campeonatos esportivos internacionais são sempre adquiridos pela ARD, a tv pública do país.

Entretanto, nenhuma ghost news é mais temida pela imprensa brasileira do que sondagens políticas que revelam tendências progressistas nas sociedades desenvolvidas.

Eu acho importante, então, a gente trazer à tôna esses números, até para combater um pessimismo exagerado que tomou conta de alguns analistas progressistas.

Vamos começar pelas pesquisas mais recentes. Em junho de 2017, o líder do Partido Trabalhista inglês (Labour Party), Jeremy Corbyn, não se torna primeiro-ministro do Reino Unido por um triz. O Labour Party recebeu uma votação surpreendente, ancorada essencialmente no voto da juventude, segundo o Yougov.

Entretanto, esses números não foram exatamente uma surpresa. Um ano antes, a mesma Yougov fez uma pesquisa para apurar a visão que americanos, ingleses e alemães tinham do socialismo.

A maioria dos alemães e ingleses tinham uma visão favorável, ao contrário do que sentiam sobre o capitalismo. Entre os americanos, apesar da visão desfavorável da maioria, notava-se uma divisão profunda entre as gerações.

 

 

Entre jovens americanos, os pesquisadores detectaram uma postura favorável bastante firme em relação ao socialismo, compatível ao nível encontrado na Inglaterra. Entre os jovens americanos até 30 anos, 43% tinham uma visão favorável ao socialismo, 17 pontos (saldo positivo líquido) acima dos 26% que responderam ter visão desfavorável.  Na comparação com a pesquisa anterior, feita em maio de 2015, houve um incremento substantivo do número de jovens que se declararam favoráveis ao socialismo. Naquela ocasião, o saldo positivo líquido do socialismo, entre jovens, havia sido de apenas 5 pontos.

 

 

 

A força do socialismo norte-americano já tinha se mostrado nas primárias do partido democrata, em 2016, quando o senador Bernie Sanders conquistou uma maioria esmagadora dos jovens eleitores. Uma matéria publicada no Washington Post em abril de 2016 informava que o senador, autodeclarado adepto do “socialismo democrático”, havia obtido, nas primárias daquele ano, mais votos da juventude do que os votos somados de Trump e Hillary!

Passada as eleições presidenciais norte-americanas, com a vitória de Trump, o prestígio de Bernie Sanders continua crescendo. As primeiras pesquisas de intenção de voto para 2020 já o colocam bem a frente de Trump, especialmente entre jovens, mulheres, liberais, negros, mais pobres e mais escolarizados (sic). Sim, o eleitorado de Trump é majoritariamente o cidadão branco, homem, classe média, com pouca escolaridade e vivendo na área rural.

Por exemplo, entre afro-americanos, Bernie Sanders tem 63% X 10% Trump.

Segundo uma outra pesquisa, o senador Bernie Sanders é, de longe, o político mais popular dos Estados Unidos, com 54% de aprovação positiva.

 

[A tabela acima foi corrigida às 16:52 de hoje, 15/01/27. O original está aqui.]

 

Para compreender as ideologias que dividem os cidadãos daquele país em liberais e conservadores, é preciso entender que, no glossário político norte-americano, o termo liberal é muito próximo do que entendemos aqui por “esquerda”, ao passo que “conservative”, ou conservador, é o que entendemos por direita.

O típico liberal americano, ao mesmo tempo em que apoia as minorias (imigrantes, negros, hispânicos, feministas), tem uma posição muito firme sobre a importância do Estado nas políticas de distribuição de renda e apoia a universalização pública e gratuita da saúde e da educação.

Segundo uma pesquisa do Pew, por exemplo, 85% dos americanos que se declaram “sólidos liberais” defendem políticas de assistência governamental aos mais pobres, mesmo que isso implique em endividamento público. Nada mais diferente do que os falsos “liberais” brasileiros, que na verdade não tem nada de liberais: são apenas conservadores!

Os mesmos eleitores que se declaram “liberais” são os que respondem favoravelmente a perguntas sobre o socialismo.

E isso não é de hoje.

Já em 2011, uma pesquisa do Pew Research Center mostrava que a maioria (49%) dos jovens norte-americanos tinham uma visão positiva do socialismo.

Repare que entre “liberais democratas”, ou seja, liberais do Partido Democrata, 59% responderam que tinham uma visão positiva do socialismo, contra 33% com visão negativa. Entre os negros, 55% afirmavam, em 2011, que eram favoráveis ao socialismo, o que reflete uma antiga aliança, nos Estados Unidos, entre os movimentos negros e os movimentos de esquerda.

Voltando ao Reino Unido, fizemos um quadro, baseado nos números do Yougov, de fevereiro de 2016, que  mostra com bastante clareza a força do socialismo no país.

No geral, há mais britânicos que se dizem socialistas (19%) do que capitalistas (16%). A maioria (48%), porém, prefere se afastar de ambos os rótulos.

Entre eleitores do Labour Party, 42% se declaram socialistas, contra apenas 4% que se dizem capitalistas, além de 36% que preferem nenhum rótulo.

Curiosamente, o saldo socialista entre mulheres é superior ao dos homens. Apesar de menos mulheres (16%) se declararem socialistas do que homens (22%), um número ainda menor dentre elas (apenas 10%)se declara capitalista, de maneira que o saldo vai para 6 pontos.

Na divisão por idade, o socialismo ganha em quase todas as faixas, com exceção daqueles com mais de 65 anos, onde se nota “empate técnico” (capitalistas 19 X 17 socialistas).

É interessante notar ainda que a Escócia é o principal bastião socialista britânico. Nessa região do país, 26% se declaram socialistas, contra apenas 8% que se dizem capitalistas.

 

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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